<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441</id><updated>2012-02-16T19:22:47.925-08:00</updated><category term='conto'/><category term='memória'/><category term='esquete teatral'/><category term='cinema'/><title type='text'>CANTO DO CONTO</title><subtitle type='html'>Blog sobre contos de minha autoria.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>22</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-2037276566892373773</id><published>2010-11-24T10:49:00.000-08:00</published><updated>2010-11-24T10:51:07.858-08:00</updated><title type='text'>BARBA</title><content type='html'>&lt;em&gt;“Os deuses, mesmo eles, lutam em vão contra a estupidez.”&lt;br /&gt;Schiller, em “A Donzela de Orleans“.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quer um conselho de amigo? Corta essa barba!”&lt;br /&gt;Quem disse isso a Rodolfo foi um sujeito a quem ele foi apresentado certa noite no bar Riviera, no início dos anos setenta.&lt;br /&gt;Rodolfo já o conhecia de vista e de ouvir falar. Sabia que ele era sargento do exército e, segundo os boatos, elemento participante da Operação Bandeirantes, organização militar que combatia o movimento subversivo. Por ser casado com uma conhecida cantora da MPB, o rapaz era mais ou menos aceito no ambiente artístico, apesar da desconfiança que um militar causava naquele meio infestado de esquerdistas.&lt;br /&gt;Naqueles tempos da ditadura militar, tinha que se ter muito cuidado: qualquer pessoa desconhecida, ou mesmo conhecida, poderia ser um espião dos órgãos de repressão, incluindo-se aí vizinhos, garçons, motoristas de táxi ou porteiros de edifício. Discutia-se a situação política em voz baixa, longe de ouvidos estranhos. Para os mais assustados, citar o nome do general Médici ou do capitão Lamarca numa conversa entre amigos, já era correr o risco de ser denunciado como subversivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto, Rodolfo avaliou com preocupação o conselho do sargento, apesar dele não lhe dizer nenhuma novidade. Claro que usar barba naquela época era muito perigoso. Acontece que Rodolfo era ator e estava sendo obrigado a usar barba por razões profissionais. Seu personagem na novela de tevê em que estava atuando envelhecera trinta anos, numa segunda fase da história. E o diretor da novela, famoso pelo seu grau de exigência, vetara a barba postiça, obrigando-o a deixar crescer a sua própria, que, esbranquiçada pela maquiagem, dava maior peso ao personagem cinquentão.&lt;br /&gt;Na vida real, sem maquiagem, a figura de Rodolfo era a de um Che Guevara tupiniquim, e era aí que residia o perigo, como, aliás, ele já tinha percebido. &lt;br /&gt;Dois meses antes, viajando de ônibus para o Sul, ele tinha passado por uma situação assustadora. Durante a madrugada, no vale do Ribeira – onde um grupo de guerrilheiros estava sendo cercado pelas forças militares - o ônibus foi parado por uma patrulha do exército. Ele foi acordado pela luz de uma lanterna que explodiu em seus olhos. Em seguida, dois soldados o puxaram pra fora do ônibus, sem que ele entendesse direito o que estava acontecendo. Seus documentos, RG, carteira de trabalho e cartão da Censura Federal – sim, naquele tempo os atores tinham que ter uma licença da Censura – foram devidamente checados. Jovem e barbudo, seu perfil era o mesmo de muitos guerrilheiros que tentavam escapar ao cerco militar. Finalmente, depois que um capitão verificou uma lista e fez consulta pelo rádio, Rodolfo foi liberado, permitindo-se assim que o ônibus seguisse viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro episódio que Rodolfo tinha testemunhado no início da gravação da novela, quando ele ainda não usava a tal barba, também tinha sido bastante revelador.&lt;br /&gt;Certo dia, o diretor da novela avisou-o que as cenas que ele teria de gravar naquela tarde teriam de ser transferidas para o sábado seguinte, porque a jovem atriz que fazia o papel de sua noiva tinha ficado doente. Era uma situação inusitada porque nunca se trabalhava aos sábados. Rodolfo ainda tentou negociar pedindo que a gravação fosse realizada durante a semana seguinte, pois tinha combinado com uma namorada de passar o fim-de-semana no Guarujá. Mas o diretor da novela não se deixou convencer. &lt;br /&gt;E, de fato, no sábado seguinte foram gravadas as cenas que tinham sido adiadas, com a atriz muito nervosa e esquecendo suas falas. O que Rodolfo achou mais estranho foi que o diretor da novela, geralmente tão prepotente com atores que não soubessem o texto, dessa vez tenha tratado com tanta delicadeza a jovem atriz. &lt;br /&gt;Ao sair da emissora, na portaria, Rodolfo foi abordado por um senhor de uns cinqüenta anos, vestindo terno e gravata, que se identificou como tio da atriz. Estava ali à espera da sobrinha. Queria saber se ela já tinha acabado de gravar. Rodolfo avisou-o de que ela já tinha ido embora pelos fundos da emissora, uma saída de serviço que pouca gente utilizava.&lt;br /&gt;Essa atriz nunca mais apareceu no estúdio e, sem mais nem menos, foi substituída por outra. Alguns meses depois, soube-se que ela estava presa no DOPS juntamente com o namorado, um líder estudantil. Foi só então que Rodolfo deduziu que aquele tio era, na verdade, um policial a serviço da repressão.&lt;br /&gt;Tempos mais tarde, com o fim da ditadura militar, essa atriz chegou a ser eleita deputada federal e mesmo secretária de Cultura do Estado de São Paulo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, depois daquela conversa que Rodolfo tivera com o sargento no Riviera, o pior estava por vir. &lt;br /&gt;Naquele tempo, ele morava, provisoriamente como sempre, na rua Monsenhor Passalacqua, na Bela Vista. Sem que ele soubesse até aquele momento, esse apartamento pertencia a uma militante de esquerda que tinha se refugiado no Chile. Quem agora tomava conta do lugar por determinação da exilada era o Rosa, um contra-regra de teatro, que alugava um dos quartos para Rodolfo. Pouco tempo depois, veio morar com o Rosa um rapaz de aspecto rude, que certamente devia atender ao interesse sexual do locatário.&lt;br /&gt;“O Giovane tá fazendo um estágio lá no teatro”, explicou Rosa. “Tá aprendendo a mexer com iluminação.”&lt;br /&gt;Bom rapaz, o Giovane! Silencioso, discreto, quase não cruzava com Rodolfo, que passava o dia gravando a novela ou ensaiando uma peça de teatro.&lt;br /&gt;Certa madrugada, Rodolfo chegou ao apartamento meio de porre, depois de uma noitada.pelos bares de teatro. Mal tinha se jogado na cama, quando a campainha da porta começou a tocar insistentemente. Como o prédio não tinha porteiro, ele achou estranho que alguém estivesse batendo à porta naquela hora tão imprópria. Talvez fosse a vizinha do andar de baixo que, tendo percebido a sua chegada, tivesse vindo dar uma transada, como já tinha acontecido antes. &lt;br /&gt;Rodolfo saltou da cama e, só de cueca, foi abrir a porta. Bastou girar a chave na fechadura e foi atropelado por um bando de soldados que o jogaram ao chão no meio da sala. Um sujeito à paisana, que parecia comandar a operação, chamava-o de Nélson, enquanto um sargento o ameaçava com uma metralhadora.&lt;br /&gt;Mais tarde, Rodolfo conseguiu reconstituir o que havia acontecido. Na verdade, tinha sido confundido com um sobrinho da proprietária do apartamento, que também estava sendo procurado pelos órgãos de segurança. Naquela noite, o pessoal da OBAN tinha ficado de campana na rua, aguardado a sua chegada ao apartamento pra efetuar a sua prisão.&lt;br /&gt;Mas agora, ali no chão, pressionado com violência, um Rodolfo apavorado mal conseguia articular uma frase, quanto mais desfazer o mal-entendido.&lt;br /&gt;“Olha só quem tá aqui!”, anunciou um dos soldados que tinham ido revistar o resto do apartamento. Giovane e Rosa entraram na sala enrolados num lençol.&lt;br /&gt; “O que é que você tá fazendo aqui, rapaz!?”, espantou-se o sujeito à paisana.&lt;br /&gt;“Eu moro aqui”, respondeu Giovane. &lt;br /&gt;“Estavam dormindo juntinhos na mesma cama”, disse o soldado com um risinho de deboche.&lt;br /&gt;“Eu não sabia que você era veado, cara!”, comentou o chefe, provocando graça em todo o grupo e, de certa forma, aliviando a tensão dramática daquela cena. “Não vai me dizer que você também transa com o Nélson.”&lt;br /&gt;“Que Nélson?”, perguntou Giovane.&lt;br /&gt;“Esse veado barbudo que taí no chão, porra!”&lt;br /&gt;“Ele não é o Nélson, posso garantir”, disse Giovane, ajudando Rodolfo a se levantar do chão. “Ele é ator de televisão. Tá fazendo a novela das oito da Tupi. Podem deixar o cara em paz que ele não tem nada a ver.”&lt;br /&gt;“Bem que eu tava reconhecendo ele. Só não sabia de onde”, comentou o sargento da metralhadora, abaixando a arma. ”Minha mãe não vai acreditar!”&lt;br /&gt;“Por que você não pede um autógrafo pra ele, porra?!”, explodiu o chefe mal-humorado.&lt;br /&gt;Depois que o grupo de soldados foi embora, Giovane se explicou:&lt;br /&gt;“São meus amigos, são gente boa. De vez em quando, eu faço um bico e dirijo uma viatura pra eles.”&lt;br /&gt;Naquela noite, Rodolfo nem dormiu. De manhã bem cedo, pegou a sua mala e foi morar no Hotel Coliseu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela época, usar barba era muito perigoso.&lt;br /&gt;Aliás, não usar barba também era muito perigoso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-2037276566892373773?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/2037276566892373773/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/11/barba.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/2037276566892373773'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/2037276566892373773'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/11/barba.html' title='BARBA'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-8247132506632643494</id><published>2010-10-25T17:43:00.000-07:00</published><updated>2010-10-25T17:45:11.626-07:00</updated><title type='text'>VALENTE</title><content type='html'>Para o mestre Antunes Filho, que aprecia esta história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“É estranho mas verdadeiro, pois a verdade é sempre estranha – mais estranha que a ficção.”&lt;br /&gt;Byron, em “Don Juan”.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Orozimbo Valente, O. Valente, Valente ou, simplesmente, Vale, é considerado o maior ator rodrigueano do nosso teatro. Milton Morais, Jorge Dória, Osvaldo Loureiro, José Maria Monteiro, Nélson Caruso, Ivan Cândido, Jece Valadão e tantos outros grandes atores interpretaram Nélson Rodrigues e souberam tirar proveito do “prato cheio” que os textos do nosso maior autor teatral oferece aos seus intérpretes. Mas Valente é imbatível. Quem o viu em “Os Sete Gatinhos”, em “Álbum de Família” ou em “Bonitinha mas Ordinária”, jamais esquecerá a verve, o humor corrosivo, a truculência e a dramaticidade que emanava daquela figura enorme e poderosa.&lt;br /&gt;E Valente propiciou a um jovem ator uma experiência inusitada: durante um espetáculo, diante de uma platéia lotada, ele foi apresentado a um colega que ele nunca tinha visto antes e de quem nem sequer tinha ouvido falar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nélson Rodrigues teve seus primeiros textos montados no Rio de Janeiro na década de quarenta, mas em São Paulo, até os anos setenta – ao contrário de que ocorre hoje - o genial autor era mal recebido em montagens esporádicas que vinham do Rio. Dizia-se que Nélson não fazia sucesso em São Paulo, da mesma forma que Abílio Pereira de Almeida, do TBC paulista, não era bem aceito no Rio. Até mesmo o grande Ziembinski – quem primeiro descobriu a genialidade de Nélson - tivera a ousadia de montar “O Boca de Ouro” em São Paulo, reservando para si o personagem protagonista, o que resultou em retumbante fracasso: público e crítica não aceitaram aquele bicheiro carioca falando com sotaque polonês.&lt;br /&gt;Foi então que uma atriz e produtora resolveu correr o risco de montar “Bonitinha mas Ordinária” em seu teatro de São Paulo.&lt;br /&gt;Depois de alguns testes, o nosso jovem ator foi escolhido para representar Edgar, o herói da peça, que é obcecado por uma frase do Otto Lara Resende: “O mineiro só é solidário no câncer.” Para o personagem do dr. Werneck, que se opõe  a Edgar, o diretor do espetáculo fez questão de trazer  do Rio de Janeiro um ator por quem ele tinha admiração, o grande Valente, que por sinal já tinha feito o personagem na primeira montagem da peça, no Rio, em 1962.&lt;br /&gt;Como Valente já conhecia bem o personagem, ele só chegou a São Paulo na segunda ou terceira semana de ensaios. Veio acompanhado da mulher e de um cachorrão de estimação, sendo instalados num apartamento no mesmo prédio do teatro. Segundo o administrador da companhia, a idéia de manter Valente por perto era proposital, já que ele carregava a fama de ser temperamental. Hoje diríamos que, apesar de também ser psicanalista, o grande ator sofria de “transtorno bipolar”.&lt;br /&gt;Naturalmente que na classe teatral a lenda de Valente já era bem conhecida. Além da carreira de ator, ele sempre tivera o sonho de ser médico. Dizem que cursou medicina durante uns vinte anos, formando-se com mais de cinqüenta, e agora com mais de sessenta anos nas costas também exercia a profissão de médico psicanalista num hospital público. “Só um louco faria a loucura de que se tratar com o louco do Valente”, diziam as inumeráveis más línguas do teatro.&lt;br /&gt;Outro fato curioso referia-se ao nome artístico de Valente. Ele odiava o nome que recebera na pia batismal: Orozimbo. Tanto assim que, em seus primeiros trabalhos como ator, ele assinava apenas O. Valente. Mais tarde passou a ser apenas Valente. E ai de quem o chamasse de Orozimbo! Dizem que o homem partia pra briga.&lt;br /&gt;Tudo transcorreu normalmente durante os ensaios do espetáculo. Os problemas começaram a acontecer logo depois da estréia. Uma hora antes da peça começar, Valente descia do seu apartamento e ia tomar uma biritas no botequim que ficava ao lado do teatro. Assim ele conseguia driblar a mulher, uma santa senhora, que o tratava com zelo maternal mas sob rédea curta. Todos que participavam do espetáculo, e que reverenciavam o extraordinário ator, começaram a estranhar o seu crescente mau humor.&lt;br /&gt;Certo dia, Valente pediu pra ter uma conversa séria com o diretor.&lt;br /&gt; “O jovem ator me olha no fundo dos olhos!”, reclamou Valente.&lt;br /&gt;“E isso não é bom?”, estranhou o diretor.&lt;br /&gt;“Não naquela cena!”, gritou Valente.&lt;br /&gt;Na tal cena, o dr. Werneck diz a Edgar com violência: “Você vai casar com a minha filha, mas não se esqueça que você é um ex-contínuo!”. Ao que Edgar responde: “Tá certo. Eu sou um ex-contínuo. E você é um filho da puta. Seu filho da puta!” Nisso a luz cai encerrando a cena com grande impacto.&lt;br /&gt;Valente argumentou que o jovem ator levava a ofensa para o plano pessoal, chamando ele, Valente, de filho da puta. &lt;br /&gt;Claro que não se tratava disso. Pelo contrário, o jovem ator tinha respeito e admiração pelo colega veterano. &lt;br /&gt;Nélson Rodrigues é sempre enxuto, econômico, preciso. Não exatamente como hoje, em que se corta e se adapta Nélson a torto e a direito, naquela época mexer num texto do autor seria uma heresia que ele não permitiria.  No entanto, a fim de acalmar Valente, o diretor pediu que Edgar evitasse o “filho da puta” e o chamasse de “bosta”: “Eu sou um ex-contínuo e você é um bosta. Seu bosta!”. O jovem ator, claro, aceitou a ordem, mesmo sabendo que a cena perdia o impacto, porque nada como o palavrão adequado na hora certa.&lt;br /&gt;Não adiantou grande coisa a mudança do texto. Valente continuou chegando em cima da hora, enchendo com bafo de bebida o pequeno camarim que dividia com o jovem ator. Um silêncio pesado se estabeleceu entre os dois, acentuado pela timidez do jovem ator diante do mau humor daquele monstro sagrado. Alertada pela produção ou porque o próprio Valente comentasse alguma coisa em casa, sua mulher esperou certo dia o jovem ator na porta do teatro.&lt;br /&gt;“Desculpe o Vale, meu filho. Ele tá com alguns problemas. Ele é como uma criança. Desculpe ele”, disse a mulher. O jovem ator ficou tão sem graça que nem soube o que responder. Sua admiração pelo grande ator sempre permanecera a mesma.&lt;br /&gt;Até que, certa noite, Valente não apareceu no teatro. O administrador da companhia subiu até o apartamento do ator e descobriu que, momentos antes, ele tinha ido pra rodoviária com a mulher e o cachorro. Ele voltava para o Rio sem avisar ninguém.&lt;br /&gt;Já eram quase nove horas da noite e um bom público aguardava na sala de espera o início do espetáculo, que seria suspenso, claro. Aí veio uma notícia surpreendente. Havia um outro ator que iria fazer  o papel de dr. Werneck a partir daquela noite. E esse ator chamava-se Evilásio Marçal.&lt;br /&gt;O jovem ator ficou pasmo. Primeiro a inesperada fuga de Valente. Depois esse outro ator, que surgia do nada pra salvar a continuidade imediata do espetáculo. Ele nunca tinha visto e nem nunca tinha ouvido falar desse tal Evilásio Marçal. Como é que um sujeito desconhecido ia entrar no espetáculo assim de repente, num papel tão difícil e sem nenhum ensaio?&lt;br /&gt;Foi então que a produtora explicou o que estava acontecendo. Desde que Valente começara a dar problemas, ela contratara alguém para substituí-lo: um ator do teatro de revista, a quem o diretor do espetáculo também admirava. Fazia algum tempo que Evilásio assistia aos espetáculos. Tinha decorado o texto e as marcações. Como Valente o conhecia, Evilásio se escondia no fundo da platéia, a fim de não despertar nenhuma desconfiança no outro a respeito de sua possível substituição. Avisado por um telefonema, ele já estava a caminho do teatro, vestindo o seu figurino de cena, um smoking.&lt;br /&gt;Agora já eram mais de nove e meia, o público se impacientava. Quando Evilásio apontou na porta do teatro, o espetáculo teve início. Havia uma passagem por cima da platéia que Evilásio utilizou, enquanto transcorriam as primeiras cenas de Edgar. Por isso, o jovem ator e o estreante não se encontraram nos bastidores. Até o momento em que o dr. Werneck entra em cena por um lado do palco, Edgar pelo lado oposto, e são apresentados um ao outro. “Edgar, quero te apresentar o teu futuro sogro, o dr. Werneck”, diz o cafajeste do dr. Peixoto, que tinha planejado aquele estranho casamento. &lt;br /&gt;Assim o jovem ator acabou conhecendo Evilásio Marçal no palco e na vida real, ao mesmo tempo. Ele tinha imaginado que, ao entrar em cena, iria encontrar um sujeito grandalhão como Valente, mas, ao contrário, Evilásio era baixinho. E, no final dessa cena, o texto ofensivo à mãe do dr. Werneck pode ser retomado sem nenhum problema.&lt;br /&gt;Sem nunca ter ensaiado com o elenco, Evilásio não errou nenhuma fala ou marcação, &lt;br /&gt;neste ou nos outros espetáculos que se seguiram por mais alguns meses. Fora de cena, era um sujeito extremamente gentil. Tinha um emprego público e vestia-se sempre de terno e gravata. Depois que a peça saiu de cartaz, o jovem ator nunca mais o viu e nem teve notícias dele. E até hoje – não fosse o testemunho de outras pessoas que conheceram Evilásio Marçal – tem a impressão de que ele não passa de uma miragem com que uma vez contracenou.&lt;br /&gt;Quanto ao problema de Valente, que não conseguia suportar a agressão verbal à mãe do seu personagem, logo surgiu uma possível explicação. Parece que, pouco antes de voltar para o Rio, sob os efeitos do álcool, o ator teria revelado a alguém da produção que, quando menino, vivera nas proximidades da avenida São João, no centro de São Paulo, onde sua mãe fazia a vida. Se isso for verdade, o fato é bastante curioso: o psicanalista dr. Orozimbo Valente não conseguiu superar o seu próprio trauma infantil. Situação dramática bem rodrigueana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de “Bonitinha mas Ordinária, o jovem ator encontrou Valente apenas mais uma vez. Alguns anos mais tarde, no Rio de Janeiro, visitando uma amiga que morava na rua Piragibe Frota Aguiar, que limita Ipanema e Copacabana, ele foi até a janela do apartamento examinar o belo sol de verão que fazia lá fora. Como esta rua é muito estreita, sua atenção foi logo despertada por um homem gordo, de bermuda e sem camisa, que brincava com um cachorro na sala de um apartamento em frente. De repente o homem veio até a janela e deu de cara com o jovem ator que o observa com curiosidade. Houve um instante de embaraço e os dois acabaram se reconhecendo. O jovem ator, em sua timidez, não sabia o que fazer, talvez fugir da janela, como se nada tivesse acontecido. Foi salvo porque Valente sorriu pra ele, ao mesmo tempo em que lhe enviava um gesto da saudação.&lt;br /&gt;Foi um gesto de adeus. Poucos dias depois, já em São Paulo, o jovem ator soube pelos jornais que o grande Valente tinha falecido repentinamente no dia anterior. Que ele descanse em paz!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-8247132506632643494?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/8247132506632643494/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/10/valente.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/8247132506632643494'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/8247132506632643494'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/10/valente.html' title='VALENTE'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-2849053322203911516</id><published>2010-09-29T06:58:00.000-07:00</published><updated>2010-10-25T17:48:00.876-07:00</updated><title type='text'>NA JANELA</title><content type='html'>&lt;em&gt;“O medo foi a primeira coisa que os deuses criaram no mundo.”&lt;br /&gt;Statius, em “Tebaida”.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A velha senhora acabou de sair do supermercado e agora arrasta o carrinho de compras em direção ao seu apartamento. São três quadras pela calçada meio esburacada. Em sua direção vem um rapaz barbudo, que faz parte do bando de moradores de rua que há alguns dias se instalou por debaixo das marquises daquela rua.&lt;br /&gt;Depois de se cruzarem, a velha senhora desconfia que o rapaz parou e que virá atacá-la pelas costas. Ela se vira e vê o rapaz parado junto ao meio-fio.&lt;br /&gt;“Que é que tá olhando, velha?”, pergunta o rapaz. “Tu qué apanhá?”&lt;br /&gt;Ainda mais assustada, a velha senhora prossegue o seu caminho o mais rápido que pode, com medo que o rapaz venha ao seu encalço.&lt;br /&gt;Ela mora sozinha num apartamento térreo do pequeno edificio. A janela do seu quarto-sala dá diretamente para a calçada. Antes de dormir, ela costuma ler na cama algum livro da coleção “Sabrina”, pra espantar as idéias tristes. Alguém bate na janela e a velha senhora, como sempre, leva um susto. Pode ser algum vizinho, algum parente. Ela abre uma fresta na janela protegida por uma grade de ferro. Lá está o rapaz barbudo.&lt;br /&gt;“Pelo amor de Deus, a senhora não me arranja um prato de feijão com arroz?”, pergunta ele. “Eu tô morrendo de fome.”&lt;br /&gt;A velha senhora sente pena do pobre coitado. Espírito generoso não lhe falta: faz poucos dias, a pedido do pároco da igreja de São João, ela acompanhou a caminhada final dos “sem terra” pela avenida Farrapos até o Palácio Piratini, no centro de Porto Alegre.&lt;br /&gt;“Posso te oferecer café com leite”, diz ela. “Espera um pouquinho que eu vou esquentar o leite.”&lt;br /&gt;Ela apanha no armário uma caneca de metal que tinha comprado na loja de 1,99 e que ainda não tinha usado. Através da grade, ela entrega ao rapaz a caneca de café com leite e um pãozinho com manteiga.&lt;br /&gt;“Olha”, diz o rapaz depois de se alimentar, “a senhora tem que lavá bem essa caneca, lavá com água quente e sabão, porque eu tenho HIV.”&lt;br /&gt;A velha senhora tem um momento de hesitação e depois devolve a caneca ao rapaz, dizendo: &lt;br /&gt;“Fica com ela. Assim, quando tu precisar de uma caneca, tu já tem.”&lt;br /&gt;Na noite seguinte, luz acesa no quarto, o rapaz bate novamente na janela. A velha senhora atende.&lt;br /&gt;“Quero lhe pedi um favor”, diz o rapaz. “A senhora pode me emprestá um pouco de gel pra passar no cabelo? Resolvi fazê uma visita pra minha mãe e quero ir com as melena bem penteada.”&lt;br /&gt;A velha senhora vai até o banheiro e volta com um pote de brilhantina que foi deixado ali por um sobrinho há mais de trinta anos.&lt;br /&gt;“Pode ficar com o potinho”, diz ela.&lt;br /&gt;“Muito obrigado, senhora”, diz o rapaz. “Sabe, vou visitar a minha mãe por causa da senhora.”&lt;br /&gt;“Como assim?”&lt;br /&gt;“A senhora se parece muito com a minha mãe, tem a cara dela. Por isso, fiquei com saudade dela. Amanhã vou procurar por ela.&lt;br /&gt;“Vai, meu filho, vai sim. Tua mãe vai cuidar de ti. Estás precisando dela”, encerra a velha senhora, já fechando a janela.&lt;br /&gt;“Só mais um favor”, diz o rapaz. “A senhora não me empresta vinte reais pra eu pegá o ônibus? A minha mãe mora no interior, em Osório.”&lt;br /&gt;Então a velha senhora vai até a cozinha e apanha vinte reais de dentro de um açucareiro, onde esconde o dinheiro que recebe do INSS.&lt;br /&gt;Na terceira noite, a velha senhora está lendo na cama “O Grande Amor de Eduarda” quando batem na janela. Ela desliga a luz. Lá da rua, o rapaz grita:&lt;br /&gt;“Não adianta tu apagá a luz, velha! Eu sei que tu taí!”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-2849053322203911516?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/2849053322203911516/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/09/na-janela.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/2849053322203911516'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/2849053322203911516'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/09/na-janela.html' title='NA JANELA'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-3869639184799688947</id><published>2010-08-22T20:12:00.000-07:00</published><updated>2010-08-22T20:14:33.387-07:00</updated><title type='text'>O FIGURANTE</title><content type='html'>&lt;em&gt;“Desejar a imortalidade é desejar a eterna perpetuação de um grande erro.”&lt;br /&gt;Schopenhauer&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia anterior, a produção do filme tinha me avisado que, finalmente, iríamos rodar a sequência do cemitério, que ainda faltava para a conclusão da filmagem. A dificuldade tinha sido conseguir autorização oficial de algum cemitério da cidade pra que um bando de atores, técnicos e figurantes perturbassem o sono eterno dos que “já fizeram a passagem”, como diz um amigo meu. O cemitério seria em Perus, na Grande São Paulo.&lt;br /&gt;Outro problema a ser solucionado tinha sido a questão do tempo. O diretor do filme queria um enterro debaixo de chuva, pois sabia que toda a cena de enterro que se preze tem que ter chuva e guarda-chuva. Como o serviço de meteorologia estava prevendo um dia de sol, a produção fez um grande esforço e conseguiu a promessa do corpo de bombeiros de Perus de enviar uma guarnição para produzir uma chuva artificial.&lt;br /&gt;Portanto, aí pelas oito horas da manhã seguinte, uma Kombi entrou pela rua principal do cemitério trazendo a mim e mais meia dúzia de atores que participariam da filmagem. Fomos descarregados junto a um jazigo de mármore cuja imponência contrastava com a humildade dos demais túmulos, alguns apenas cobertos de terra. Toda a sequência deveria ser rodada ao redor desse túmulo majestoso guarnecido por um enorme anjo de asas abertas.&lt;br /&gt; Perto dali, uns trinta figurantes já nos aguardavam, vestindo os seus melhores trajes, já que a produção paupérrima não lhes fornecia o figurino. E o enterro tinha de ser chique: o falecido era um velho industrial riquíssimo que deixava uma grande fortuna que iria ser disputada pelos herdeiros. Meu personagem era o de um safardana casado com uma filha do morto. &lt;br /&gt;Nesse primeiro momento, olhamos aquela infinidade de túmulos com enorme respeito, com aquele ar compungido que sempre temos diante da morte. Em situações como essa, somos praticamente obrigados a fazer uma reflexão sobre a nossa curta existência e o nosso fim. Percebi isso ao observar o comportamento da velha atriz que interpretava a viúva do industrial: ela se benzeu e murmurou uma rápida oração. Devia estar pensando em sua própria morte, o que de fato ocorreu alguns meses depois, antes mesmo do filme entrar em exibição. Ela tinha sido uma grande estrela no início da Tevê Tupi e agora, melancolicamente, estava encerrando sua carreira como coadjuvante numa pornochanchada da Boca do Lixo.&lt;br /&gt;Daí a pouco, o caminhão de bombeiros chegou e apenas ficou por ali de sobreaviso, pois o tempo tinha mudado, começava garoar. Os cinco ou seis bombeiros ficaram sentados sobre o caminhão observando com curiosidade a atividade da equipe de filmagem. O tenente de meia idade que comandava a guarnição aproximou-se da velha atriz e pediu um autógrafo: “Pra minha mãe, que é sua fã”, explicou ele.&lt;br /&gt;Pouco depois começamos a ensaiar a primeira tomada. A laje que cobria a cova tinha sido retirada, para que o caixão baixasse sob as nossas vistas. Nós, atores, fomos colocados diante da câmera, o caixão em primeiro plano, enquanto que a figuração foi convocada para se posicionar às nossas costas. Quando o grupo de figurantes se aproximou, o diretor do filme – um sujeito de maus bofes e extremamente ferino – avaliou a indigência do que tinha para realizar sua grande obra, e comentou: “Mas olha só os amigos que o finado tinha!”&lt;br /&gt;Mas um determinado figurante chamava a atenção. Magro e alto, bem vestido num terno elegante, foi colocado pelo assistente de direção justamente atrás de mim e da bela atriz que interpretava minha mulher. Na hora de rodar a cena, olhei para trás e percebi que ele sabia se posicionar muito bem ali, como um profissional, um autêntico “papagaio de pirata”. O que estaria fazendo ali, no meio daquela bugrada, um sujeito tão fino, com pinta de executivo bem sucedido?&lt;br /&gt; Câmera rodando, no meio da cena, “minha mulher” deu um grito, interrompendo a filmagem. “Um filho da puta passou a mão na minha bunda!”, disse ela.&lt;br /&gt;Fulo da vida, o diretor olhou para o nosso figurante e vociferou: “Mais respeito, cara! É por isso que o cinema nacional não vai pra frente... Tô de olho em você! Como é o seu nome?”&lt;br /&gt;“Robério de Souza, um seu criado”, respondeu o sujeito com a cara mais inocente deste mundo.&lt;br /&gt;“Só te mantenho no filme porque você é o único desses figurantes de merda que tem panca de rico! Se não, te mandava pra puta que o pariu!”, explodiu o diretor. &lt;br /&gt;“Obrigado por não me despedir, senhor”, agradeceu o figurante fazendo uma elegante reverência. “Muito obrigado por me deixar realizar o sonho da minha vida, que é ser ator de cinema que nem o Rodolfo Valentino.”&lt;br /&gt;Surpreendido por uma resposta tão gentil e sem saber quem era Rodolfo Valentino – talvez algum jovem galã da Tevê Globo? – o diretor se desarmou e encerrou o assunto: “Então bola pra frente! Vamo rodá!”&lt;br /&gt;A partir daí, o trabalhou transcorreu normalmente. As pessoas foram se descontraindo e até esquecendo de que estavam num cemitério. Passou o cortejo de um enterro com acompanhantes chorando e o pessoal do filme não tomou conhecimento: continuaram falando alto e às gargalhadas, como se estivessem num botequim. A velha atriz contava para a maquiadora um episódio interessante que acontecera com ela na noite em que a Tevê Tupi foi ao ar pela primeira vez: o manda-chuva da emissora tinha passado a mão na bunda dela, exatamente como acabou de acontecer. De repente, um ator que deveria participar da próxima tomada desapareceu; o assistente de direção saiu a sua procura e foi encontrá-lo atrás de um túmulo em intimidades com um bombeiro. Na hora do almoço, comemos nossas “quentinhas” sentados sobre os túmulos, tão à vontade como se estivéssemos no restaurante Gigetto.  Que falta de respeito!&lt;br /&gt;Certo momento, vi o tal Robério de Souza se aproximar da “minha mulher” e conversar com ela. Logo depois ela me explicou: “O sujeito veio me pedir desculpas. Disse que não conseguiu resistir porque minha bunda é muito bonita. Olha só que cara de pau!”&lt;br /&gt;No final da tarde, tínhamos acabado de rodar o filme. Antes de me dirigir a Kombi, que já manobrava para nos trazer de volta a São Paulo, me bateu a curiosidade de saber quem era o ocupante do túmulo que nos servira de cenário. Fiquei pasmo! O mármore estampava uma pequena foto esmaltada do nosso figurante, além do nome Robério de Souza, datas de nascimento e morte, e as palavras de praxe, “descanse em paz” etc.&lt;br /&gt;Não gosto e nem tenho o hábito de me ver na tela, mas fiz questão de assistir o filme quando ele foi exibido alguns meses mais tarde. Robério de Souza não aparece na sequência do cemitério como meu “papagaio de pirata”. Sumiu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-3869639184799688947?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/3869639184799688947/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/08/o-figurante.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/3869639184799688947'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/3869639184799688947'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/08/o-figurante.html' title='O FIGURANTE'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-4600463519915019123</id><published>2010-07-28T16:27:00.000-07:00</published><updated>2010-07-28T16:28:24.612-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>O DUBLADOR</title><content type='html'>&lt;em&gt;“Se um cego guiar outro cego, os dois cairão num buraco.”&lt;br /&gt;Evangelho segundo s. Mateus, cap.5, v.14&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era só Abelardinho e a mãe neste mundo, morando no apartamento quarto-sala conjugado do edifício 200 da Barata Ribeiro, o mais famoso “balança” do Rio de Janeiro no final da década de 60.&lt;br /&gt;Primeiro, ele viera sozinho do sertão cearense. Depois de três anos de luta pela sobrevivência, trouxera a mãe, já quase cega naquela époc a, o sol inclemente da seca lhe queimara as retinas.&lt;br /&gt;Lá na cidadezinha do sertão, Abelardinho tinha visto alguns filmes da Atlântida e ficara fã de José Lewgoy. Achava o máximo a voz e o bigode do famoso vilão do cinema nacional. Anselmo Duarte e Cyll Farney não lhe diziam nada, muito menos Eliana ou Fada Santoro. Daí nasceu sua vontade de se tornar ator de cinema. Sendo assim, “pegou um ita no norte e veio pro Rio morar”, seguindo o exemplo de Dorival Caymi.&lt;br /&gt;Agora trabalhava como atendente no Banco Nacional em Copacabana, perto de casa. Nas horas vagas corria atrás da carreira artística, no cinema, no teatro e na televisão. Mas não conseguia penetrar naquele universo maravilhoso, talvez por causa da cara feia e do corpo desajeitado, como ele mesmo acreditava. Na verdade, era um sujeito despreparado, com uma visão ingênua do que seria a profissão de ator.&lt;br /&gt;Acontece que no 200 também morava um artista famoso – famoso no prédio, pelo menos -, Eduardo Del Dongo, que atuava nos teleteatros da Tevê Tupi, além de ser dublador de filmes estrangeiros. Um dia Abelardinho cruzou com ele no elevador do prédio e logo se enturmou. Penalizado com a situação do vizinho aspirante a ator, Del Dongo resolveu apresentá-lo ao estúdio de dublagem em que trabalhava. E Abelardinho começou por onde todo o dublador começa: fazendo o que se chama de “vozerio”, aquelas vozes anônimas de um grupo de personagens falando ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;A seu favor, Abelardinho tinha uma voz muito grave e bonita. E foi perdendo o forte sotaque nordestino por causa dos exercícios vocais que Del Dongo lhe passava.&lt;br /&gt;Durante uma dessas aulas, aconteceu um episódio interessante. Estavam no apartamento de Del Dongo e Abelardinho pediu licença pra ir até o banheiro. Como o aluno demorasse algum tempo a voltar à lição, o professor resolveu verificar o que estava acontecendo. Empurrou a porta do banheiro e flagrou Abelardinho, muito concentrado, cheirando uma cueca samba-canção que ele, Del Dongo, tinha acabado de usar. “Nada do que é humano me choca”, pensou Del Dongo, lembrando-se de uma frase que Cacilda Becker dissera recentemente numa peça de Tennessee Williams. Por isso, fechou a porta do banheiro discretamente e fez que não tinha visto nada de extraordinário.&lt;br /&gt;Uma nova série, que estava fazendo um grande sucesso nos Estados Unidos, ia ser lançada na Tevê Globo. O protagonista era um policial machão que dava porrada e falava grosso. Depois de alguns testes, a empresa dubladora escolheu Abelardinho para dublar o ator americano. Este trabalho fixo rendia um cachê razoável e, então, Abelardinho aproveitou a oportunidade pra largar o banco e se dedicar inteiramente à carreira artística.&lt;br /&gt;Agora sua mãe, bem acabadinha, já estava completamente cega. Diante desse fato, Abelardinho decidiu dar uma alegria à velha, anunciando que iria estrelar uma novela da Globo. Sem enxergar as imagens, apenas ouvindo a voz do filho, a ilusão maternal foi perfeita. Durante as três temporados do seriado, a velhinha cega viveu em plena felicidade com o sucesso do filho global.&lt;br /&gt;Quando o seriado foi suspenso, devido a uma greve de dubladores que se estendeu por meses, Abelardinho entrou em pânico. Mas, nisso, a velhinha morreu repentinamente. “Pelo menos, morreu feliz”, pensou Abelardinho.&lt;br /&gt;No 200, correu o boato de que ele tinha estrangulado a mãe.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-4600463519915019123?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/4600463519915019123/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/07/o-dublador.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/4600463519915019123'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/4600463519915019123'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/07/o-dublador.html' title='O DUBLADOR'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-1761697736579077815</id><published>2010-07-09T12:50:00.000-07:00</published><updated>2010-07-09T12:56:07.973-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='esquete teatral'/><title type='text'>Emprego</title><content type='html'>&lt;em&gt;Escrevi este esquete a pedido de uma atriz. Ela o recusou porque o considerou pesado demais, cruel, com um humor politicamente incorreto. Concordo com ela.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PATRÃO, TIPO EXECUTIVO, MUITO EDUCADO E FORMAL, SENTADO DIANTE DE SUA MESA, LIGA O INTERFONE.&lt;br /&gt;PATRÃO: Dona Teresinha, faça o favor de mandar entrar as candidatas. Quantas são? (............) Mais de cinqüenta?! Meu Deus! Faça uma coisa melhor, dona Teresinha. Tem alguma gorda aí? Uma gorda bem gorda? (.................) Faça o seguinte: mande entrar a mais gorducha e dispense o resto. (...............) Isso mesmo. Obrigado.&lt;br /&gt;ENTRA UMA MULHER GORDA, DE UNS TRINTA ANOS, CARREGANDO UM PORTFÓLIO.&lt;br /&gt;MULHER: Com licença...&lt;br /&gt;PATRÃO: Entre, senhorita... (ELA VAI SE SENTAR, MAS ELE INTERVÉM.) Por favor, fique de pé um instante. Eu gostaria de verificar cuidadosamente o seu visual.&lt;br /&gt;MULHER: Tudo bem, doutor, mas não deixa de ser uma coisa estranha. Porque eu não vim me candidatar a um emprego de modelo. Se bem que o anúncio do jornal era meio misterioso e não especificasse o tipo de trabalho. Em todo o caso, espero que o senhor goste do meu estilo. Tá certo que eu to meio cheinha: exagerei nos doces nesse último fim de semana. Mas se eu fizer uma dietazinha, em uma semana fico magrinha-magrinha. Mas também não posso exagerar, se não vai dar a impressão de que sou anoréxica... e eu não quero que as pessoas fiquem me olhando com olhar de piedade, como se eu estivesse morrendo de inanição por não ter o que comer. Porque eu tenho o que comer e como. E como como!&lt;br /&gt;PATRÃO: Percebe-se.&lt;br /&gt;MULHER: (DEPOIS DE FAZER UM PIVÔ) Então? Gostou?&lt;br /&gt;PATRÃO: Muito. Pra mim, tá perfeito.&lt;br /&gt;MULHER: Que bom!&lt;br /&gt;PATRÃO: Por favor, sente-se. (ELA SENTA, COLOCANDO SEU PORTFÓLIO SOBRE A MESA.) É o seu currículo?&lt;br /&gt;MULHER: Meu portfólio, como dizem as modelos. Deixa eu lhe mostrar as minhas fotos. Olha só que material interessante! Essa aqui sou eu e os meus cachorros.&lt;br /&gt;PATRÃO: Quanto cachorro! A senhorita mora num canil?&lt;br /&gt;MULHER: Imagina, doutor! Sou eu trabalhando. Foi um dos meus empregos. Eu era passeadora de cachorro.&lt;br /&gt;PATRÃO: Passeadora de cachorro?!&lt;br /&gt;MULHER: Exatamente. Este aqui é o Bobby, o meu preferido. Veja só que gracinha! Vivia me lambendo.&lt;br /&gt;PATRÃO: O quê?!&lt;br /&gt;MULHER: Lambendo a minha perna! Não seja malicioso, doutor.&lt;br /&gt;PATRÃO: Desculpe... E por que deixou o emprego? Foi despedida?&lt;br /&gt;MULHER: Não, eu deixei porque quis. Olha esse cachorrão aqui, o Manfredo. O maldito Manfredo! Um dia ele me arrastou ladeira abaixo e eu saí rolando feito uma bola. Me estrumbiquei toda! Fui parar no hospital! Depois dessa, adeus cachorrada! (MOSTRA OUTRA PÁGINA.) Aqui sou eu comendo um Big Mac, quando trabalhei de atendente no Mac Donald’s.&lt;br /&gt;PATRÃO: E saiu do emprego por quê?&lt;br /&gt;MULHER: Devo confessar que fui mandada embora. Cometi alguns erros. Eu mandava ver! Não conseguia resistir àquelas porções de batata frita, àqueles milk shakes de chocolate, àquelas tortas de banana, hum, que delícia!, já to com água na boca... (VIRA OUTRA PÁGINA.) Este aqui foi o meu último emprego...&lt;br /&gt;PATRÃO: (INTERROMPENDO-A) Tudo bem, senhorita, não precisa mostrar mais nada. O emprego é seu.&lt;br /&gt;MULHER: Que maravilha! E qual vai ser exatamente a minha função?&lt;br /&gt;PATRÃO: Não se preocupe, é fácil. Pra senhorita, é fácil.&lt;br /&gt;MULHER: Claro! Pra mim, todas as funções de uma secretária são fáceis. Sei falar inglês, francês, italiano, espanhol... e até japonês! Qué vê só? “Akira Kurosawa, Toshiro Mifune, Tatsuia Nakadai.” Ah! E tô fazendo um cursinho rápido de chinês, porque, como o senhor sabe, os chineses vão dominar o mundo. E também sou especialista em taquigrafia, computação e Xerox.&lt;br /&gt;PATRÃO: A senhorita não vai precisar de nada disso, relaxe. Mas, com todo esse preparo, como é que até hoje a senhorita não arranjou um emprego melhor, como secretária bilíngüe, sei lá?&lt;br /&gt;MULHER: Vai me dizer que o senhor não sabe? Não se faça de inocente. Patrão só admite secretária tipo modelo: magra e burra. O que não é o meu caso, como o senhor pode verificar... Mas o senhor me mata de curiosidade! Afinal, o que é que eu vou fazer?&lt;br /&gt;PATRÃO: A senhorita vai exercer a função de... digamos assim... a função de rolha de poço.&lt;br /&gt;MULHER: Nossa! Nunca ouvi falar desse cargo. O que é isso?&lt;br /&gt;PATRÃO: Eu já explico. Tudo quanto é pepino da empresa desaba em cima mim. O dia inteiro entra aqui na minha sala um bando de gente inconveniente. É cliente fazendo reclamação, funcionário pedindo aumento, minha ex-mulher cobrando pensão, marido corno querendo me dar porrada. E muita gente de teatro pedindo apoio cultural! A senhorita vai barrar esses chatos.&lt;br /&gt;MULHER: De que jeito, doutor?&lt;br /&gt;PATRÃO: Facinho ! A senhorita vai bancar a rolha de poço. Quando aqueles pentelhos quiserem forçar a entrada... sim, porque eles são ousados e não respeitam nem os seguranças... nesse caso, a senhorita se coloca bem ali no vão da porta. Fica ali paradinha. Não precisa dizer nem fazer nada. Sua presença... e somente ela... vai impedir a entrada dos energúmenos. Entendeu?&lt;br /&gt;MULHER: Entendi, doutor, agora entendi.&lt;br /&gt;PATRÃO: E então? Aceita o emprego?&lt;br /&gt;MULHER: Aceito, doutor...&lt;br /&gt;PATRÃO: Que ótimo!&lt;br /&gt;MULHER: ... mas com uma condição. Antes o senhor deve me responder uma pergunta.&lt;br /&gt;PATRÃO: Pois não, pergunte.&lt;br /&gt;MULHER: A senhora sua mãe é gordinha, não é?&lt;br /&gt;PATRÃO: É, sim. Como é que a senhorita sabe disso?&lt;br /&gt;MULHER: É uma coisa natural: com uma certa idade, as mulheres costumam engordar. Problemas hormonais, com o senhor deve saber. Mas o que eu quero lhe sugerir é o seguinte: (LEVANTANDO-SE DA CADEIRA) Por que o senhor não pega a sua mãezinha querida e bota ela ali na porta pra servir de rolha de poço?! (E SAI DA SALA PISANDO DURO.)&lt;br /&gt;PATRÃO: (CONSIGO MESMO) Que gordinha mais mal-agradecida! Ganha um emprego sem precisar fazer o teste do sofá... e ainda fica fazendo doce! (LIGA O INTERFONE.) Dona Teresinha, sobrou alguma gorda por aí? (...............) Sei, foram todas embora... Então faça o seguinte: descubra onde os “gordos anônimos” se reúnem, pegue a fulana mais gorducha, ofereça-lhe uma feijoada do “Bolinha” e me traga aqui. Como disse o Albert Camus, “depois de uma feijoada, a peste!” (E DESLIGA O INTERFONE, ENCERRANDO-SE O QUADRO.)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-1761697736579077815?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/1761697736579077815/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/07/emprego.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/1761697736579077815'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/1761697736579077815'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/07/emprego.html' title='Emprego'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-6514934511454118438</id><published>2010-06-16T21:26:00.000-07:00</published><updated>2010-06-16T21:30:02.182-07:00</updated><title type='text'>LIANE</title><content type='html'>&lt;em&gt;“Odeio e amo. Por que faço isso? Não sei, mas sinto isso e me atormento.”&lt;br /&gt;Catulo, em “Odes”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente o velho percebeu que não tinha mais jeito e ficou tranqüilo. Então pediu ao médico que o livrasse do hospital. O filho, que vivia sozinho numa casa confortável no Alto de Pinheiros e remoía uma certa culpa por deixar o pai tão abandonado, contratou uma enfermeira e instalou o velho em um quarto que estava vazio desde que a mulher fora embora com os filhos.&lt;br /&gt;Logo que chegou, o velho perguntou onde estava a cama redonda de Liane. Desmontada e cheia de poeira, a tal cama repousava fazia muitos anos no fundo da garagem, onde o filho a tinha colocado depois de uma operação sigilosa em que, seguindo as ordens do pai, tinha ido resgatá-la de um depósito de móveis da Barra Funda. “Que diabo de cama de Liane é essa?”, perguntara intrigado ao pai, naquela ocasião. “Arrematei num leilão faz muito tempo. Quando me casei com sua mãe, levei a cama pro guarda-móveis. Agora que você tem bastante espaço, faça o favor de me cuidar bem dela. E boca de siri!”, respondeu o pai, dando o assunto por encerrado.&lt;br /&gt; Agora, com a ajuda do caseiro, a tal cama redonda de Liane foi montada no quarto: o velho tinha decidido dormir nela até o fim de seus dias, que sabia próximo. Dessa forma, o filho concordara com mais uma mania do velho, que também nunca lhe dera qualquer explicação a respeito de Liane, mas que ele imaginava ser alguma antiga amante, já que aquele negócio de cama redonda era coisa de hotel de alta rotatividade. &lt;br /&gt;Na primeira noite, já acomodado na cama redonda, o velho pediu ao filho que fosse providenciar um gravador portátil. “Ih, o velho tá xarope!”, sussurrou a enfermeira, sem saber que o velho estava atento. Se a engraçadinha achava que ele estava esclerosado, tinha tomado o bonde errado: a próstata podia estar ferrada, mas a cabeça continuava boa, tão boa quanto naqueles trinta anos em que estivera contando dinheiro no Banco do Brasil. Quando o filho voltou ao quarto com o gravador, a enfermeira já tinha sido dispensada depois de levar um pito. &lt;br /&gt;“Liga a engenhoca, meu filho, e escuta essa!”, ordenou o velho. “Esses últimos dias que passei no hospital foram cheios de pesadelos, certamente por causa dos remédios, e eu consegui me lembrar de uma porção de coisas que pensava já ter esquecido, como por exemplo do Marquinho. Eu ajudava a rezar missa, e o Marquinho foi escolhido pelo padre João pra formar a dupla de coroinhas comigo, depois que o outro sacristão foi apanhado fazendo safadeza no banheiro da sacristia. Não há rua nem beco de Porto Alegre que eu e o Marquinho não conhecemos naquela época. Depois da sessão de cinema, a gente passava a noite inteira andando pela cidade à espera de que acontecesse alguma coisa. Alguma coisa quer dizer uma mulher pra transar ou uma menina pra namorar. Uma noite, na avenida Osvaldo Aranha, encontramos uma mulher meio maluca que devia ser empregada doméstica e eu a levei pro meio do parque Farroupilha. Ainda deitado na grama, comecei a ouvir vozes de uns caras que estavam nos cercando. Levantei do chão com as pernas bambas, puxei as calças pra cima e depois fiquei paralisado de terror vendo os vagabundos fechando o cerco. Eram cinco. Quando eles já estavam bem perto e já não esperavam mais nenhuma reação minha, disparei feito um foguete pelo meio deles, não sei como. Dois ainda correram atrás de mim, mas não conseguiram me pegar, naquela noite corri mais do que o Zatopek.”&lt;br /&gt;“Quem é Zatopek?”, pergunta o filho.&lt;br /&gt; “Deixa pra lá, o que interessa é que me safei de boa. Fui encontrar o Marquinho na frente do cinema Avenida. Ele estava esperando que eu voltasse com a mulher pra também tentar arrastá-la pro meio do parque. Bem chateado por ter ficado a ver navios, ele se declarou decepcionado com a minha deserção e me chamou de covarde. Covarde, uma ova! Eu não era o John Wayne pra ter coragem de encarar os cinco bandidos. Nos meus pesadelos do hospital, eu volto àquela noite no parque Farroupilha, quero correr e não consigo, meus pés são duas bolas de ferro, os bandidos estão quase me agarrando, acordava apavorado num sobressalto. Outra coisa - e é o ponto que interessa nessa agonia toda - é que eu e o Marquinho ficamos, certa vez, uma noite inteira caminhando pela cidade discutindo qual era o nome de mulher mais bonito que a gente conhecia. Depois de lançar à baila uma série de nomes, ele chegou à conclusão de que o nome feminino mais bonito era Doroti. Achei que era por causa da Judy Garland, a Doroti do “Mágico de Oz”, mas ele respondeu que não era criança nem idiota! Era por causa daquela morena gostosa que andava sempre de sarong, povoando seus sonhos com aquelas coxas de fechar o comércio, a fantástica Dorothy Lamour! Quanto a mim, não sei por quê, talvez por causa da suavidade das três sílabas que se unem delicadamente, cheguei a um nome que considerei maravilhoso: Liane. O mais estranho é que eu não conhecia ninguém com esse nome. Conhecia sim nomes parecidos, como a minha tia Leilane, uma vizinha chamada dona Lena e as três belas estrelas do cinema nacional: Eliana, Eliane Lage e Liana Duval. Já o Marquinho tinha tido a sorte de ter cruzado com uma Liane, uma garota loura e linda que fora eleita rainha do carnaval do bairro da Floresta. Na primeira noite de carnaval, ele se sentiu fulminado de paixão e passou todas as outras noites simplesmente adorando a deusa, que estava sentada, com toda a pompa, no trono de rainha, em cima de um coreto improvisado em plena rua Doutor Timóteo. Cada vez que o Rei Momo chegava junto da moça, se esfregando e tirando casquinha, o meu amigo Marquinho morria de ódio daquele gordo seboso. Mas, depois do carnaval, nunca mais a encontrou, apesar de ter investigado todo o bairro, rua por rua. Resumo da ópera: naquela noite tomei a decisão de sair à procura de uma Liane, até encontrar a minha, aquela que eu tinha certeza de que o destino estava me reservando. Como dizia meu pai, “o que é meu está guardado”. Só que eu tinha que procurar.”&lt;br /&gt;“Certa vez, por acaso, li o convite de formatura de uma escola normal em que tinha uma Liane que ia se formar. Fui à cerimônia de formatura e, na hora em que ela foi chamada ao palco pra receber o diploma, não apareceu ninguém. Eu não soube o motivo porque ela faltou, nem tive coragem de me informar com aquelas pessoas que eu nem conhecia: naquele tempo de Porto Alegre eu ainda era muito tímido.” &lt;br /&gt;“Outra vez, quando estava servindo o exército em São Leopoldo, andei namorando uma alemãzinha chamada Frida e, não sei por que cargas d’água, um dia ela citou o nome Liane. Pedi explicações. Era a filha da patroa e tinha se casado no sábado anterior. No mesmo dia o casal tinha ido morar em Natal, onde o marido servia à pátria como oficial da aeronáutica. Quase perdi a esperança de encontrar Liane, me senti um lixo. Eu também estava servindo à pátria, só que na condição de soldado raso, e dos piores que já passaram pelo 19º Regimento de Infantaria, segundo o testemunho imparcial do sargento Oliveira, mais conhecido como Motoneta, um baixinho com fôlego de gato que fazia a gente correr todas as manhãs uns quinze quilômetros pela cidade, era um tremendo vexame, eu ficava sempre na rabeira porque estava muito fraco de tanto me atracar com a Frida, acho que aquele tal de chá broxante que eles serviam no quartel era pura conversa fiada.”&lt;br /&gt;“Enfim, a primeira e até agora única Liane que conheci de verdade foi a Liane dessa cama, a minha Liane. Eu já tinha uns trinta anos e estava morando aqui em São Paulo. Um dia, passando pela rua Santo Antônio, vi um cartaz diante de uma casa-de-samba anunciando uma nova atração, justamente uma cantora chamada Liane. À noite, voltei pra conferir e tive que pagar adiantado uma nota preta pela consumação, eu que nunca bebi álcool. Pedi um guaraná. Estou me lembrando como se fosse hoje. A casa estava cheia de panacas se sacudindo e cantando música de escola-de-samba, qualquer coisa dizendo que Tiradentes morreu pela independência do Brasil etc. e tal. Agora, quando aquela zoeira acabou e Liane surgiu no palquinho, eu me apaixonei à primeira vista. Ela também era loura e linda como a Liane do Marquinho. Só que a essa altura o meu amigo Marquinho já tinha morrido atropelado em Porto Alegre, um ônibus desgovernado amassou ele contra um muro certa madrugada, eu possivelmente estaria junto com ele se ainda estivesse morando por lá, Deus me livre! O fato é que passei a freqüentar todas as noites a tal casa-de-samba, em vez de dar os meus bordejos pela Major Sertório, onde eu era mais conhecido e tinha algumas regalias. Como o meu horário no Banco fosse à tarde, tinha sempre a noite livre. Logo me enturmei com um garçom que passou a me arranjar uma mesa perto do palquinho. Liane cantava samba-canção, coisas lindas da Dolores Duran, do Antônio Maria, do Luis Antônio,“de repente em minha vida, já tão fria e sem desejo, esse festejo, essa manhã, luminosa manhã, tanto sol, tanta luz, é demais para o meu coração”, ela cantava devagar, o olhar mortiço, a voz rouca, o microfone rente à boca. Eu ficava louco. Claro que ela começou a notar a minha presença. O problema é que ela tinha dois namorados que vinham buscá-la na saída. Quando os dois vinham na mesma noite, ela dava um jeito de despachar um e sair com o outro.” &lt;br /&gt;“Uns dez dias de sofrimento se passaram até que certa noite nenhum dos dois sortudos apareceu. Era a minha vez, fomos andando a pé até sua casa. Ela morava com uma amiga num apartamento pequeno do Copan e, como essa amiga era modelo fotográfico e tinha ido ao Rio fazer um trabalho, passamos juntos nossa primeira noite. Meu Deus! Eu fico por aqui e mais não digo. Digo apenas que fui a nocaute, caí de quatro e, a partir daí, meu ciúme passou a ser do tamanho de um bonde. Isso porque ela começou a se encontrar com um sujeito de uma gravadora que prometia gravar um disco com ela. Quando ameacei partir pra porrada, ela pediu calma e me aconselhou a não ficar zangado daquele jeito absurdo, pois eu não trabalhava em nenhuma gravadora e, claro, nunca iria lhe dar uma chance de se lançar no mercado do disco. Chamei-a de burra, o sujeito devia ser um tremendo vigarista, só estava a fim de molhar o biscoito. Mas a verdade é que eu estava enganado: ela acabou gravando um elepê e conseguiu agradar. Era o tempo da bossa-nova, mas o samba-canção ainda resistia nas rádios mais populares, onde Liane teve boa divulgação à custa de jabá da bendita gravadora.” &lt;br /&gt;“Depois apareceu um sujeito de televisão, outra vez eu fiquei uma vara, mas não tinha jeito. Ela emplacou na televisão porque, além de cantar bem, era linda e fotogênica. Logo no primeiro mês recebeu uma porção de cartas de amor, uns babacas pedindo ela em casamento, inclusive. Nisso eu já tinha abandonado a casa do meu tio no Glicério e me transferido com armas e bagagens para o Copan, a amiga modelo devidamente colocada no olho da rua. Também tinha conseguido uma licença no Banco, tratamento de saúde, dei uma de louco, só faltei rasgar dinheiro, e me apresentava como empresário da grande estrela que estava surgindo no céu da canção brasileira. Mas, verdade seja dita, apesar da minha paixão por Liane, eu estava me sentindo meio gigolô, certamente devido a algum prurido moral provocado pela minha educação religiosa. Pra evitar esse sentimento, passei a trabalhar que nem um mouro, tinha que mostrar serviço à minha patroa: era secretário, divulgador, chofer, camareiro, enfermeiro, garçom, babá, moleque-de-recado, o diabo-a-quatro. O que não se faz por amor?”  &lt;br /&gt;“Foi então que um fazendeiro do sul de Minas mandou uma carta apaixonada dizendo que daria pra ela tudo o que ela quisesse, era só pedir. Liane respondeu com outra carta, marcando um encontro em São Paulo e assinando apenas L., a fim de não se comprometer demais, me confessou ela algum tempo depois. O tal fazendeiro veio voando de Minas, voando mesmo, tinha um jatinho particular. Seu primeiro presente foi comprar uma cama redonda e colocá-la, junto com a minha Liane, numa casa que ele tinha no Jardim América. Só eu sei como isso me doeu! Mas como ele só vinha de quinze em quinze dias, nesse meio tempo quem mais acabou dormindo na cama redonda com Liane fui eu. Além disso, ela me tranqüilizou dizendo que o caipirão era impotente, que era só coisa de fachada, que ele só queria desfilar com ela quando viesse a São Paulo, que apenas eu freqüentava aquela cama divina, sabe-se lá se era verdade.”&lt;br /&gt;“Juro por Deus que foi a época mais feliz da minha vida. Até que um dia aconteceu o desastre. Apareceu o Alfredo, um estudante de engenharia metido com subversão que se dizia primo de Liane. Como ele estava fugindo da repressão, foi se esconder justamente na casa do Jardim América, diminuindo o espaço físico e temporal que eu já dividia com o mineiro. Uma tarde, me bateu a passarinha: em vez de ir divulgar a minha estrela nos jornais, como sempre fazia às quintas-feiras, resolvi dar uma incerta na casa do Jardim América. Espiei pela janela basculante do banheiro e dei o flagrante: o primo e a prima faziam amor dentro da ampla banheira, no meio de uma nuvem de vapor, bolhas de sabão flutuando no ar, parecia um pesadelo, que nem no hospital. Fiquei cego de ódio. Meu único consolo foi encontrá-los na banheira e não nessa minha cama redonda.” &lt;br /&gt;“O fim da história eu soube nas redações dos jornais, que tomavam conhecimento de tudo o que acontecia mas que não publicavam nada, só receita de bolo e “Os Lusíadas” de Camões. Dizia-se que, um dia depois da cena da banheira, houve uma denúncia anônima. Quando o exército cercou a casa, o cabeça-dura do Alfredo não quis se entregar e resistiu à bala. Enquanto ele trocava tiros com os milicos, Liane aproveitou pra escapar pelo fundo do quintal e até hoje ninguém mais soube dela. O coitado do Alfredo morreu todo furado de bala e Liane dizem que fugiu. Mas fugiu como, se a casa estava cercada? Será que ela ainda  está viva? Se estivesse viva, teria reaparecido depois da anistia, você não acha? Além dessa cama, o único vestígio que restou dela foi aquele elepê que ela gravou e que o Luís Nassif elogiou na “Folha”. Agora, pra encerrar, eu gostaria de ouvir o disco de Liane, que está ali dentro da minha pasta.”&lt;br /&gt;“Fico lhe devendo essa, pai. Elepê já era. Os aparelhos aqui de casa só tocam cedê.”&lt;br /&gt;“Que coisa, seu! O que foi que aconteceu com as vitrolas, as eletrolas, os gramofones? Eu me pergunto como é que pode? Como é que o tempo passa desse jeito, tão depressa, levando tudo embora? Tudo de bom que se viveu acaba desaparecendo. É como se não tivesse existido. E, mais tarde, você morre e não sobra nem a lembrança de coisa nenhuma.”&lt;br /&gt;“Só não entendi uma coisa, pai: como foi que você acabou herdando essa cama redonda?” “Arrematei num leilão. Acontece que o fazendeiro mandou leiloar tudo o que tinha dentro da casa. Mas antes disso levou muita porrada e teve que provar que não tinha nada a ver com subversão. Bom, até que foi fácil, ele era dono da metade do sul de Minas e, naturalmente, não ia ser comunista, você não acha?”&lt;br /&gt;“Eu não acho nada. Eu não me envolvo nessa história. Apenas gravo o que você está me contando. Agora já posso desligar?”&lt;br /&gt;“Desliga.” &lt;br /&gt;Uma semana depois o velho morreu enquanto dormia e o filho, mais que dor e tristeza, passou a sentir uma enorme insatisfação. Na verdade, tinha vergonha por se sentir aliviado de mais um fardo, depois de ter se livrado da mulher e dos filhos. Pra encerrar a história, doou a cama redonda de Liane à instituição de caridade Lar Escola São Francisco.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-6514934511454118438?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/6514934511454118438/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/06/liane.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/6514934511454118438'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/6514934511454118438'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/06/liane.html' title='LIANE'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-7232397956543591796</id><published>2010-05-16T11:44:00.000-07:00</published><updated>2010-05-16T11:47:33.817-07:00</updated><title type='text'>LOUCO</title><content type='html'>&lt;em&gt;“A diferença entre um louco e eu é que eu não sou louco.”&lt;br /&gt;Salvador Dali&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu (me) convenceria como louco&lt;br /&gt;se tivesse a coragem de sair&lt;br /&gt;num belo dia de sol&lt;br /&gt;com um guarda-chuva aberto&lt;br /&gt; todo roto.&lt;br /&gt;Enquanto isso não faço,&lt;br /&gt;mantenho o máximo recato:&lt;br /&gt;escolho com cuidado&lt;br /&gt;a cor do cinto&lt;br /&gt;combinando com&lt;br /&gt;a cor do sapato.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-7232397956543591796?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/7232397956543591796/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/05/louco.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/7232397956543591796'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/7232397956543591796'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/05/louco.html' title='LOUCO'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-493048415284898086</id><published>2010-04-26T17:50:00.000-07:00</published><updated>2010-04-26T18:45:49.630-07:00</updated><title type='text'>ABEL  E FANNY</title><content type='html'>Para meu amigo Wagner Vaz, ator carioca, vizinho e fã de Fada Santoro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“Benvólio: Ai de mim! Que o amor, tão gentil na aparência, tenha que ser tão cruel e tirano na prova!”&lt;br /&gt;“Romeu e Julieta”, Shakespeare.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi no Rio de Janeiro, nos anos sessenta.&lt;br /&gt;Se Abel - que interpretava Romeu - já estava arrasado porque a temporada de “Romeu e Julieta” acabava naquele domingo, mais arrasado ficou ainda quando percebeu que Fanny – a sua Julieta - tinha ido embora do teatro sem se despedir dele. Mas, de certa forma, isso não o surpreendeu: já estava acostumado com o estranho comportamento da garota por quem estava apaixonado.&lt;br /&gt;Abel e Fanny faziam parte do grupo teatral da “Sociedade Literária Israelita Brasileira Baruch Spinoza”. Além dos jovens judeus que eram sócios da entidade, o grupo de teatro admitia atores semiprofissionais não judeus – ou “góis”, como eram chamados. No elenco de uns vinte atores, pelo menos a metade não eram judeus – sendo que um, inclusive, era de origem árabe, o que demonstrava claramente a face liberal da “Sociedade Spinoza”. Mas nem tão liberal assim, como veremos.&lt;br /&gt;A experiência teatral anterior de Abel se resumia em duas peças infantis, em que interpretara, pateticamente, um coelho numa e um príncipe na outra. Tenso e nervoso, na estréia do espetáculo em que tentava representar o príncipe encantando, soltou um sonoro pum na cena de amor com a princesa e ficou rubro de vergonha: a platéia infantil morreu de rir. Mas isso não o traumatizou.  Como sua secreta ambição era a de se tornar um novo Adriano Reys , ele não desistiu do seu sonho.&lt;br /&gt;Maior que sua ambição era a sua timidez: em estado de pânico , apresentou-se para teste com o diretor de “Romeu e Julieta” - um velho judeu refugiado de guerra que se vangloriava de ter sido assistente de direção em filmes de Ernst Lubitsch e Fritz Lang, mas que, segundo as más línguas, tinha sido apenas um simples açougueiro em sua terra natal.&lt;br /&gt;“Abel? O assassino de Caim?”, perguntou o diretor. “Você é judeu?”&lt;br /&gt;“Eu sou mineiro”, respondeu o rapaz. “Abel é apelido e nome artístico. Meu nome é Abelardo.”&lt;br /&gt;“Ótimo!”, comentou o diretor. “Julieta judia e Romeu “gói” dá samba. Eu preferia um Romeu negro, mas não tem ator negro neste país, só o Grande Otelo. Nesse caso, vai você mesmo, meu filho.”&lt;br /&gt;Lá no fundo do coração todo o jovem ator sonha em interpretar Romeu, e Abel não fugia à regra. Mas, agora que o sonho estava prestes a se realizar, baixou a insegurança e o medo de ser mandado embora logo no primeiro dia de ensaio.&lt;br /&gt; Naquela noite ele não conseguiu dormir direito de tão nervoso. E no dia seguinte, ao meio-dia, quando devia ficar no lugar do pai na portaria do edifício enquanto o velho ia almoçar, trancou-se no banheiro vítima de uma diarréia monumental.  Se soubesse a causa do transtorno intestinal do filho, o pai teria dado bronca: no seu entendimento “teatro era coisa de veado”, como sempre dizia. &lt;br /&gt;Abel e Fanny tinham vinte anos de idade, e a atração física que um sentiu pelo outro foi imediata, situação favorecida pelo amor trágico que envolve os protagonistas da peça e pelo processo de ensaio proposto pelo diretor. Com o pretexto de que a relação entre Romeu e Julieta deveria ser aprofundada, o velho diretor mandava o resto do elenco sair da sala durante as cenas do casal, e determinava exercícios de improvisação e contato físico, um tipo de preparação do ator que ainda não tinha se tornado coisa comum em nosso teatro. Durante esses ensaios privados, Samuel – que liderava o grupo teatral – ficava espionando pelo buraco da fechadura e, certa vez, pego em flagrante por um colega judeu, confidenciou-lhe:&lt;br /&gt;“Nosso diretor deve ser mesmo um vigarista. Fica provocando os dois pombinhos, botando fogo na fogueira. Vai ver, o tarado se excita vendo sacanagem alheia.”&lt;br /&gt;“Parece que você também!”, ironizou o colega.&lt;br /&gt;A verdade era que Samuel já andava desconfiado das esquisitices do diretor desde o dia em que o encontrara sentado num banco da praia de Copacabana. O velho falava em ídiche consigo mesmo e apontava a mão para o céu fazendo estranhos sinais. Quando Samuel lhe perguntou o que era aquilo, ele respondeu que estava tentando derrubar um avião da Panair com gestos mágicos.&lt;br /&gt;Os ensaios – que duraram meses devido à inexperiência do elenco e à dificuldade do texto – aconteciam na sede da “Sociedade Spinoza”, um prédio escuro na Cinelândia, com salas cheias de livros empoeirados, escritos em línguas que Abel desconhecia. Numa das saletas, alguns rapazes judeus costumavam jogar xadrez, coisa que Abel nunca tinha visto antes. Às vezes, ele ficava ao lado observando aquele jogo bizarro, sem se atrever a jogá-lo mesmo quando convidado. Tinha medo de perder feio e de se sentir humilhado pela inteligência daqueles rapazes, todos cursando a universidade, enquanto ele se considerava um ignorante que nem conseguira acabar o ginásio.&lt;br /&gt;Além dos exercícios diante do diretor, Abel e Fanny aproveitavam todo e qualquer momento em que estivessem sozinhos para se atracarem aos beijos e abraços, cheios de sofreguidão e desespero. No fundo da sala de ensaio, havia uma coluna atrás da qual se agarravam como dois animais no cio. Mas, na frente dos outros, comportavam-se como simples colegas de ofício. Nunca tinham discutido o assunto, esse ou qualquer outro: quase não se falavam. Mas parecia haver um acordo mútuo de que ninguém deveria saber que havia alguma coisa entre os dois. Ele, que nunca tivera uma namorada firme, agia dessa forma por timidez, desconfiado de que ela fazia o mesmo porque não quisesse que seus amigos judeus soubessem do seu envolvimento com um “gói” que, pior ainda, não tinha onde cair morto.&lt;br /&gt;Por ser secreta, a paixão que Abel sentia por Fanny aumentava a cada ensaio. Essa emoção verdadeira fez com que ele descobrisse sua alma de ator, depois de sua ingênua experiência em peças infantis. Jogando-se de corpo e alma no seu personagem, ele sentia finalmente a alegria e o prazer de representar. Agora não tinha mais dúvida de que era a essa a profissão que iria seguir pelo resto de sua vida, entendendo o que a grande atriz Dulcina de Moraes quisera dizer quando dissera: “Representar em cima de um palco é melhor que trepar.” &lt;br /&gt;Fanny era filha única de um velho casal de judeus ortodoxos. Aos dezessete anos, para se livrar da opressão familiar, ela conseguiu que o pai a mandasse para Israel, onde foi morar num kibutz.  Menina rica, sentia-se feliz capinando no deserto, distante do tédio que tinha sido a sua vida no Brasil. Um ano depois, estava servindo ao exército como soldada e se exercitando com uma metralhadora, sob a ameaça constante de uma eventual guerra contra os árabes.Nas areias de uma praia de Haifa, numa noite de verão, fez amor pela primeira vez com um colega de farda. Logo ficou grávida e, como não quisesse se casar com o colega, deu uma de louca e foi enviada de volta ao Brasil. Sem que ninguém soubesse, se submeteu a um aborto. E meses depois, sem ter nada o que fazer, resolveu experimentar ser atriz em “Romeu e Julieta”. Os pais não gostaram muito, mas acabaram concordando com a inesperada idéia da filha, pois, afinal, tratava-se de um grupo de teatro judeu. Consideravam a filha meio desequilibrada e, quem sabe, talvez ela encontrasse ali na “Sociedade Spinoza” um bom rapaz judeu com quem pudesse se casar.&lt;br /&gt;Às vésperas da estréia - com os ensaios já acontecendo num clube israelita situado nas Laranjeiras, onde o espetáculo iria ser inicialmente apresentado - Abel percebeu que o chofer particular que quase sempre conduzia Fanny não aguardava por ela na saída. Então ele a seguiu pela rua na direção do Largo do Machado, acreditando que não estava sendo notado. No entanto, ao parar um táxi, Fanny voltou-se para trás e convidou Abel a entrar com ela no carro. Logo estavam se beijando loucamente. Até que o motorista resmungou qualquer coisa e o casal foi obrigado a se controlar. Certo momento, para sua surpresa, Abel entendeu que Fanny estava propondo que passassem a noite num hotel. Ele já estava pedindo ao motorista que se dirigisse para o Catete, quando Fanny corrigiu:&lt;br /&gt;“Não esta noite, mas uma outra noite!”&lt;br /&gt; Ela não era boba. Estava em período fértil e só iria dormir com o Romeu às vésperas de ficar menstruada. Gato escaldado tem medo de água fria. Pílula anticoncepcional ela também não iria tomar porque podia dar câncer. Camisinha podia furar. Dali uma semana seria o momento ideal.&lt;br /&gt;“Quando o nosso dia chegar, vamos tomar um trem na Central do Brasil e passar a noite em algum hotelzinho do Méier ou do Encantado”, decretou Fanny.&lt;br /&gt;Abel achou meio absurda a proposta de pegaram trem na Central. Seria muito mais fácil se hospedarem em algum hotel do Catete. Mas Fanny expusera o plano com tanta determinação que Abel achou melhor não dizer nada: não quis correr o risco de perder o que já tinha ganho.&lt;br /&gt;Nisso, o táxi já estava chegando na Avenida Atlântica e os dois se separaram: Fanny seguiu para o Leme, enquanto Abel foi andando nas nuvens pelo calçadão de Copacabana.&lt;br /&gt;E assim foi que no domingo que se seguiu à estréia da peça, na cena final em que Julieta se suicida sobre o cadáver de Romeu, Fanny sussurrou para Abel: “É hoje.”&lt;br /&gt;Ao chegarem à Central do Brasil, ela disse que queria ter uma conversa séria com ele e o puxou pela mão até a mesa de um botequim infecto. Depois de entornar uma caipirinha, ela explicou:&lt;br /&gt;“Vou te contar uma história que ninguém sabe. Na verdade, eu não sou filha daquele casal de velhos. Ou melhor, sou filha adotada. Antes, eles tiveram duas filhas que morreram num campo de concentração. E depois não puderam ter mais filhos. Não sei direito, mas parece que ele foi capado pelos nazistas. Então eles resolveram adotar uma criança abandonada, que era eu. Tenho uma lembrança muito vaga de quando eu tinha três ou quatro anos. Junto com minha mãe eu ficava mendigando numa escadaria junto a uma estação de trem. Outro dia eu vi na televisão umas imagens da estação do Encantado, acho que é lá que a gente ficava. Me lembro da passarela sobre os trilhos, do barulho do trem, do povão andando pra lá e pra cá. Quero descer nas estações e ver se reconheço o lugar. Do meu nome eu não me lembro, mas minha mãe era chamada de Joana Cu.”&lt;br /&gt;Naquela noite eles tomaram um trem quase vazio e ficaram abraçados, em silêncio, vendo passar as imagens de um Rio de Janeiro que não se vê em cartão-postal e que eles desconheciam. Saltaram no Encantado, mas Fanny não reconheceu o lugar onde fora criança. Já era mais de meia-noite e resolveram entrar num hotelzinho vagabundo perto da estação. Não conseguiram dormir. O desejo de um pelo outro sobrepujava tanto o sono quanto o sangue da menstruação, que empapou o lençol puído e o colchão furado.&lt;br /&gt;Manhã cedo, prosseguiram a viagem na direção da Baixada Fluminense, mas à medida que o trem foi se aproximando da estação seguinte, que era Piedade, Fanny apertou com força a mão de Abel e o puxou pra fora do vagão. Em cima da passarela que atravessava os trilhos, ela parou e se debruçou na amurada: reconheceu, lá embaixo, o bar onde comia pão com manteiga e, mais adiante, a marquise onde dormia. Uma multidão caminhava apressada pela passarela de um lado para o outro e, de repente, Fanny teve a impressão de que iria dar de cara com a mãe. Depois de tanto tempo, ela ainda estaria viva? Ou teria morrido antes dela ter sido adotada? &lt;br /&gt;Essa foi a única vez que fizeram amor. Mas alguns meses depois, numa excursão que fizeram a Belo Horizonte para uma única apresentação do espetáculo, sentaram-se juntos no ônibus. Durante a noite, enquanto todos dormiam, eles ficaram se tocando com a mesma paixão de sempre. E Fanny acabou limpando nos cabelos as mãos cheias do amor de Abel.&lt;br /&gt;Agora, no último dia da apresentação da peça, no Teatro Maison de France, Fanny tinha ido embora sem ao menos se despedir. Abel tomou um ônibus para Copacabana e se dirigiu ao “Max”, um barzinho estreito e comprido situado na praia, debaixo da Galeria Alaska, onde algumas vezes o pessoal do grupo costumava se reunir. Talvez Fanny tivesse ido para lá. Dito e feito. Lá estava ela, numa mesa de fundo, junto com um fotógrafo americano. Em outras ocasiões - o grupo reunido em duas ou três mesas - o tal americano ficara ciscando ao redor de Fanny, conversando com ela em inglês, despertando assim um ciúme feroz em Abel. O diabo da timidez impediu que Abel entrasse no bar e se aproximasse da mesa onde o casal conversava animadamente. Parado na calçada como um idiota, diante do bar superlotado, ele tentou chamar a atenção da moça. Será que ela não via, ou fazia que não via, os seus gestos desesperados?  Depois de um tempo, saiu de dentro do bar um sujeito grandalhão, meio alcoolizado, que se dirigiu a Abel de maneira agressiva:&lt;br /&gt;“O que tá havendo, camarada? Tá vendendo droga?” Em seguida, o sujeito exibiu uma carteirinha identificando-se como detetive da policia e concluiu: “Vamos lá na Delegacia! Você vai ter que se explicar!”&lt;br /&gt;Cada vez mais assustado, Abel tentou se justificar, mas o policial agarrou-o pelo braço e –suprema humilhação! - o conduziu através da Galeria Alaska até a 13ª Delegacia, ali perto, do outro lado da Avenida Nossa Senhora de Copacabana.&lt;br /&gt;Diante de um grande tabuleiro de xadrez, o delegado de plantão – que logo se tornaria um famoso escritor - estava entretido em jogar uma partida consigo mesmo. O detetive aproximou-se trazendo Abel e foi logo dizendo sem a menor cerimônia:&lt;br /&gt;“Doutor, peguei este marginal em atitude suspeita, vendendo droga lá na praia.”&lt;br /&gt;O delegado continuou olhando as peças de xadrez durante algum tempo. Depois encarou o detetive com desagrado e disse:&lt;br /&gt;“Miguelão, você tá bêbado.”  Finalmente olhou para o aterrorizado Abel, perguntando:&lt;br /&gt;“E você, rapaz, sabe jogar xadrez?”&lt;br /&gt;Abel mal conseguiu balançar a cabeça sinalizando que sim.&lt;br /&gt;“Qual é o lance que você daria se estivesse jogando com as pretas?”, perguntou o delegado.&lt;br /&gt;Abel examinou o jogo, e depois apanhou um cavalo preto, pulou duas casas à esquerda e uma em frente, abatendo um peão branco. Então o delegado decretou:&lt;br /&gt; “Vá pra casa curar o seu porre, Miguelão. E você também pode ir embora, rapaz. Marginal não sabe jogar xadrez.”&lt;br /&gt;Abel voltou depressa ao “Max”, mas Fanny não estava mais lá. Depois desse dia, ela desapareceu, e os dois só foram se encontrar mais uma vez uns trinta anos mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abel estava fazendo um filme em São Paulo. Determinada sequência deveria ser filmada nos jardins de uma elegante mansão, onde aconteceria uma festa noturna com dezenas de figurantes. A equipe de produção acabou conseguindo uma propriedade no Morumbi, com a condição de que a filmagem durasse só uma noite, que se usasse apenas o jardim e que ninguém entrasse na casa. &lt;br /&gt;Lá pela meia-noite, depois de duas ou três cenas rodadas, entrou pela alameda principal um carrão importado, de onde saiu um casal. Abel e o diretor do filme, que ensaiavam a próxima cena, foram interrompidos pela aproximação do casal que se apresentou como proprietários da mansão. Abel logo reconheceu Fanny, agora uma cinquentona elegante e ainda bela. Como sempre, comportaram-se como dois estranhos. O marido dela, um italianão simpático, fez questão de dizer que estava feliz por colaborar com o cinema nacional. E Fanny comentou que, muitos anos atrás, tinha tido uma experiência teatral fazendo o papel de Julieta.&lt;br /&gt;“Agora, se retornasse ao teatro, gostaria de interpretar a maluca Lady Macbeth”, concluiu sorrindo.&lt;br /&gt;Depois o casal se retirou, e Abel pensou consigo mesmo que, mesmo não sendo tão velho, talvez já estivesse em condições de encarnar o amargo Rei Lear.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-493048415284898086?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/493048415284898086/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/04/abel-e-fanny.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/493048415284898086'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/493048415284898086'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/04/abel-e-fanny.html' title='ABEL  E FANNY'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-1569962159231493884</id><published>2010-03-26T18:45:00.000-07:00</published><updated>2010-03-27T11:41:12.983-07:00</updated><title type='text'>AS CURVAS DA ESTRADA DE SANTOS</title><content type='html'>&lt;em&gt;“Se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer.&lt;br /&gt;Entre no meu carro da Estrada de Santos e você vai me conhecer.”&lt;br /&gt;Roberto e Erasmo Carlos&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que o planejado fora ir para o Guarujá pela Rodovia dos Imigrantes, mas depois da reta do pedágio policiais rodoviários fechavam a estrada, obrigando Antônio a desviar para a direita na direção da Anchieta. A viagem, que prometera ser tranqüila, trazia essa pequena surpresa desagradável: a série de curvas perigosas à beira de precipícios.&lt;br /&gt;“Seria melhor não ter vindo”, pensou Antônio com os seus botões, sem externar seu arrependimento à moça que o acompanhava e que tanto insistira na viagem. Bem feito! Como concedera em agradá-la, agora era obrigado a enfrentar esse contratempo.&lt;br /&gt;Dono de uma conhecida agência de publicidade, Antônio estivera supervisionando a filmagem de um comercial até o início da noite daquele sábado, quando o ideal teria sido viajar na sexta-feira e assim aproveitar todo o fim de semana no apartamento do Guarujá. &lt;br /&gt;Já era a quarta ou quinta vez que ele fazia essa viagem com a moça e, por isso, ela estava tendo a impressão de que estavam namorando pra valer. Ele, nem tanto. Cioso de sua liberdade, sempre desconfiava que as jovens modelos que o assediavam quisessem fazer carreira às suas custas. A moça que agora o agora o acompanhava tinha exatamente esse perfil, no entendimento de Antônio.&lt;br /&gt;Na saída de São Paulo, conversaram sobre o assunto do dia: a descoberta do pré-sal e o progresso que o investimento econômico iria trazer para a Baixada Santista. Depois a conversa derivou para a violência que tinha tomado conta do Guarujá. Ele comentou que a cidade estava cada vez mais cercada de favelas, mas que o problema já vinha de longe. Contou que uns quinze anos antes, ele tinha uma casa na Praia da Enseada, que nessa época era um lugar bastante deserto. A casa ficava distante do mar e próxima do morro, onde já existiam alguns barracos de madeira. Certo dia, ele e a ex-mulher saíram de carro pra fazer compras no super-mercado e a empregada ficou tomando conta do garotinho, filho deles, que estava dormindo no quarto. Logo depois da partida dos patrões, a empregadinha quase morreu de susto ao ser agarrada pelas costas por dois negrões. “Dois crioulos mais pretos do que eu!”, comento a menina. Queriam dinheiro, jóias! Onde estava o dinheiro dos patrões? Ela entregou alguns trocados, que estavam guardados numa gaveta, e mais algumas bijuterias sem valor. Então os dois assaltantes foram embora, mas antes avisaram que, se ela avisasse o patrão daquela visita, eles voltariam e matariam todo o mundo que estivesse dentro da casa. Segundo a informação de um vizinho, os bandidos ficavam no alto do morro observando o movimento dos moradores, aproveitando-se da ausência deles pra invadirem as casas.&lt;br /&gt;“Vendi a casa na semana seguinte”, concluiu Antônio.&lt;br /&gt;Durante toda essa narrativa, a moça manteve o rosto voltado para o outro lado, como se observasse a paisagem escura que corria pela sua janela. No silêncio que se seguiu, Antônio começou a cismar que a moça tinha ciúme do seu passado. Bastava ele contar qualquer passagem de sua vida com a ex-mulher pra que a moça ficasse emburrada. &lt;br /&gt;Tentando quebrar o gelo que se instalara dentro do carro, Antônio perguntou o que já sabia: “E como foi o assalto que vocês sofreram lá no Guarujá?”&lt;br /&gt;“Eu já te contei, não lembra?”, respondeu ela com má vontade. “A filmagem acabou na praia de madrugada. A produção era uma merda e eu fui obrigada a pegar uma carona com a equipe técnica. Um idiota mandou parar o carro pra ir urinar atrás de uma árvore e fomos assaltados por um sujeito que nos apontou um revólver. Ele levou a câmera e a maleta com todo o material que a gente tinha acabado de gravar. Só isso.”&lt;br /&gt;Em seguida, a moça ligou o rádio do carro, dando o assunto por encerrado.&lt;br /&gt;Alguns minutos depois, desciam a serra. Antônio redobrou sua atenção na estrada porque baixou sobre o carro uma cortina de neblina e as primeiras curvas da estrada de Santos começaram a surgir à sua frente. Entretanto, como o tráfego era mínimo na passagem do sábado para o domingo, ele mal reduziu a velocidade do carro.&lt;br /&gt;Veio-lhe à lembrança a música do Roberto Carlos e ele começou a cantá-la com voz desafinada, competindo com o som do rádio. A moça, que tinha a desculpa de não ter mais do que dezenove anos, comentou: “Já ouvi essa música. De quem é mesmo? Do Caetano?”&lt;br /&gt;Antônio fez que não ouviu a pergunta e acelerou o  carro mais um pouco.&lt;br /&gt;“Vai mais devagar que eu tenho medo”, pediu a moça.&lt;br /&gt;De repente, depois de uma curva fechada, Antônio viu a sua frente um ônibus encostado na mureta de pedra. Ele ainda conseguiu reduzir um pouco a velocidade do carro, mas, ao passar ao lado do ônibus, um policial fez sinal pra que ele parasse. Só faltava agora receber uma multa! Ele encostou o carro e ficou esperando pelo pior.&lt;br /&gt; “Estão indo pra onde?”, perguntou o policial.&lt;br /&gt;“Guarujá”, respondeu Antônio, crente de que iria ser achacado como tantas outras vezes.&lt;br /&gt;“Acontece o seguinte, meu amigo: o ônibus quebrou e tem aí um casal com um bebê que tá passando mal. O senhor leva eles até o Guarujá?”&lt;br /&gt;Apanhado de surpresa, Antônio não conseguiu inventar nenhuma desculpa pra se livrar daquela missão. Concordou em dar carona ao casal. Logo deu pra perceber que se tratava de gente muito humilde, talvez nordestinos, talvez favelados. Deviam ter no máximo uns trinta anos. A mulher carregava o bebê enrolado nuns panos pobres e o marido trazia na mão uma mamadeira vazia – e esta era a única bagagem de que dispunham. O marido mal sussurrou um “boa noite”, enquanto se acomodava  com a mulher no banco traseiro.&lt;br /&gt;E a viagem prosseguiu em completo silêncio, apenas quebrado pelo som do rádio. Não havia diálogo entre o banco da frente e o banco de trás. &lt;br /&gt;A moça desligou o rádio quando o bebê começou a chorar, talvez o ruído o estivesse incomodando. Mas o bebê continuou chorando, enquanto os pais sussurravam frases incompreensíveis.&lt;br /&gt;E o berreiro da criança prosseguia, irritando Antônio cada vez mais. Lembrava-se das noites em que fora obrigado a passar em claro por causa de seu filho, um bebê chorão de marca maior. Com algum esforço, vencendo a dificuldade de penetrar naquele outro universo, Antônio olhou pelo espelho retrovisor e viu a mãe sufocando o seu próprio choro abraçada ao filho.&lt;br /&gt;“O que é que ele tem?”, perguntou a moça virando-se para trás.&lt;br /&gt;“Não sei”, respondeu o pai. “Começou a vomitar na viagem.”&lt;br /&gt;“Deve estar desidratado”, disse a moça, apanhando a garrafa de água mineral que tinha sobre o painel do carro e a entregando ao pai. A mãe preparou a mamadeira com água, que o bebê aceitou, suspendendo o choro.&lt;br /&gt;Aí o carro já estava entrando na cidade, e a moça disse: “Vamos deixar vocês no pronto-socorro. Essa criança precisa ser medicada.”&lt;br /&gt;Como ninguém respondesse nada, Antônio manobrou o carro para a esquerda, na direção da Enseada, onde ficava o pronto-socorro municipal, e não à direita, que os conduziria de imediato ao seu apartamento na Praia das Asturias. Outra aporrinhação!&lt;br /&gt;Nisso o sinal fechou e Antônio automáticamente parou o carro, quando poderia ter avançado sem nenhum perigo de acidente naquela hora tardia. Então, como um raio, surgido do nada, Antônio sentiu uma coisa fria encostar na sua orelha esquerda. Virou o rosto e viu um rapaz magrinho atrás de um revólver. Ficou gelado, não conseguiu dizer nada. Ao seu lado, a moça gemeu e afundou no banco.&lt;br /&gt;“Passa a grana, o relógio, o celular, passa tudo, tio!”, disse o magrinho, tremendo a arma no rosto apatetado de Antônio.&lt;br /&gt;Aí então, do banco de trás, o pai do bebê interveio: “Zé, é o Ranulfo!”  E aproximando o rosto da janela do carro, prosseguiu: “É o Ranulfo, Zé! Libera aí, meu irmão. O pessoal aqui é gente boa. O Júnior tá passando mal. Tão levando ele pro pronto-socorro.”&lt;br /&gt;O assaltante baixou a arma e se afastou na direção das trevas.&lt;br /&gt;Antônio tocou o carro e depois de algumas quadras, já mais calmo, perguntou: “Aquele sujeito era seu amigo?”&lt;br /&gt;“Não. Era meu irmão mesmo. É bom menino, mas se meteu com droga, perdeu o emprego de gari e agora deu no que deu. Já levamos ele pra igreja, o pastor arrancou o demônio de dentro dele, mas depois voltou, não adiantou nada.”&lt;br /&gt;Depois que o casal ficou no pronto-socorro, Antônio dirigiu o carro para o centro da cidade. Ainda na Enseada, à sua direita, ele examinou o local onde tivera a sua casa. Quase não reconheceu o espaço, tão diferente do que fora vinte anos antes. No lugar de sua antiga casa existia agora um condomínio com prédios altíssimos e, ao fundo, o morro transformara-se numa enorme favela.&lt;br /&gt;“Os gatos, em cima do morro, observando a ratazana do asfalto, prontos pra dar o bote”, pensou Antônio, sem comentar nada com a moça. Ele desconfiava que, se o assunto voltasse a ser a casa da Enseada onde vivera com a ex-mulher, tal lembrança poderia dar origem a uma “discussão da relação” capaz de varar a noite, e ele estava muito cansado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-1569962159231493884?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/1569962159231493884/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/03/as-curvas-da-estrada-de-santos.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/1569962159231493884'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/1569962159231493884'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/03/as-curvas-da-estrada-de-santos.html' title='AS CURVAS DA ESTRADA DE SANTOS'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-9190536348296527817</id><published>2010-03-04T20:53:00.000-08:00</published><updated>2010-03-04T20:56:22.957-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>HOPALONGO</title><content type='html'>&lt;em&gt;“Andar, companheiros, levar por aí afora,&lt;br /&gt;Para os sumidouros do vácuo sem fundo,&lt;br /&gt;Os cacos e entulhos da fábrica mundo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Goethe, em “Fausto”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Era uma cidade vazia, um bairro desconhecido. E caia uma garoa fria de antigamente. As ruas de terra tinham virado um lamaçal cinzento que me sujava os sapatos e a barra das calças. Por isso eu caminhava com dificuldade tentando voltar para a casa em que estava hospedado. Além do mais, anoitecia e foi me dando um desespero por não encontrar o meu destino. O fato é que não sei como e nem porque tinha chegado até ali.&lt;br /&gt;   Debaixo de um telheiro avistei dois rapazes que conversavam enquanto fumavam o mesmo cigarro. &lt;br /&gt;   “Por favor, onde fica a rua tal?”, perguntei vencendo o meu desconforto.&lt;br /&gt;   Riram na minha cara. Depois um deles explicou:&lt;br /&gt;   “Você pega a primeira rua à direita, depois a segunda à esquerda...”&lt;br /&gt;“Não”, interrompeu o outro, “pega a terceira à esquerda. É essa!”&lt;br /&gt;   Agradeci a informação e segui em frente, tendo a impressão de que eles ficaram rindo às minhas costas. Certamente eles se divertiam com o meu estado lastimável ou com a informação errada que tinham me dado.&lt;br /&gt;   Em todo caso, como imaginei que eles estivessem me observando, fosse ou não fosse gozação, dobrei a primeira rua à direita. Acabei encontrando um velho apoiado atrás de uma cerca de madeira. Debaixo de um guarda-chuva, ele parecia observar com olhos de coruja assustada o movimento da rua que era nenhum.&lt;br /&gt;   “Por favor, o senhor sabe onde fica a rua tal?”, perguntei.&lt;br /&gt;   “Eu não sei de nada”, respondeu o velho, “mas, se o senhor dobrar a próxima rua à direita, vai encontrar uma casa com um hopalongo na frente. Peça informação nessa casa. Ali reside o morador mais antigo do bairro, um velho mais velho do que eu, e ele sabe de tudo.”&lt;br /&gt;   “O senhor disse o quê? Um hopalongo?”&lt;br /&gt;   “Isso mesmo, um hopalongo!”, repetiu o velho, afastando-se depressa. Na porta do casebre, ele conseguiu fechar o guarda-chuva que quase lhe fugia das mãos engolfado pelo vento.&lt;br /&gt;   Fiquei ali parado debaixo da garoa, mais sozinho do que nunca O que seria um hopalongo? Alguma espécie de varanda na frente da casa? Algum modelo de automóvel? Um balanço de corda pendurado numa árvore? Alguma raça de cachorro vigilante? Um certo tipo de muro? Uma cerca viva? Que diabo seria um hopalongo? Aquela palavra me soava familiar, mas significando o quê?&lt;br /&gt;   Foi então que me lembrei de Hopalong Cassidy, o herói dos antigos faroestes da minha infância, a quem a molecada, inclusive eu, chamava de “Hopalongue Casside”. Por certo, não seria ele que eu iria encontrar nessa minha caminhada.&lt;br /&gt;   Enfim, não encontrei nada que pudesse ser um hopalongo e acabei me perdendo dentro da noite que me envolveu rapidamente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-9190536348296527817?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/9190536348296527817/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/03/hopalongo.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/9190536348296527817'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/9190536348296527817'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/03/hopalongo.html' title='HOPALONGO'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-8913596842855954725</id><published>2010-02-09T15:41:00.000-08:00</published><updated>2010-02-09T16:03:20.318-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>ALÉM DA ARREBENTAÇÃO</title><content type='html'>&lt;em&gt;Para Will Damas, dramaturgo e poeta anarquista.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabo de ler no jornal que Vivi morreu afogada no Posto Cinco de Copacabana. Ela e um homem de quarenta anos, solteiro (não era o marido dela, portanto), foram nadar além da arrebentação e morreram afogados. Segundo testemunhas, o casal chamava a atenção porque estava aos beijos e abraços dentro d’água. Por incrível que pareça, os dois corpos foram retirados do mar ainda abraçados.&lt;br /&gt;Ir além da arrebentação é muito perigoso. Só quem sabe nadar muito bem é que se atreve a tanto. Esse namorado de Vivi não era como eu: devia ser um bom nadador. Fico imaginando como teria sido a morte deles: ela cansou, sentiu câimbras; ele tentou salvá-la e também se afogou. Fim. &lt;br /&gt;Essa notícia me faz lembrar o dia em que conheci Vivi, faz uns trinta anos. Nunca vou esquecer o que aconteceu porque, naquele dia, por uma estranha coincidência, eu também estive a ponto de morrer afogado no Posto Cinco.&lt;br /&gt; Ela era uma menina magricela, ruivinha e sardenta, que sentou ao meu lado na areia e a quem eu ofereci um sorvete. Quando eu entrei no mar, ela veio atrás, me ultrapassou e ficou boiando lá adiante na arrebentação das ondas. Não sei nadar, mas queria me exibir pra ela e fui em frente até ficar com água na altura dos ombros. A onda grandona vinha, eu pulava no balanço dela. Quando voltava a tocar com o pé no fundo, a cabeça já estava fora d’água. E assim ia me mantendo junto de Vivi, segurando sua mão por debaixo d’água porque ela me avisou que seu irmão mais velho estava jogando futebol na areia e, se visse ela namorando, iria contar ao pai – que era um militar troglodita – e aí adeus praia.&lt;br /&gt;De repente, me apavorei. Não dava mais pé por mais que me espichasse. Comecei a bater pernas e braços como um louco. Vivi conseguiu voltar pra onde dava pé, enquanto eu me desesperava engolindo água salgada. “Vem pra cá, vem!” – ela gritava assustada na minha direção. Ir pra junto dela era o que eu mais queria naquele momento, mas de que jeito¿ Nisso passou por mim um garotinho flutuando numa bóia e eu, já sem fôlego, no desespero, me agarrei no calção dele. Então o moleque começou a gritar comigo, me chamando de filho da puta, já meio de bunda de fora. Aí finalmente veio uma correnteza e me empurrou na direção da praia junto com o garoto. “Me larga, desgraçado! Brincadeira mais besta!” – ele reclamava ainda quando eu o soltei. Com muito custo fui saindo d’água, Vivi me puxando pela mão. “Teu irmão pode ver!” – avisei. “Você é mesmo um bocó!” – ela respondeu. “Quase morre afogado, não se agüenta em cima das pernas e ainda fica preocupado com o meu irmão! Ele que vá pro inferno!”&lt;br /&gt;Havia mais: quando chegamos ao montinho de areia onde estavam os nossos pertences, tinham roubado o meu radinho de pilhas, que eu tinha comprado com tanto sacrifício, e um relógio de pulso que Vivi tinha herdado da avó dela. “É muito azar num dia só!” – falei pra ela. “Se eu pego o lazarento que roubou o teu relógio, encho o safado de porrada!” “Deixa pra lá! O que importa é que você não morreu afogado” – ela tentou me consolar.Coisas dramáticas como essas – o meu quase afogamento e o roubo dos nossos objetos de estimação – envolvem as pessoas. Eu tinha a impressão de conhecer Vivi há um século.&lt;br /&gt; Descansamos um pouco na areia, um sol violento queimando pra valer, e depois fui levá-la até a casa da tia, que morava numa transversal da Nossa Senhora de Copacabana. A entrada de banhistas era dentro da garagem e ficamos dando um amasso lá junto do elevador, enquanto não passava ninguém. Beija daqui, beija dali, comecei a baixar a parte de cima do maiô dela, quando me aparece o zelador do edifício. Foi um Deus nos acuda! A gente se soltou, ela ajeitando o maiô, eu virando as costas para o homem, naquele estado. O empata-foda arranjou um paninho e começou a limpar os carros que estavam por perto só pra sacanear a gente. O jeito era ela entrar no elevador e eu dar o fora – era o que o zelador estava querendo nos dizer com aquelas esfregadelas nos para-brisas. “Sujeito mais idiota!” – falei no ouvido dela. “Vai ver nunca fez o que a gente tá fazendo e ficou com inveja. Essa raça de zelador e porteiro de edifício é tudo recalcado.” Ela então me puxou pela mão na direção da saída, me convidando pra tomar uma coca-cola no bar da esquina.&lt;br /&gt;No meio do caminho, comecei a pensar: “Vou arriscar tudo de uma vez. Se colar, colou; se não colar, azar é o meu.” Já estávamos quase chegando ao  bar e eu ainda criando coragem pra fazer a minha proposta. “Por que não vamos tomar coca-cola lá em casa¿” – despejei de uma só vez sem muita convicção. Ela pareceu não entender o que eu tinha dito (ou talvez estivesse ganhando tempo pra analisar melhor o meu convite) porque deu alguns passos sem reagir e depois perguntou com toda a naturalidade: “O que foi que você disse¿” Repeti, audacioso: “Por que não vamos tomar coca-cola lá em casa¿ Moro aqui pertinho, no fim da Sá Ferreira.” Ela andou mais um pouco e eu fui atrás, esperando tudo, que ela apressasse o passo e fosse embora em silêncio ou que, antes de ir, ela me aplicasse uma bolacha. “Bem que a gente podia, né¿” – disse ela finalmente parando na beira da calçada e me olhando na cara, como se me desafiasse. “Claro!”- baixei os olhos e continuei a caminhar sem saber pra onde estava indo. “Então vamos. Onde é mesmo o teu apartamento¿”- ela falou passando a mão na minha cabeça como se eu fosse criança.&lt;br /&gt;Assim fomos para o meu apartamento (felizmente os dois caras que dividiam comigo o sala-quarto conjugado não estavam lá) e tudo correu bem até o ponto em que havíamos chegado na porta do elevador, quando o bendito do zelador nos interrompera. Agora, quando seguíamos adiante, ela começou a respirar com dificuldade, ronronando como uma gata. Isso ainda me deixou mais excitado. Mas logo percebi que interpretara mal os gemidos da garota. Ela estava passando mal e me pediu que eu fosse correndo até uma farmácia comprar um remédio contra asma: era muito comum sofrer ataque de asma quando se emocionava além da conta. Recebi um balde de água fria. &lt;br /&gt;Me vesti correndo, fui à farmácia e voltei num segundo, apavorado com a idéia de Vivi morrer no meu apartamento, com toda a complicação que podia surgir daí. Mas ela logo voltou ao normal, depois de dar umas bombadas na garganta com o aparelho que viera dentro da caixa de remédio. Mais tarde, eu a levei de táxi pra casa, na Tijuca, e gastei uma nota preta. Voltei pra Copacabana de ônibus, preocupado com a minha situação financeira.&lt;br /&gt;Muita coisa aconteceu depois. Sempre nos encontrávamos na praia, sob o olhar vigilante do irmão. Uma vez ela veio ao meu apartamento com um violão e me cantou um samba bossa-nova muito bacana que ela disse que tinha composto em minha homenagem, falava em onda do mar, areia, sol, verão, essas coisas. Ela tocava o violão apoiando o pé em cima do meu sofá-cama e acabou furando o estofamento com o salto ponteagudo do sapato, fiquei puto da vida e quase mandei ela embora. &lt;br /&gt;Durante esse tempo todo, eu continuava mantendo na gaveta do armário o tal remédio contra asma. E quando a gente ia pra cama, a bombinha sempre ficava ao alcance da minha mão, porque à certa altura, quando ela se emocionava o bastante, lá vinha aquele rosnado de gata, e eu era obrigado a me conter e lhe aplicar meia-dúzia de bombadas na garganta. Era até divertido.&lt;br /&gt;Vivi desapareceu durante as férias de verão e depois voltou, vestindo o seu uniforme de normalista, com um presente pra mim, um copo onde estava escrito: “Estive em Poços de Caldas e pensei em você!” Depois de algum rodeio, acabou dizendo que estava grávida por minha causa. Não acreditei muito, ela ficou zangada e foi embora gritando que nunca mais queria ver a minha cara. Duas semanas mais tarde, nos encontramos dentro de um ônibus e ela veio comigo ao meu apartamento. Mas não aconteceu nada dessa vez porque, antes do ataque de asma, ela começou a sentir outro tipo de incômodo: tinha feito um aborto poucos dias antes. Pra encurtar a história, acabamos discutindo e brigando. Falei que por causa dela eu tinha perdido o meu radinho de pilhas e o meu sofá-cama estava furado.&lt;br /&gt;Depois desse dia, eu nunca mais a vi. Joguei fora o tal remédio contra asma, inclusive porque já devia ter perdido a validade. &lt;br /&gt;Alguns anos depois fui abordado , na praia, por um sujeito muito simpático. Era o tal irmão dela. Me informou que ela tinha se casado com um capitão do exército e que estava esperando um segundo filho. Pra mim, ela continuou sendo a imagem comovente de uma  ruivinha com pele de ferrugem, no seu uniforme de colégio de freiras. &lt;br /&gt;Agora essa notícia no jornal... Pensando bem, o mais provável é que Vivi tenha se emocionado demais, além da arrebentação, levando consigo pro fundo do mar – igual uma sereia – o homem que não pudera livrá-la de uma crise de asma.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-8913596842855954725?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/8913596842855954725/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/02/alem-da-arrebentacao.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/8913596842855954725'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/8913596842855954725'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/02/alem-da-arrebentacao.html' title='ALÉM DA ARREBENTAÇÃO'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-6794869690508078383</id><published>2010-01-26T09:17:00.000-08:00</published><updated>2010-01-26T09:18:11.848-08:00</updated><title type='text'>ALGUMA MEMÓRIA (4)</title><content type='html'>&lt;em&gt;“O que finalmente eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol.”&lt;br /&gt;Albert Camus&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Pela época do meu nascimento, meu avô Emílio tinha um time de futebol, em que jogavam os homens da família e alguns vizinhos. O mais curioso de tudo era o nome do time: “Os Onze Cardeais”. Usavam um gorrinho vermelho na cabeça, possivelmente em homenagem ao pássaro cardeal e não à púrpura religiosa dos príncipes da igreja. Lembro-me apenas dos tais gorrinhos vermelhos que, naquele tempo, eram peças indispensáveis ao uniforme dos futebolistas, que não queriam desmanchar o penteado ou serem atrapalhados pelas longas melenas.&lt;br /&gt;Mas os dois grandes times amadores do bairro de São João eram o “Marquês do Alegrete”, com sede social na Rua Augusto Severo, quase na esquina com Benjamin Constant, e o “Farroupilha”.  As partidas entre os dois times rivais geralmente acabavam em conflito generalizado. Acompanhado de um parente mais velho, eu gostava de assistir a essas disputas, que ocorriam em alguns campos da várzea próximos ao aeroporto, especialmente pra ver um beque central chamado Batoque, que, baixinho como o apelido sugere, costumava dar um salto mortal e rebater a bola com os calcanhares, exatamente como tantos anos mais tarde vimos o goleiro Higuita fazer. Outra jogada inusitada a que assisti uma vez foi no campo do Fiatece, no bairro dos Navegantes: um goleiro defendia pênaltis encostado a uma trave; quando o adversário chutava a bola, ele corria na direção da outra trave, agitando braços e pernas, e assim confundindo o cobrador.&lt;br /&gt;Nesses gramados – e “gramados” é força de expressão, pois o que mais havia era terra batida – vi jogar um elegante centro-avante negro chamado Breno Mello, que mais tarde, atuando profissionalmente no Rio de Janeiro (mais precisamente, como reserva no Fluminense), foi convidado pelo diretor francês Marcel Camus a estrelar o filme “Orfeu Negro”, grande sucesso comercial na época. Depois disso, ele fez mais um ou dois filmes. Diz que nos últimos anos de vida, ele ganhou algum dinheiro exibindo uma cópia do “Orfeu Negro” e apresentando-se pessoalmente em cinemas do interior do Rio Grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anos mais tarde, na década de 60, numa das casas do terreno de meu avô, morou um moleque de cabelos compridos chamado João Batista. Vivia ali com a mãe, que trabalhava fora o dia inteiro como enfermeira. Por isso, cabia a minha tia Luci tomar conta do moleque, que era endiabrado. Na década seguinte, ele se tornou conhecido como Batista, que juntamente com Paulo Roberto Falcão e tantos outros craques formaram o grande time do Internacional. Hoje, Batista é comentarista esportivo do canal “Sport TV”.&lt;br /&gt; No “Marquês do Alegrete” brilhava o capitão do time, um center-half que jogava e comandava sua equipe com muita classe e que tinha o sugestivo nome de Napoleão. Casado com uma filha do presidente do clube, ele tinha o apoio das mulheres da família e da pequena torcida feminina, que gritavam em coro: “Napô! Napô! Napô!” Já o half-esquerdo, que devia ter uns 25 anos de idade, também era o treinador do time infantil do “Marquês”. Treinador também é força de expressão: ele apenas escalava o time e nos acompanhava durante os jogos. Havia algum comentário de que o sujeito gostava de bolinar os garotos nas sessões noturnas do cine Rosário, e a nossa tática era ficar longe dele.&lt;br /&gt;O infantil do “Marquês” jogava de pés descalços e era formado por meninos entre dez e treze anos de idade. Eu jogava na meia-direita. Na ponta-direita tinha o Benito Marquesin, veloz e habilidoso. Tinha um enorme senso de humor e gostava de apelidar todo mundo.  Chamava meu tio Breno Malta - gremista apaixonado pelo futebol, ainda hoje capaz de correr atrás de uma bola - de Tio Bubu. Benito era sobrinho do campeão gaúcho de ciclismo, Jovino Trombini, fato que o deixava muito orgulhoso.&lt;br /&gt;O centro-avante (ou center-forward) era o Chico. Malicioso e esperto, ele vendia balas no cinema Colombo, na Avenida Cristóvão Colombo, onde assisti a muitos filmes da Metro sem pagar entrada devido a sua interferência.&lt;br /&gt;Como zagueiros revezavam-se três meninos mais fortes: Mário, Aldoíno Zilio e Antoninho Além. Aldoíno acabou se profissionalizando como zagueiro do Novo Hamburgo e depois como treinador físico do Grêmio. Antônio Além não brincava em serviço: tenho um calombo no joelho esquerdo, que me impede de ficar ajoelhado por muito tempo, devido a uma entrada assassina que ele me deu. Foi meu colega no colégio dos padres, o São João Batista, e uma vez, numa aula de matemática, disse uma coisa interessante: na verdade ele deveria se chamar “Antônio Além na Segunda Potência”, já que seu pai e sua mãe eram primos e tinham o mesmo sobrenome. Também fazia parte dessa família sírio-libanesa um “brimo”, que todos os sábados à tarde aparecia no bairro carregando uma enorme cesta com os mais variados tipos de doces. Aquilo era uma festa! Mais recentemente, conversando com o jornalista e homem de teatro Edson Nequete, eu soube que, por um acaso do destino, era ele, Nequete, o tal vendedor de doces.&lt;br /&gt;Outra figuraça era o Rui, apelidado de Cobra: mulato esquelético, jogava futebol usando uma reduzida sunga de natação esverdeada, deslocando-se pelo campo de maneira esquisita, como se fosse um réptil. Era engraxate ambulante, vivia em péssimas condições com a mãe adotiva e acabou morrendo de inanição aí pelos quinze anos. Certa vez, o Grêmio ia jogar em Novo Hamburgo, e Rui acabou sabendo que eu, meu pai e meu tio Breno, iríamos de carro até a cidade vizinha assistir ao jogo. Na noite anterior à partida, Rui acendeu uma vela e ficou zanzando diante de minha casa como se estivesse procurando alguma coisa que tinha perdido. Todo mundo preocupado, ele explicou que, realmente, tinha perdido a passagem de trem para Novo Hamburgo e o ingresso antecipado que havia comprado com tanto sacrifício. Compadecido, mesmo sem acreditar na história, meu pai deu carona ao Cobra e pagou o seu ingresso.&lt;br /&gt;Os bailes de carnaval na sede social do “Marquês do Alegrete” eram famosos pela fantástica imoralidade, por isso não eram freqüentados pelas moças e rapazes de família. Quando muito, ficávamos discretamente na calçada pra ver a entrada das mulheres seminuas – e nem tão seminuas assim! Era um grande salão de madeira – o que não é surpreendente, já que a própria sede do Grêmio Porto-Alegrense, em plena Rua da Praia, não passava de um barracão cheio de taças, fotos e medalhas. Esses bailes eram organizados pelo faxineiro do clube, um homossexual rude e musculoso que habitava um quartinho junto ao salão. O único freqüentador desses bailes que eu conheci era o nosso amigo Nezinho, que gostava de nos reportar todas as bandalheiras que ocorriam no salão. Pouco mais velho do que a turma, era metido a malandro: cabelão preto cheio de brilhantina Glostora, calça boca dezoito apertadinha no tornozelo e um pentinho preto, que costumava manejar, em brigas imaginárias e ricamente coreografadas, como se fosse um punhal. No dia seguinte ao baile, a turma de bocós se sentava no bueiro da esquina da Vilela Tavares com Augusto Severo, e Nezinho nos contava como tinha sido a noite passada, que sempre acabava ao nascer do sol com ele e a odalisca transando sobre folhas de jornal, no meio do mato, junto ao campo de aviação.&lt;br /&gt;Esse mesmo Nezinho encerrou sua carreira de malandro quando, certa noite, na frente do cinema Rosário, que ficava à meia quadra da sede do “Marquês”, se desentendeu com um desconhecido. Estava acompanhado de um amigo, um meu xará chamado Ênio, e puxou o seu famoso pentinho preto, que na penumbra passava como se fosse uma faca. O problema foi que o desconhecido puxou uma faca de verdade e saiu golpeando os dois amigos a torto e a direito. Sobrou para o meu xará, que morreu na hora, enquanto Nê passou um mês no hospital entre a vida e a morte, sobrevivendo afinal. O que o salvou foi estar vestindo um sobretudo Camelo, um casacão de pano grosso transpassado na frente, muito usado naqueles invernos.&lt;br /&gt;Aí pelos treze anos, joguei futebol em outro time, o “Maltense”. Marino Boeira e Luiz Folchini, dois meninos que eram vizinhos na Rua Marquês do Alegrete, tinham acabado de fundar esse time. Apesar da origem italiana dos dois, puseram o nome português de “Maltense” porque haviam comprado numa liquidação um conjunto de camisetas que tinha no peito uma cruz de Malta. Aí jogávamos de chuteiras. Além de mim, diversos infantis do “Marquês” participavam da nova equipe, entre os quais, Aldoíno, Benito e Chico. Zeca e Ciro Chamoun, que se formaram comigo no Ginásio São João Batista, eram os novos colegas. Ciro jogava um bolão, era um centro-avante rompedor capaz de marcar muitos gols – ou “golos”, como se dizia.&lt;br /&gt;Além do futebol, Marino e Luiz (colorados doentes!) tinham interesse por cinema e literatura, o que fortaleceu em muito a nossa amizade. Marino colecionava os livros publicados pela editora Mérito, assim acabei lendo “O Egípcio”, de Mika Waltari, “Uma Fábula”, de William Faulkner, “Eurico, o Presbítero”, de Alexandro Herculano, e tantos outros. Já muito politizado  - torcia pelo Inter por causa da Internacional Socialista e da cor vermelha - Marino era fã de Sartre e dos grandes escritores russos. Emprestou-me “Os Caminhos da Liberdade”, “ A Náusea”, “Guerra e Paz”, “ Crime e Castigo”, “O Vermelho e o Negro”.&lt;br /&gt;Voltando ao capítulo futebol, meu pai era torcedor do São José, certamente porque residira perto do clube, no Passo da Areia, logo que chegou do Interior. Quando o “Zequinha” fechou as portas, ele se tornou gremista por influência minha e de meu irmão, Evaldo Gonçalves, que mais tarde foi jornalista esportivo da “Zero Hora”. Eu fui gremista desde que nasci, influenciado por dois tios, Breno Malta (com quem jogava bola todos os finais da tarde) e Saturnino Fernandes Borba (que também foi meu padrinho de crisma).&lt;br /&gt;Outro tio meu, tio Paulo, torcia pelo Renner não sei por que cargas d’água. Ele costumava me levar ao estádio do clube, situado na Avenida Farrapos. Lembro-me de ter assistido ali a uma partida entre o “Vasco da Gama” e o dono da casa. No “Vasco”, lembro-me do centro-médio Danilo e do centro-avante Ademir, jogadores da seleção brasileira. Outro craque que me impressionou foi o meia-direita Zizinho. Antes do futebol pela televisão, ver esses jogadores atuando era algo excepcional. Às vezes, conseguíamos vê-los rapidamente através do Canal Cem, que passava nos cinemas. Aí a vibração, tão distante, dos grandes clássicos do Maracanã nos causava uma grande impressão.&lt;br /&gt;No “Renner”, cansei de ver dois jovens jogadores que depois se tornaram conhecidos nacionalmente: o goleiro Valdir de Morais e o zagueiro Paulinho, que logo se transferiu para o “Vasco da Gama”. E quando o “Renner” acabou, tio Paulo virou colorado, um absurdo!&lt;br /&gt;Um fato esportivo que marcou a minha infância – e a de tantos brasileiros! – foi a perda da Copa do Mundo de 1950, que não ouvi pelo rádio porque tinha ido à matinê de domingo do cine Rosário. Quando saí do cinema, o clima de velório pairava no ar, o mesmo estado de  choque causado pelo suicídio de Getúlio Vargas, quatro anos mais tarde. No dia seguinte, o avião que levava o time uruguaio de volta pra casa fez uma escala em Porto Alegre. Uma multidão acorreu ao aeroporto. Meu pai conseguiu um autógrafo do meia Juan Schiafino numa nota de dez cruzeiros, que ele guardou pelo resto da vida como lembrança daquele pesadelo.&lt;br /&gt;Outro acontecimento marcante foi quando Tesourinha (Osmar Fortes Barcelos), ex-ponteiro direito do Internacional, depois de passar duas ou três temporadas no “Vasco da Gama”, voltou a Porto Alegre contratado pelo Grêmio. Tesourinha tinha sido o maior ídolo do futebol gaúcho, formando uma dupla infernal com outro jogador negro, o pequeno Adãozinho – a propósito de quem Plínio Marcos me contou uma história interessante: indo a Bauru para fazer uma palestra, o grande dramaturgo foi convidado a conhecer o famoso centro-avante gaúcho, que tinha encerrado sua carreira na cidade e que, agora, trabalhava na cozinha de um restaurante; conduzido até a cozinha, Plínio não conseguiu falar com Adãozinho porque ele estava dormindo dentro de uma panela.&lt;br /&gt;Mestre Tesoura foi o primeiro jogador negro a vestir oficialmente a camisa do Grêmio, e me lembro de tê-lo visto jogar pelo meu time, já com mais de trinta anos, mas ainda com incrível velocidade e domínio de bola, voando pela lateral direita ou cortando enviesado do meio de campo na direção do gol adversário. Imagens Inesquecíveis!&lt;br /&gt;Tesourinha ficou como o meu ídolo esportivo, assim como é o ídolo de tantos colorados que o viram jogar. Em entrevista que vi recentemente, o colorado Luiz Fernando Verissimo também o colocou no mesmo pedestal.&lt;br /&gt;(Continua)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-6794869690508078383?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/6794869690508078383/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/01/alguma-memoria-4.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/6794869690508078383'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/6794869690508078383'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/01/alguma-memoria-4.html' title='ALGUMA MEMÓRIA (4)'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-2699627821963847008</id><published>2010-01-09T08:52:00.000-08:00</published><updated>2010-02-09T15:46:47.436-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='memória'/><title type='text'>ALGUMA MEMÓRIA (3)</title><content type='html'>&lt;em&gt;“A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas.”&lt;br /&gt;Chico Buarque em “Leite Derramado”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Pablo Neruda deu um título muito expressivo – e que se presta a diversas interpretações – à sua autobiografia: “Confesso que Vivi”. Já Daniel Filho escreveu “Antes que me Esqueça”, certamente com a preocupação de contar sua vida antes da chegada do deletador Alzheimer.&lt;br /&gt; Outro título autobiográfico muito interessante é “As Amargas Não...”, diário em que o poeta gaúcho Álvaro Moreyra  excluía de suas lembranças os momentos amargos. E ele viveu uma vida bastante agitada: poeta, jornalista, cronista, também foi homem de teatro. Tentou sacudir a poeira do teatro nacional na década de 20, fundando com sua mulher, Eugênia Álvaro Moreyra, a companhia “Teatro de Brinquedo”. Também é autor de uma peça de estrutura surpreendente para a sua época, “Adão e Eva e os Outros Membros da Família”, em que mostra personagem cheirando cocaína. Se bem que, naquele tempo, esse era um hábito social bem aceito nas altas esferas.&lt;br /&gt;Claro que não tenho a pretensão de “escrever para a posteridade” estas minhas lembranças. Se algum amigo, parente ou descendente meu se interessar em ler estes retalhos de memória, já me dou por satisfeito. De minha parte, curioso que sou, gostaria que meus antepassados tivessem  me deixado algum registro escrito de sua passagem por este mundo.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;“Apaga a luz, quinta coluna!” – este deve ter sido o primeiro bordão que aprendi em minha vida. &lt;br /&gt;Lá pelo final da Segunda Grande Guerra, quando o Brasil resolveu participar do conflito, houve um treinamento de alerta para a população civil, caso acontecesse um {improvável) ataque aéreo alemão. No início da noite, a Quarta Delegacia de Polícia – que ficava na rua Pereira Franco, a duas quadras da casa de meu avô Emílio – acionava uma sirene estridente que alertava  toda a vizinhança. Imediatamente todas as luzes da casa deviam ser apagadas. Ficávamos todos, adultos e crianças, olhando pelas frestas das janelas para verificar se realmente havia um blecaute total. Se houvesse qualquer resquício de luz na vizinhança, sempre ouvia-se um gaiato gritando: “Apaga a luz, quinta-coluna!”&lt;br /&gt;A chamada “Quinta Coluna” correspondia à rede de espiões nazistas que atuavam fora da Alemanha .  Luz acesa poderia indicar o alvo para o bombardeio aéreo. Na casa de meu avô havia um cuidado especial em atender à regra do blecaute, pois minha avó tinha receio de ser vítima do preconceito de algum vizinho mais xenófobo. Os Rohden e os Dullius, vizinhos próximos que falavam alemão com minha avó, deviam ter o mesmo tipo de preocupação. Aliás, meu avô, que não tinha nada de germânico, também aprendera a língua através da convivência com a família de minha avó, os Buhl. Minha mãe dizia que, quando criança, só se falava em alemão em sua casa.&lt;br /&gt;No final da guerra, houve racionamento de gasolina, e os veículos passaram a ser movidos à gasogênio, que ficava armazenado em um tubo de aço junto ao motor. Entretanto, como todo mundo, meu pai começou a comprar gasolina no mercado negro a fim de abastecer o seu caminhão. Um grande tonel de metal, meio escondido no fundo do quintal, junto à garagem, servia de depósito para a preciosa gasolina.&lt;br /&gt;E foi atrás desse tonel que tive a minha primeira experiência sexual. Acontece que numa das casas que meu avô alugava veio morar uma menina loura e ranhenta chamada Anita, mais ou menos da minha idade, uns cinco ou seis anos. Nos dias de verão, as mães costumavam dar banho nas crianças dentro de dois tanques de lavar roupa, que ficavam lado a lado no quintal. Eu já tinha visto a menina pelada dentro do tanque, mas não ousara olhar direito porque morria de vergonha. Mas, nesse belo dia de sol, fomos os dois para trás do tal proibido tonel de gasolina, tiramos nossas roupas e ficamos ali examinando detidamente, com direito a toque, tudo o que faltava nela e que sobrava em mim. Nisso, ouvimos passos que se aproximavam e nos vestimos rapidamente. Era minha mãe, que, recuperando-se de uma operação pulmonar, vinha se sentar ao sol a fim de cicatrizar o corte que tinha às costas. Em vez de esperar um tempo, eu e Anita saímos precipitadamente como dois idiotas do nosso esconderijo, sob as vistas de minha mãe, dando a maior bandeira.  Adão e Eva esgueirando-se do paraíso cheios de vergonha.&lt;br /&gt;O terreno do meu avô era um universo completo. Em outras duas casas, um tio e uma tia já começavam a formar suas famílias, com filhos menores do que eu. A convivência com os meus tios - por parte de pai e por parte de mãe, eram uns doze tios com quem convivia diariamente – enchiam aquele espaço de surpresa s e descobertas. Nas laterais do terreno, minha avó plantava flores e árvores de fruta: pêra, amora, laranja, maçã, parreiras de uva. &lt;br /&gt;Revejo minha mãe deitada numa espreguiçadeira debaixo de uma parreira: magra e pálida, recuperando-se da terrível tuberculose, ela está lendo um folhetim com estranhas ilustrações de pessoas e ambientes que eu nunca tinha visto antes, que despertam minha curiosidade, certamente europeus em Paris ou Roma no final do século anterior. O que salvou a vida de minha mãe foi – como ela acreditava – uma profunda fé religiosa em Nossa Senhora, aliada ao advento da penicilina e à perícia do médico que a tratou, o Dr. Augusto Maria Sisson. (Quando jovem, esse pneumologista também foi um conhecido jogador de futebol do Grêmio e, depois, do Flamengo, do Rio. Participou, em 1912, da maior goleada gremista, que aplicou 23 a 0 no Sport Club Nacional de Porto Alegre, quando Sisson marcou nada menos que 14 gols - ou “golos”,  como diziam os gaúchos naquela época em que o futebol ainda era amador. Com mais de 90 anos, o Dr. Sisson ainda esteve na Amazônia praticando medicina social. Que vida!)&lt;br /&gt; Nos fundos do quintal, havia um enorme espaço para os animais, galinhas, patos, porcos, coelhos, porquinhos-da-índia. E guardando a criação animal, em espaço próprio à frente do xiqueiro e do galinheiro, o Tarzã, um cachorro selvagem que daria o alerta caso um ladrão de galinhas se aproximasse nas trevas da noite. &lt;br /&gt;Certa vez meu tio Vili resolveu pôr em prática um artigo da revista "Seleções do Reader’s Digest", que ensinava como fazer a gestação de pintinhos utilizando-se do calor da luz elétrica. Meu avô aceitou, mas não quis tomar conhecimento da experiência. Aquela modernidade absurda só iria aumentar a conta de luz no final do mês.&lt;br /&gt;Lembro-me de minha irmã Eda, dois ou três anos de idade, balançando uma chaleira velha, dentro da qual estava um pintinho que ela, em sua inocência, acabara de sacrificar. Meu avô ficou furioso. Vejo-me também em cima da carroceria do caminhão de meu pai, jogando pedrinhas nos pintinhos amarelos que ciscam lá no chão. Acabo acertando um coitadinho e corro a enterrá-lo antes que alguém perceba o meu crime.&lt;br /&gt;O terreno vizinho que ficava aos fundos era desabitado. Como nunca tinha sido aterrado, era um banhado que volta e meia se transformava num verdadeiro lago. Certa vez, Clóvis e César, meus primos por parte de pai, que moravam no outro lado da cidade, na Azenha, vieram nos visitar. À vista daquela lagoa, tiveram a idéia de juntar umas madeiras velhas que estavam por ali e construir uma jangada. Feito isso, improvisaram um remo e saímos os três navegando por aquelas águas perigosas. Achei aquela aventura de uma ousadia estupenda. Eu nunca ousara pensar em fazer uma coisa daquelas. Meus primos eram bem mais espertos do que eu. Droga, eu não passava de um bocó! Assim, aprendi com os meus dois primos que eu deveria ser mais audacioso.&lt;br /&gt;Nesse mesmo dia, Clóvis me deu mais uma lição: me ensinou como se dá o nó no cadarço do sapato, com aquelas quatro pontas de igual tamanho.&lt;br /&gt;Tio Nenê, o irmão mais velho de meu pai, tinha mais dois filhos homens, além do Clóvis e do César. Numa fase de crise financeira, ele trouxe a família para morar conosco. Então esses meus primos espertos trouxeram com eles dois verdadeiros tesouros: três caixotes abarrotados de revistas em quadrinho e a coleção completa do Tesouro da Juventude. Foi aí que eu descobri a coisa mais útil e mais bonita criada pelo homem: o livro.&lt;br /&gt;Já em nossa adolescência, depois de muitos anos sem contato, certa noite apareceu em minha casa esse meu primo Clóvis carregando um violão. E deu um show, sob os nossos olhares basbaques. Disse que aprendera a tocar sozinho utilizando-se de um estranho método: durante os bailes do clube, ele, que não podia entrar porque não era sócio, ficava lá na rua tentando acompanhar com seu violão a música da orquestra.&lt;br /&gt; Cantar, vá lá! E minha tia Luci fazia o trabalho de casa cantando tangos e boleros com sua bela voz. Mas tocar um instrumento musical, para meu avô Emílio, era coisa de vagabundo! Por isso, meio apreensivo que meu avô me visse, todos os sábados à tarde eu ia até o portão de  um vizinho, um velho sapateiro  que - além de ser conhecido como o único espírita kardecista do pedaço –  fazia um sarau musical no quintal de sua casa. Ele tocava cavaquinho e fazia-se acompanhar de mais dois músicos: um rapaz que tocava pandeiro  e um violonista que também cantava e soprava uma gaitinha acoplada sobre o violão. Era um momento mágico em que desfilavam, ao vivo, todos os grandes sucessos da música brasileira daquela época e do passado.&lt;br /&gt;Foi numa dessas sessões musicais que ouvi pela primeira vez a composição de Dorival Caymmi“Marina”: “Marina, morena Marina, você se pintou...” Ouvindo a letra dessa canção tive uma revelação: percebi pela primeira vez dois sentimentos que me eram desconhecidos: o amor que une um casal e, principalmente, a dor duma coisa chamada ciúme, que pode arrasar com tudo: “Eu já perdoei tanta coisa. Você não arranjava outro igual. Desculpe, morena Marina, mas eu estou de mal. De mal com você.” &lt;br /&gt;(continua)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-2699627821963847008?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/2699627821963847008/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/01/alguma-memoria-3.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/2699627821963847008'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/2699627821963847008'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2010/01/alguma-memoria-3.html' title='ALGUMA MEMÓRIA (3)'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-9127382695854878763</id><published>2009-12-29T04:30:00.000-08:00</published><updated>2010-01-10T16:15:22.652-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='memória'/><title type='text'>ALGUMA MEMÓRIA (2)</title><content type='html'>&lt;em&gt;“A casa de meu avô...&lt;br /&gt;Nunca pensei que ela acabasse!&lt;br /&gt;Tudo lá parecia impregnado de eternidade.”&lt;br /&gt;Manuel Bandeira&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;À medida que os filhos foram se casando, vô Emílio foi construindo casas em seu enorme terreno, onde se instalavam as novas famílias. Depois de um tempo, essas casas foram sendo alugadas e mesmo vendidas para outras pessoas. E, numa dessas subdivisões do terreno, veio morar a família dos meus outros avós, os pais de meu pai. Naturalmente, meu pai deve ter intermediado a venda.&lt;br /&gt;Este outro ramo de minha família veio do interior do Estado, mais precisamente de Glorinha, que naquele tempo fazia parte do município de Santo Antônio da Patrulha. Meu avô Osório Gonçalves dos Santos, gauchão alto e magro, era casado com minha avó Dinah, conhecida como Picucha devido a sua pequena estatura. Meu pai – Francisco Soares Gonçalves - costumava mencionar às vezes um seu avô apelidado de Chico Diabo, possivelmente uma referência a façanhas revolucionárias típicas dos velhos tempos. Sabendo-se que no final da Guerra do Paraguai, em 1870, o ditador Solano Lopes foi morto por um ordenança chamado Chico Diabo, fica a dúvida se meu bisavô teve alguma coisa a ver com aquilo ou não. Por sua vez, meu pai lembrava-se de que, aos quinze anos de idade, na Revolução de 23, teve de esgueirar-se por baixo de cercas de arame farpado, a mando de seu pai, a fim de levar certa mensagem secreta para um chefe revolucionário. Seu nome, Francisco, advém desse avô, além do fato de ter nascido numa fazenda em São Francisco de Paula, uma região montanhosa próxima a Gramado. Além de um sobrinho com o nome de Francisco, também sou Ênio Francisco. E o santo de minha admiração - devido a sua maravilhosa biografia e ao extraordinário filme de Roberto Rosselini (“Francisco, o Arauto de Deus”) – é São Francisco de Assis.&lt;br /&gt;Os Soares, Santos e Gonçalves tinham, pelo menos até a minha infância, as características pessoais típicas de determinado tipo de gaúcho, herdadas de seus antepassados, os paulistas de Sorocaba que colonizaram o Rio Grande do Sul no século 18. Tal situação é muito bem descrita por Érico Veríssimo em “O Continente”, a primeira parte de sua obra-prima “O Tempo e o Vento”. Para melhor cuidar de suas tropas de burros, cavalos e rebanhos de gado, os paulistas, que inicialmente iam e vinham em direção ao sul, começaram a se fixar no pampa gaúcho, deixando alguém da família de vigia o tempo integral. Isso porque castelhanos da Banda Oriental do Uruguai invadiam o Rio Grande a fim de roubar gado. Em seu isolamento, na função de vigiar seu rebanho, esse tipo de gaúcho – que se opõe àquele outro, o falastrão contador de proezas – tornou-se extremamente introvertido e desconfiado. Qualquer sujeito desconhecido que chegasse perto de sua estância era motivo de desconfiança: podia ser ladrão de gado. Fundamental era derrubar árvores: atrás delas ou em sua sombra poderia estar se escondendo o inimigo. Não sem razão - na minha adolescência, quando eu costumava chegar tarde da noite em casa - meu pai cortou uma grande árvore que jogava sombra na calçada da rua e no quintal. Teve de se haver com um fiscal da Prefeitura!&lt;br /&gt;Então o menino Lolinha – meu pai era conhecido na intimidade como Lola – nasceu e se criou no campo na companhia de mais dez irmãos. Parece que levavam uma vida bastante ociosa, não se dedicando muito a plantar ou criar gado. Tive tal impressão pelos relatos da família e ao visitar a fazenda duas vezes quando menino. Tudo era muito primitivo e abandonado; o chão da casa era de terra batida, e a roupa era lavada numa pequena sanga, de onde também se recolhia a água para consumo.&lt;br /&gt;À beira dessa sanga assisti a uma cena inesquecível: minha mãe e tia Maria estavam lavando roupa, quando meu primo Cláudio, de dois ou três anos, caiu de um barranco dentro d’água e desapareceu das nossas vistas; ao vir à tona pela segunda vez, minha mãe o catou pelos cabelos e o trouxe para a margem são e salvo.&lt;br /&gt;Imagino que talvez a fazenda tenha entrado em decadência, tal como acontece na dramaturgia de Jorge de Andrade (“O Telescópio”, “A Moratória”, “Rasto Atrás”), que trata desse tema em razão da Crise de 29 no interior paulista. O fato é que, ao se tornarem adultos, meu pai e todos os seus irmãos acabaram se mudando para Porto Alegre em busca de melhor situação. Por último, meus avós também abandonaram a estância e vieram se juntar aos filhos, que agora eram obrigados a trabalhar arduamente para sobreviverem.&lt;br /&gt;As distâncias eram longas. Pra se ter uma idéia, uma vez que meu avô veio de Glorinha a Porto Alegre levou um dia inteiro por caminhos tortuosos no lombo de um cavalo. Somente no início da década de 30, por obra do interventor Flores da Cunha, é que a estrada foi pavimentada com concreto. E ficou conhecida pelo nome de "Faixa". Hoje fazemos essa mesma viagem em meia hora de carro pela “Free Way”.&lt;br /&gt;Depois que outros irmãos vieram para a cidade grande, meu pai também botou o pé na estrada. Veio morar com uma irmã mais velha, casada com um italiano – o tio Canova - e residindo no Passo d’Areia, bairro situado ao lado de São João. O primeiro emprego que arranjou foi o de ajudante de caminhão, depois virou motorista e, finalmente, feliz proprietário do fantástico Chevrolet Gigante da minha mais tenra infância.&lt;br /&gt;Em setembro de 1935, houve uma grande festa campal em Porto Alegre, no Parque da Redenção – hoje Parque Farroupilha – em comemoração ao primeiro centenário da Revolução Farroupilha. Nesta festa meus pais se conheceram. Formavam um belo casal, como se pode ver na foto oficial do casamento: ele muito elegante com seu cabelo preto e liso, ela lourinha como sua mãe.&lt;br /&gt;Minha avó Picucha, depois que se mudou para a Capital, nunca mais quis sair de dentro de casa, raramente chegava até o portão do quintal. Sempre que eu passava na rua pra ir ao colégio, lá estava ela, curiosa e assustada, espiando o mundo detrás de sua janela. Permaneceu reclusa, ouvindo rádio ou jogando víspora com as filhas por uns trinta anos, até sua morte.&lt;br /&gt;Uma única vez saiu de casa. Por ocasião do Golpe Militar de 64, apavorada com a ameaça de bombardeio a Porto Alegre, ela pediu que um filho a levasse de carro para Taquara, município próximo à fazenda de Glorinha, onde se homiziou junto a umas primas que não via desde muito tempo. Lembrava seu tempo de menina, no isolamento da fazenda, quando as histórias de degola – a chamada “gravata vermelha” - corriam soltas nas revoluções gaúchas. Ela tinha vivenciado a terrível Revolução Federalista de 1893, em que, das dez mil vítimas, mais de mil foram degoladas a sangue frio, segundo o historiador Carlos Reverbel.&lt;br /&gt;Em 64, meu avô Osório já tinha morrido fazia tempo. Lembro-me dele rezando o terço antes de ir dormir. Da casa do meu outro avô, que ficava no terreno ao lado, revejo sua cabeça branca passar pela janela alta de sua cozinha, indo e vindo, pra lá e pra cá, enquanto recita ave-marias e padre-nossos.&lt;br /&gt;No dia em que ele morreu e foi velado na sala, meu outro avô, tomando chimarrão na calçada ao lado, vangloriava-se por ainda estar cheio de saúde. Era dia 31 de dezembro, e tal data deprimia tanto meu pai que, daí em diante, nunca mais quis comemorar a entrada do ano novo, recolhendo-se bem cedo à cama.&lt;br /&gt;Outra cena dolorosa que ainda tenho viva diante dos olhos refere-se à morte de uma prima ainda menina. Chamava-se Regina e foi a primeira filha de tia Maria e tio Antônio, irmão de meu pai.&lt;br /&gt;Naquele tempo o enterro era feito a pé, cobrindo-se a distância de uns três quilômetros até o Cemitério São João Batista, com os homens acompanhantes revezando-se na condução do féretro. Crianças conduziam o caixão da criança morta.&lt;br /&gt;Na hora do enterro, quando o caixão foi sendo levado para fora da casa de Vô Osório, tio Antônio foi o último acompanhante do cortejo. Ainda vejo meu tio – que era muito parecido com o ator Cary Grant – parado no vão da porta, desgrenhado, pés descalços, camisa aberta, olhando o caixãozinho branco da filha afastar-se. Ele não consegue andar, desaba no degrau da escada, segura a cabeça enlouquecida com as duas mãos e urra de dor. Nem no cinema assisti até hoje cena tão trágica.&lt;br /&gt;(continua na próxima semana)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-9127382695854878763?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/9127382695854878763/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/12/alguma-memoria-2-casa-de-meu-avo.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/9127382695854878763'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/9127382695854878763'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/12/alguma-memoria-2-casa-de-meu-avo.html' title='ALGUMA MEMÓRIA (2)'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-6190031195192817466</id><published>2009-12-12T16:01:00.000-08:00</published><updated>2010-01-10T16:15:28.728-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='memória'/><title type='text'>ALGUMA MEMÓRIA (1)</title><content type='html'>&lt;em&gt;No belo filme argentino “O Mesmo Amor, a Mesma Chuva”, de Juan José Campanella, um escritor frustrado (interpretado por Ricardo Darin) resolve publicar um livro autobiográfico. Discutindo a obra com um amigo jornalista, logo surge o conhecido aforismo: “Pinte tua aldeia e serás universal.” Replica o amigo: “Tudo bem, mas você não precisava pintar a tua aldeia com merda.” &lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Espero, nestas minhas memórias, não estar fazendo a mesma coisa&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha primeira lembrança, aí pelos dois anos de idade, é um barquinho – na verdade, um toquinho maciço de madeira em que fora esculpido um barquinho, pintado de vermelho e amarelo, possivelmente confeccionado por meu avô Emílio, pai de minha mãe, que era marceneiro. Vejo-me de pé na escada da cozinha de minha casa manobrando com um barbante o tal barquinho, que bóia no quintal graças uma das muitas enchentes que seguidamente inundavam nosso bairro na década de quarenta.&lt;br /&gt;Esta cena acontece em um terreno de meu avô, que ocupava mais ou menos meio quarteirão da Rua Vilela Tavares, entre as ruas Souza Reis e Augusto Severo, bairro de São João, em Porto Alegre. Naquele espaço tive a sorte de viver toda a minha primeira infância, convivendo com meus quatro avós e mais uns trinta parentes - pais, irmãos, tios e primos –, território esse que hoje se me afigura pleno de magia.&lt;br /&gt;Vô Emílio tinha nascido em 1893 em um vilarejo às margens do rio dos Sinos, filho de um professor de escola primária, que na minha imaginação delirante bem poderia ter sido o louco dramaturgo Corpo Santo, que andou por aquela região dando aula. Ainda adolescente meu avô emigrou para Porto Alegre em busca de trabalho. Logo conseguiu emprego como açougueiro e foi nessa condição que conheceu minha avó. Típico brasileiro, de sobrenome Silva, acabou se casando com a lourinha alemã, de uma família de imigrantes alemães, os Buhl.&lt;br /&gt;Imagino que meus avós tenham se conhecido no açougue, ele cortando carne, ela comprando os melhores filés para uma rica família de alemães da Avenida Independência, a rua mais chique da cidade, onde ela, ainda menina, trabalhava como empregada doméstica. O fato é que acabaram se casando, ele com dezenove anos de idade, ela com dezessete. Naquele momento ele já tinha mudado de emprego, era marceneiro em um estaleiro do Rio Guaíba, enquanto ela foi ser dona de casa para poder cuidar da penca de filhos que foi nascendo. E já estavam morando na casa que ele construíra com suas próprias mãos no enorme terreno da minha infância, naquele tempo uma região quase deserta, sujeita às cheias do Guaíba e às águas de chuva que desciam dos altos da Rua Benjamin Constant.&lt;br /&gt;Assim é que, pelos cinquenta anos seguintes, a grande preocupação de meu avô foi aterrar sua propriedade. Com carrinho de mão, carroça puxada por burro ou caminhão de carga, ele obsessivamente carregou terra ou entulho que lhe eram doados com o objetivo de deter as inundações que se sucediam na época das chuvas. Somente na década de sessenta, quando a rua foi calçada e a região urbanizada, foi que ele pode descansar da sua labuta. Lembro-me de meu pai, que tinha um caminhão Chevrolet Gigante, trazendo entulho de alguma obra. E, à medida que o quintal ia sendo aterrado, as casas de madeira iam sendo erguidas através de macacos manuais, pedras e troncos de árvore. Eu assistia aquela operação, que envolvia diversos homens da família, com grande curiosidade.&lt;br /&gt;Certa vez, vi uma cobra de mais ou menos meio metro esgueirando-se para debaixo de uma casa que estava rente ao chão. Alertei meu avô, que, munido de um alicate, desapareceu da minha vista arrastando-se pelo espaço exíguo em que a cobra se enfiara. Depois de um minuto aflitivo, ele reapareceu com a cobra presa na ponta do alicate. Que avô corajoso!&lt;br /&gt;Não conheci ninguém que acreditasse tanto na importância do trabalho como meu avô. Getulista, depois de ter sido um integralista seduzido pelo nacionalismo de Plínio Salgado, ele costumava dizer com muito orgulho que, em sua juventude, tinha trabalhado dezessete horas por dia no estaleiro, antes das leis trabalhistas criadas por Getúlio Vargas.&lt;br /&gt;Conta-se que em sua fase integralista, meu avô convenceu toda a família, inclusive os genros, a usar camisa verde, tendo oferecido sua casa para reuniões políticas com Alberto Pasqualini e Plínio Salgado. Sobraram dessa época alguns bancos compridos que ele construiu para as tais reuniões que congregavam os integralistas do bairro. Quando Getúlio ameaçou com prisão qualquer manifestação integralista, as bandeiras e as camisas verdes foram imediatamente enterradas no fundo do quintal. Isso não o impediu de se tornar um ardoroso getulista. Nacionalista exaltado, sempre hasteava na frente da casa uma enorme bandeira brasileira durante a Semana da Pátria. Pregava a derrubada das florestas e a construção de estradas para o progresso do país.&lt;br /&gt;Agora vô Emílio estava trabalhando por conta própria, construindo e reformando casas de madeira, as suas e as da vizinhança. Algumas vezes, durante as férias escolares, cheguei ajudá-lo a destelhar algumas casas. Como não recebia pagamento e ainda era repreendido por quebrar algumas telhas, deixei de ajudá-lo, apoiado por meu pai que temia que eu, aos doze ou treze anos, recebesse alguma telhada na cabeça.&lt;br /&gt;Nos fundos da casa onde morava, meu avô mantinha a sua oficina, com uma comprida e sólida bancada de madeira e toda a sorte de ferramentas de marcenaria: torno, serras e serrotes, martelos, formões, alicates, prumos, furadeiras, plainas, enxós, lixadeiras, pé-de-cabra, pás, enxadas, chaves-de-fenda, pregos e parafusos - objetos encantados que eu, moleque, gostava de fuçar, para desespero do velho que não gostava que mexessem nos seus pertences. Mas ficava satisfeito quando alguém profetizava que, devido ao meu interesse, quando eu crescesse iria ser marceneiro como ele.&lt;br /&gt;Ao final de um dia de trabalho, enquanto minha avó regava as plantas, flores e árvores de fruta, meu avô trazia uma cadeira para a calçada, onde ficava tomando chimarrão e puxando conversa com todos os vizinhos que passassem pela rua. Gostava de prosear contando histórias que tinha vivido, algumas verdadeiras, outras inventadas por sua rica imaginação – como a narrativa de ter comandado um batalhão de soldados alemães em combate na Primeira Grande Guerra, ele que nunca tinha ido além do rio dos Sinos, a quarenta quilômetros de Porto Alegre. Outra aventura que ele, já senil, gostava de contar é que tinha conhecido dentro de um ônibus um radialista da Rádio Gaúcha que o levara até a emissora, onde ficara no ar durante um tempão recitando as suas trovas.&lt;br /&gt;Minha avó, cujo nome era Elizabeth, chamada de Alice devido à sonoridade próxima do nome alemão, não era menos trabalhadeira que o marido. Teve oito filhos, sendo que um morreu ainda bebê e outro, Valter, aos dezessete anos, vítima de uma tuberculose provocada, como diziam, por uma bolada nas costas quando jogava futebol. Pra mim, durante a minha infância, ele foi um personagem mítico porque era sempre lembrada na família a minha semelhança física com ele, fato comprovado pelas fotografias que conheço dele. Da mesma forma, examinando a fotografia de casamento de meu bisavô Joseph Buhl, ainda na Alemanha, percebo agora a nossa espantosa semelhança física. Esse bisavô teve um fim trágico: funcionário de uma fábrica de cerveja de Porto Alegre, gostava de beber no trabalho e nas horas de folga; por causa disso, morreu afogado ao cair de um pontilhão durante uma enchente.&lt;br /&gt;A penúltima vez que vi minha avó, eu já morando no Rio de Janeiro, ela com mais de setenta anos, encontrei-a no topo de uma escada de pedreiro caiando com uma broxa uma casa que iria alugar. Dois ou três anos depois, voltei a encontrá-la em seu leito de morte: tinha sofrido uma queda e quebrara a bacia.&lt;br /&gt;Vó Alice vivia em função da família, cuidando dos filhos e netos, aplicando injeções, cataplasmas e clisteres, ajudando nos partos e na preparação dos velórios, o nascimento e a morte dentro de casa, naquela época.&lt;br /&gt;Eu era o seu neto mais velho. Recordo sempre que ela me levava pela mão quando ia fazer compras; entrava no armazém e fazia com que o vendeiro deixasse eu escolher as balas de figurinha, com a foto de jogadores de futebol ou artistas de cinema, que faltavam na minha coleção. E por todo o caminho ela ia parando para conversar com as pessoas conhecidas, às vezes em alemão, um dialeto bárbaro que sempre escutei com encanto apesar de não entender absolutamente nada. Guardo até hoje comigo, como herança, uma coleção de cartas e cartões postais que ninguém consegue decifrar completamente, enviados pelos familiares que ficaram na Alemanha, em que está incluído um outro ramo da família, os Adam. Essa correspondência foi interrompida no começo da Segunda Guerra Mundial.&lt;br /&gt;Meu avô, talvez por ciúme machista, não gostava que minha avó ficasse batendo perna pela rua. Certa vez, ao chegar em casa no final da tarde, encontrou a porta trancada à chave. Não teve dúvidas: pegou um machado e arrebentou a porta. Logo depois, quando minha avó chegou, partiu pra cima dela com uma daquelas navalhas antigas de fazer barba. Vejo a imagem assustadora de meu pai impedindo a agressão, segurando ao alto os punhos de meu avô, a navalha nua brilhando em sua mão direita. Outra vez comentou-se que ele tinha espancado brutalmente o burro que resolvera empacar. A explicação para tais acessos de raiva era a de que ele tinha sido mordido por cachorro louco quando era menino.&lt;br /&gt;Mas o parente que me parece o personagem mais desequilibrado na minha infância foi o tio França – ou Franz, como era chamado pelo lado alemão da família. Irmão de minha avó, costumava aparecer somente à tarde para fazer um lanche e escapar à vista de meu avô, que não o suportava por não trabalhar. Andava sempre de terno, todo amarrotado e puído. Morava sozinho numa casa que herdara da família no bairro dos Navegantes e tinha o hábito de recolher tudo quanto era quinquilharia que encontrasse na rua: jornais velhos, latas usadas, garrafas vazias, móveis e máquinas quebradas. Como não tinha fonte de renda, cortou a luz elétrica e vivia à luz de velas. Depois de anos, a casa e o quintal estavam superlotados de lixo, ratos e baratas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui algumas vezes a sua casa acompanhando minha tia mais jovem, a tia Luci, que seguidamente o procurava para saber de seu futuro. Sim, tio França tinha o dom de ler a sorte nas cartas do baralho. Minha mãe, muito católica, achava que era pecado consultar as cartas, mas mesmo assim certa vez me atrevi a verificar o meu destino: eu iria sair de Porto Alegre e iria trabalhar para grandes empresas, segundo as palavras de meu tio-avô vidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua na próxima semana)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-6190031195192817466?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/6190031195192817466/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/12/alguma-memoria-1.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/6190031195192817466'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/6190031195192817466'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/12/alguma-memoria-1.html' title='ALGUMA MEMÓRIA (1)'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-8864378864591029103</id><published>2009-08-21T17:18:00.000-07:00</published><updated>2009-08-30T07:32:46.728-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>CONTO (3)</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;MEU PRIMO PADRE&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;para Carlos Reichenbach Filho&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Eu e meu primo temos mais ou menos a mesma idade e somos os primos mais velhos da minha família por parte de mãe. Entretanto, a diferença entre nós dois – pelo menos no início desta história, quando tínhamos mais ou menos uns doze anos – era enorme. Entre outras coisas, ele era atlético e louro, morava no alto da rua Dom Pedro Segundo, reduto dos alemães abastados de Porto Alegre, estudava no Colégio Rosário, o mais caro da cidade, e estava aprendendo a tocar violino com um professor particular. Eu, ao contrário, era magrinho e tímido, morava na parte baixa da cidade, estudava numa escola pública e alimentava o sonho impossível de aprender a tocar piano.&lt;br /&gt;Por falar nisso, nunca esqueço da primeira vez em que vi alguém tocando um solo de piano, quando aconteceu comigo uma espécie de epifania – pra usar uma palavra que está na moda e que pouca gente sabe exatamente o que significa. Eu devia ter uns cinco ou seis anos de idade. Minha mãe e eu subíamos a escadaria que divide a Galeria Chaves ao meio, quando comecei a ouvir um ruído que nunca tinha ouvido antes. Escapei de minha mãe e corri à sua frente tentando encontrar a origem daquele som fascinante. Dentro de uma loja de instrumentos musicais – situada à esquerda de quem sobe na direção da rua da Praia, quando a galeria se alarga - um pianista executava uma valsa que, anos mais tarde, descobri ser “Sobre as Ondas”. Agarrei firme a mão de minha mãe obrigando-a a permanecer comigo diante da grande vitrine, atrás da qual um homem, sentado diante de uma estranha caixa preta com uma tampa levantada, produzia um som que inundava o meu dia de brutal felicidade. Que magia seria aquela vibrando no ar com tanta beleza e me transportando pra não sei onde? Minhas pernas tremeram. Parecia que ia desmaiar, daquela mesma maneira que costumava desmaiar de fraqueza, sentado em jejum no banco da igreja, antes da comunhão dominical. Mas a emoção era inusitada, uma vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Naquele momento revelador tomei consciência de mim, descobri que eu existia, que eu era alguém com existência própria e independente de pai e mãe, que agora eu era apenas um menino, mas que mais tarde - era só ter paciência de esperar o tempo passar – eu seria um adulto livre o bastante pra poder realizar os meus sonhos, fossem eles quais fossem. Meu destino estava em minhas mãos, só dependia de mim mesmo.&lt;br /&gt;Mas voltando ao meu primo, toda a vez que ia visitar a casa de meus tios eu era obrigado a ouvir-lo arranhando o seu violino em exercícios exasperantes, exatamente o oposto da inesquecível melodia da Galeria Chaves. Eu tinha a impressão de que ele estudava violino meio obrigado pela mãe, uma bela mulher de origem alemã com quem meu tio tinha feito um bom casamento. Então, toda a família reunida na sala, sem entender grande coisa, servia de auditório para meu primo exibir sua habilidade artística. Finda a audição, íamos brincar no quintal, onde ele finalmente se sentia à vontade pulando pelos galhos de uma árvore enorme como se fosse o Tarzã. Do chão, preocupado com os avisos paternos de que não subisse em árvore porque poderia quebrar o pescoço, eu apenas o observa cheio de admiração.&lt;br /&gt;Tais visitas geralmente ocorriam aos domingos depois da missa, aonde tínhamos a obrigação de ir. À tarde, íamos assistir a matinê do cinema América, no Passo d’Areia, que cobrava a ninharia de um mil réis pelo ingresso e exibia dois filmes seguidos, além do episódio semanal do empolgante seriado “Marte Invade a Terra”.&lt;br /&gt;Por essa época aconteceu um fato que me parece marcante. Nosso avô começou a insistir pra irmos visitá-lo num sitiozinho que ele tinha acabado de comprar fora da cidade, um pouco antes de Cachoeirinha. A idéia não me animava muito visto que o nosso avô fazia questão que chegássemos de manhã “bem cedinho a fim de aproveitar o dia”, conforme ele dizia. Já nessa época eu odiava acordar cedo e, tudo bem, tinha a sorte de estudar à tarde. Ao contrário, meu primo estudava de manhã no colégio dos padres e anda tinha o estranho hábito de acordar de madrugada pra fazer ginástica, que ele chamava de “calistênica”.&lt;br /&gt;Vai daí que numa madrugada fria das férias de inverno, nós dois tomamos o primeiro ônibus na direção de Cachoeirinha. O campo começava logo depois do Sarandi e estava coberto pela colcha branca da geada que tinha caído durante a noite. A viagem, que hoje se faz em dez minutos pela via expressa que conduz ao litoral, durou quase uma hora pela estrada ruim. Acordei com meu primo me dando um tapa na cabeça e morrendo de rir. Saltamos do ônibus no ponto certo. O sol ameaçava surgir na linha do horizonte mas era encoberto por uma neblina tão espessa que mais parecia a fumaça de um incêndio. Não se via um palmo diante do nariz, mas era só seguir em linha reta pelo campo aberto que ia dar num morro, como nosso avô nos indicara. Mesmo sem nenhuma visão, começamos a andar cada vez mais depressa como se estivéssemos começando uma brincadeira, um jogo, uma disputa pra ver quem era o mais veloz de nós dois. “Eu sou o Roy Rogers, o rei do faroeste!”, gritou o meu primo no começo do morro, transformando-se em cavalo e cavaleiro ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;“E eu sou o Hopalong Cassidy!”, retruquei eu. E sem perda de tempo, saí em disparada meio que patinando na grama molhada pela geada. Apanhado de surpresa, meu primo ficou para trás. Mas logo ouvi ele gritando o meu nome desesperadamente. Achando que aquilo fazia parte do jogo, continuei correndo morro acima. De repente, no meio daquela neblina pastosa de filme de terror, senti uma garra apertando o meu braço e me impedindo de seguir em frente. Instintivamente tentei escapar. “Espera!”, berrou ele no meu ouvido.&lt;br /&gt;Durante alguns segundos ficamos parados no meio do breu, diante do nada. Então, subitamente, o sol apareceu e iluminou o vale à nossa frente. Percebi então que estávamos parados à beira de um precipício que limitava o morro com um corte brutal. Mais um passo e eu teria caído no abismo e, agora, possivelmente não estaria aqui relatando a nossa história.&lt;br /&gt;Premonição do meu primo diante do perigo iminente? Sei lá! Como o episódio nunca foi discutido por nós dois, nem naquele dia nem nunca, decidi naquela época que o meu primo tinha sido o meu anjo-da-guarda salvador, aquele das lições de catecismo que vela por nós nas horas de perigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uns dez anos mais tarde eu estava morando no Rio de Janeiro, onde acabara de cursar o Conservatório Nacional de Música como bolsista. Um belo dia recebo um telegrama do meu primo me avisando que daria uma passada pelo Rio e que gostaria de se encontrar comigo. Fazia muitos anos que não nos víamos, mas eu sabia pela família que ele estava estudando num seminário franciscano em Divinópolis, interior de Minas Gerais.&lt;br /&gt;Dia aprazado ele bate à minha porta, num apartamento conjugado que eu dividia com dois colegas do Conservatório. Eu tinha imaginado que, como bom seminarista, ele viria de batina e com aquela cara sofrida de são Francisco de Assis, tal como foi pintada por Portinari. Entretanto, ele surge à minha frente mais bronzeado de sol do que eu que vivia à beira-mar, usando uma surrada camiseta de meia branca, calça que parecia ser de pijama amarrada na cintura por um cordão e sandálias empoeiradas, essas sim franciscanas – um verdadeiro hippie, o que não deixava de estar na moda naquela época do “paz e amor”&lt;br /&gt;“Cadê a batina?”, perguntei em tom de gozação.&lt;br /&gt;“Deixei no seminário”, respondeu ele sorrindo. “Não sei se você sabe, mas a gente não é mais obrigado a usar batina o tempo todo. Os tempos são outros. Depois de João XXIII a Igreja mudou.”&lt;br /&gt;Convidei-o pra tomar um chope na beira da praia e assim fomos trocando notícias até o final daquela bela tarde de verão com o sol se pondo lá pros lados do Posto Seis. Ele não tocava mais violino. Nem tinha certeza se poderia ter um violino consigo, já que o tal voto de pobreza dos franciscanos estabelecia que ninguém poderia possuir bens particulares. Lembrava-se da minha cara de enfado quando, menino, eu era obrigado a ouvir as audições em que ele maltratava o violino. Nunca imaginara que eu me interessasse pela música e muito menos que, um dia, eu fosse me meter a estudar piano.&lt;br /&gt;Acabou me revelando o motivo de sua vinda ao Rio. “Amanhã embarco pra Alemanha. Veja só, vou estudar a história da religião católica em Frankfurt.”&lt;br /&gt;“Mas precisa ir tão longe a fim de estudar essa história?” – brinquei. “Vamos até ali na igreja Nossa Senhora da Paz que o padre te conta tudinho.”&lt;br /&gt;“A coisa é séria, meu amigo”, respondeu ele e, depois de verificar a mesa ao lado onde dois turistas argentinos cantavam uma mulata, me confidenciou em voz baixa: “Fui mandado pra Alemanha como uma espécie de punição. Acho que você não é tão alienado a ponto de não saber o que está acontecendo no país. Andei me envolvendo num movimento contra a ditadura lá em Minas, e os meus superiores resolveram me mandar embora. Eu acho que é censura, mas eles dizem que fazem isso com o objetivo de proteger a minha integridade física, porque os milicos já me deram umas porradas e continuam atrás de mim.”&lt;br /&gt;Ao tomar conhecimento da ação subversiva do meu primo, achei que seria interessante ele me acompanhar numa visita que eu faria aquela noite. Acontece que a minha namorada morava com uma amiga em Botafogo e tinha me convidado pra jantar com elas. Avisei que talvez eu levasse comigo o meu primo seminarista, o que causou sensação nas hostes femininas: como seria aquela avis rara?&lt;br /&gt;Tomamos um ônibus na Nossa Senhora de Copacabana e fui explicando ao meu primo a situação. Eu estava prestes a ficar noivo, de aliança no dedo como mandava o figurino, e pretendia me casar assim que desse. Isso porque eu tinha alguma convicção de que iria vencer o concurso pra pianista da Orquestra Sinfônica. Então algum dinheiro ia começar a entrar. Por outro lado, minha namorada tinha um emprego razoável, era assistente da colunista social do “Correio da Manhã”. Expliquei também que ela estava dando um tempo em Botafogo porque tenha entrado em desavença com a família, que pertencia ao ridículo café-soçaite carioca e que não aceitava o envolvimento dela com um artista morto de fome.&lt;br /&gt;Mas quem eu achava mais interessante meu primo conhecer era a colega da minha noiva, a que dividia o apartamento com ela. Também jornalista, ela era casada com um professor que estivera preso como terrorista e que, agora, morava na Suécia, pois fora trocado por um embaixador seqüestrado. Ela próprio fizera parte do grupo de seqüestro, o que eu desconfiava mas não sabia com certeza naquela época.&lt;br /&gt;Chegamos ao apartamento e fomos recebidos com festa pelas duas moças, que foram logo abrindo uma garrafa de vinho. “Vinho da missa em homenagem ao padre”, disseram elas.&lt;br /&gt;Minha namorada era mais reservada, enquanto a outra era despachada e bem-falante – daquelas cariocas que têm voz bonita e que costumam falar alto, além do charme especial dos esses e erres. Figura típica da boemia da Zona Sul, espécie de musa da bossa nova e do cinema novo, ela provocou uma série de crônicas apaixonadas escritas por Carlinhos Oliveira no “Jornal do Brasil”; certo fim de noite, no Zepelim, o marido da musa encontrou o cronista completamente bêbado e, não conseguindo mais conter o ciúme, encheu-o de porradas. “Abaixo a ditadura!”, gritou o pobre do Carlinhos sendo socorrido pelos garçons.&lt;br /&gt;Não duvido que ela amasse o marido, mas, com ele agora na Europa, acredito que eventualmente se envolvesse com outros homens pois não estava morta nem nada. E eu estava curioso pra ver se meu primo iria conseguir resistir àquela mulher sedutora. Com o vinho fazendo efeito, ela não se fez de rogada e começou a se jogar pra cima do meu primo. Como uma espécie de provocação, contou uma história que tinha acontecido com ela alguns anos atrás. Uma noite ela voltava de São Paulo de ônibus quando um homem usando batina ocupou a poltrona ao lado. ”O padre era jovem e bonito como você”, disse a sapeca encarando o meu primo. “E confesso que tentei seduzi-lo. Fiz que dormia e fui me encostando nele, primeiro o braço, depois a perna. O padre começou a rezar baixinho, mas não se esquivou de mim. Depois de um tempo, deu pra gemer num sussurro, parecia choramingar, coitado. Mas a coisa não passou disso, que pena! De manhã, quando chegamos ao Rio, ele saltou do ônibus e foi embora como se não houvesse acontecido nada. Se ele quisesse, poderia ter acontecido tudo.”&lt;br /&gt;Devidamente alcoolizado, tanto quanto os outros três, fui sendo dominado por um certo espírito maligno: eu queria tirar a prova dos nove, queria descobrir enfim se aquela vocação do meu primo para o celibato era verdadeira.&lt;br /&gt;Ele, no entanto, permaneceu incólume. Sempre elegante, foi se esquivando do assédio da moça. O tempo todo desviou o assunto para temas mais sérios, como a situação política do país, a censura, a guerrilha no Araguaia, a prisão dos dominicanos em São Paulo. As duas jornalistas, que na redação de seus jornais tinham acesso a informações censuradas, revelaram acontecimentos que espantaram meu primo. Ele acabou concordando que o mais seguro seria mesmo cair fora do país, antes que fosse torturado e morto.&lt;br /&gt;Na madrugada quente do Rio, eu e meu primo fomos caminhando devagar até Copacabana. Logo no início da Barata Ribeiro, alguns caminhões do exército, ali estacionados, estrangulavam a metade da rua. Da outra calçada, meia dúzia de basbaques, certamente sem noção do que estava acontecendo, espiavam os soldados entrando e saindo do prédio em frente. Passamos direto como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, mas sabíamos que haviam “estourado um aparelho”, como se dizia na época. "Eu me sinto um merda”, desabafou o meu primo. “Me sinto um cachorro fugindo com o rabo entre as pernas!”&lt;br /&gt;Mais adiante, sem que eu lhe perguntasse nada, me disse que sua vocação religiosa era coisa verdadeira. E que nós dois tínhamos a sorte de ter tido, em nossa família, uma sólida formação cristã. E isso – por mais que ocasionalmente nos afastássemos da Igreja – seria um fato fundamental em nossas vidas. Estávamos marcados pra sempre. Seríamos sempre pessoas do bem.&lt;br /&gt;Antes de pegar o ônibus pra voltar ao convento onde estava hospedado, ele encerrou a conversa me recomendando que não deixasse de ler a filosofia cristã de Teilhard de Chardin e “Os Sete Pilares da Sabedoria”, de Thomas Merton. Não segui seu conselho. Por essa época eu estava encantado com a literatura nada edificante de Henry Miller.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nosso próximo encontro – e que também foi o último – aconteceu recentemente. Quando eu soube que iria dar um concerto em Brasília, logo pensei em rever o meu primo, que residia lá, aposentado como professor da Universidade. Liguei diversas vezes pra Porto Alegre e, com grande dificuldade, finalmente consegui o telefone dele.&lt;br /&gt;Pelas vagas informações que me chegaram através daqueles anos todos, ele tinha largado a batina no final dos anos oitenta. Depois foi dar aula na Universidade e acabou se casando com uma jovem aluna. Era só o que eu sabia.&lt;br /&gt;Chegando ao Hotel Nacional por volta do meio-dia, a primeira coisa que fiz foi ligar pra ele. Atendeu uma voz de menina, eu me identifiquei e logo ouvi qualquer coisa como “Papai, o seu primo de São Paulo quer falar com você”. Esperei um tempão, até achei que não iria me atender, mas finalmente ele se manifestou dando uma desculpa qualquer pela demora. Não entendi porque ele tinha vacilado em conversar comigo. Talvez estivesse apenas se refazendo do espanto com o surgimento de um fantasma vindo lá das brumas do passado. “Quem atendeu foi a minha filha”, explicou. “A mais novinha. Tenho quatro.”&lt;br /&gt;Imaginei que em seguida ele fosse me convidar pra ir até o seu apartamento tomar um café e conhecer sua família. Como o convite não veio, propus que nos encontrássemos naquela tarde à beira da piscina do hotel. Ele vacilou outra vez: deu uma pausa dizendo que ia consultar sua agenda. Acabou marcando nosso encontro para dentro de meia hora; o resto do dia estaria muito ocupado. “Vai ver” - pensei cá comigo – “quer se livrar logo de mim, que devo ser um chato de galocha querendo me enturmar com ele depois de tanto tempo.”&lt;br /&gt;Fui aguardá-lo à beira da piscina debaixo de um inesperado céu nublado. Fiquei lá sozinho tomando a minha cerveja e pensando na vida, que não estava nada fácil. Alguns dias antes, depois de um bate-boca com minha mulher - a quinta de uma série -acabei batendo a porta e machucando a mão esquerda. Meu ortopedista tirou uma chapa e garantiu que estava tudo bem, mas a mão doía pra danar. Claro que eu iria me dar mal no concerto do dia seguinte, se minha mão não melhorasse.&lt;br /&gt;Nisso percebi meu primo se aproximando. Seria mesmo ele? Parecia ter encolhido de tamanho, perdera o porte atlético, a barriga crescera, o cabelo ficara branco e escasso. Pensei com os meus botões que, aos seus olhos, eu também teria me tornado um caco, mas pelo menos meu cabelo continuava abundante e escuro – à custa de muita tintura, mas escuro.&lt;br /&gt;Nossa conversa não engrenava, nossas lembranças familiares eram tristes, sua mãe estava internada num asilo com Alzheimer, quase todos os nossos parentes mais velhos, e mesmo alguns mais novos, já tinham morrido.&lt;br /&gt;Comentei que ele tinha ficado muito parecido com o pai. Ele retrucou: “Você também. Estamos quites.”&lt;br /&gt;Ousei perguntar por que tinha deixado de ser padre. “Te confesso que não sei direito”, respondeu ele lentamente, parecendo analisar suas razões. Pediu mais uma cerveja e acendeu um cigarro. Depois continuou: “Não sei se eu perdi a fé. Mas o fato é que depois de João XXIII a Igreja mudou muito, mudou até demais. Você não faz idéia do que aconteceu com a minha Ordem. Foi se transformando, sei lá. Virou um refúgio de homossexuais. Uma coisa absurda.&lt;br /&gt;De repente as nuvens se esgarçaram e o sol começou a brilhar através do ar seco de Brasília. Algumas mesas próximas foram sendo ocupadas. Crianças se jogaram na piscina fazendo baderna e nos respingando de água. Meu primo chamou o garçom e pagou a conta. Antes que ele se fosse, convidei-o a assistir ao meu recital na noite seguinte. Que também levasse a família. Os convites estariam à sua disposição na bilheteria do teatro.&lt;br /&gt;Ameaçou se despedir ali mesmo, mas fiz questão de acompanhá-lo até hall do hotel. No último instante, quando íamos nos afastando da piscina, cruzamos com uma bela loira que sorriu pra nós. Paramos e ficamos observando o que ia acontecer. À beira d’água, ela tirou a saída-de-praia e revelou um corpão bombado mal encoberto por um reduzido biquíni. Depois esticou a toalha no chão e se deitou de barriga pra baixo, exibindo ao sol o esplêndido bumbum.&lt;br /&gt;“Puta merda, que mulherão!”, não se conteve o meu primo.&lt;br /&gt;No fim das contas ele tinha se tornado um homem comum. Um homem de meia-idade comum. Exatamente assim como eu.&lt;br /&gt;Não me surpreendeu ele não ter comparecido ao meu concerto na noite seguinte.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-8864378864591029103?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/8864378864591029103/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/08/meu-primo-padre.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/8864378864591029103'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/8864378864591029103'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/08/meu-primo-padre.html' title='CONTO (3)'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-5183345481278109923</id><published>2009-07-23T19:22:00.000-07:00</published><updated>2009-08-30T07:33:00.677-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>CONTO(2)</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;VISITANTE&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Não tenho a mínima idéia de quem é esse homem. Sei apenas que é um perfeito cavalheiro, sempre elegante com seu terno e gravata, os sapatos pretos muito bem engraxados. Percebo este detalhe porque, ao sentar-se na poltrona, ele cruza as pernas e mantém suspenso no ar o pé direito como se fosse um belo pássaro negro e reluzente.&lt;br /&gt;Não se trata de uma invasão, porque ele age de maneira muito educada. Mas certas noites, nas raras vezes em que a família está toda reunida, depois do jantar e da novela, ele entra pela porta do nosso apartamento, caminha pelo corredor, entra na sala, senta-se sempre no mesmo lugar e fica vendo televisão. Não pede licença, não dá boa-noite, não diz uma palavra. Mas, apesar disso, sua presença me traz uma espécie de tranquilidade, como se fosse ele, e não eu, o dono da casa, o responsável por alguma coisa que não sei bem o que é. Ele nada diz e nada lhe é perguntado. Tanto nós quanto ele agimos com a maior naturalidade nessa hora de perfeita convivência.&lt;br /&gt;Trata-se de um homem sério, de mais ou menos uns sessenta anos. Pelo modo como se veste e se comporta, deve ser um burocrata bem sucedido, um diretor de banco, um alto executivo, um chefe de repartição, que sei eu? Às vezes, quando a noite é mais quente, ele toma a liberdade de afrouxar a gravata e tirar o paletó, revelando assim um discreto par de suspensórios, daqueles de antigamente, quando eles combinavam com o cinto.&lt;br /&gt;O mais estranho é que ele não me lembra ninguém que eu tenha visto ou conhecido em toda a minha vida, nem pai, nem parente, nem vizinho, nem artista de cinema ou televisão. Mas, apesar disso, é como se eu o conhecesse desde que nasci.&lt;br /&gt;Ele é apenas uma testemunha silenciosa do que se desenrola ali na sala, quando a família se reúne e contamos uns aos outros o que nos aconteceu naquele dia, o que é quase sempre a mesma coisa. Quando surge um fato surpreendente, ele não aparenta nenhuma emoção, apenas fecha os olhos por alguns momentos e descansa em sua poltrona preferida, que por um acaso é a minha preferida também quando ele não está.&lt;br /&gt;A primeira vez que notei sua presença em nosso apartamento, faz muitos anos, foi numa pequena reunião familiar, possivelmente alguma festa de aniversário não lembro de quem. Achei então que ele tivesse vindo acompanhando algum parente ou amigo da família, apesar dele ter se mantido isolado na sua (minha) poltrona a noite toda sem se relacionar com ninguém. Em dado momento, o nosso gato angorá, sempre tão arisco, aproximou-se dele miando e tranquilamente subiu ao seu colo. Com toda a delicadeza deste mundo, ele repôs o bichinho no chão, que, acredito, sentindo-se rejeitado foi embora da sala pra nunca mais voltar, sendo que na manhã seguinte foi encontrado morto, caído lá no andar térreo.&lt;br /&gt;Depois dessa primeira noite, ele tem vindo sempre mesmo sem ser convidado. Mas a verdade é que, com seu jeito discreto e natural, ele nos cativou profundamente, a ponto de eu temer o dia em que ele deixar de nos visitar. Aí espero que ninguém se jogue pela janela.&lt;br /&gt;Tarde da noite, quando já estamos todos meio sonolentos, ele se levanta e vai embora. Na porta da rua, ele vira-se meio de perfil e dá um boa-noite geral quase imperceptível, um simples murmúrio, que mal consigo ouvir e que mais adivinho porque mal posso vê-lo do sofá onde estou derreado. Hora de dormir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-5183345481278109923?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/5183345481278109923/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/07/conto-2-visitante-nao-tenho-minima.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/5183345481278109923'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/5183345481278109923'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/07/conto-2-visitante-nao-tenho-minima.html' title='CONTO(2)'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-6100363517853176294</id><published>2009-07-12T18:11:00.000-07:00</published><updated>2009-07-14T12:52:48.384-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='memória'/><title type='text'></title><content type='html'>MEMÓRIA (1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira vez a gente nunca esquece...&lt;br /&gt;Logo que cheguei ao Rio de Janeiro, no início da década de 60, saí atrás de trabalho como ator. Não conhecia quase ninguém, mas alguém me informou que a TV Continental empregava um grande número de atores em determinado teleteatro que ia ao ar ao vivo (claro, o videotape ainda não existia) nas noites de domingo. Portanto, no início da tarde do meu primeiro domingo na "Cidade Maravilhosa", dirigi-me aos estúdios da emissora, que funcionavam na rua das Laranjeiras.&lt;br /&gt;Naquele tempo não tinha nada de crachá e você entrava em qualquer emissora sem precisar se identificar. No pátio, um assistente qualquer perguntou-me se eu gostaria de participar do teleteatro daquela noite e eu respondi que sim, claro! Na verdade, fiquei apavorado, porque minha experiência como ator era mínima: quatro pontinhas em peças na escola de teatro em Porto Alegre ("Egmont" de Goethe, uma comédia del'Arte, "O Telescópio" de Jorge Andrade e "Matar" de Paulo Hecker Filho). Custei a perceber, com um certo alívio, que iria fazer uma figuração, sem fala, no meio de mais uns trinta figurantes numa cena de batalha.&lt;br /&gt;Nunca tinha entrado num estúdio de tevê e fiquei encantado com aquelas luzes, cenários e figurinos. Era um drama de época, possivelmente baseado em algum romance histórico inglês. Depois de me enfiar na minha roupa de arqueiro do rei, fiquei assistindo aos ensaios. O diretor era um rapaz de Minas Gerais chamado Helvécio (que, desconfio, me dirigiu num "comercial" em Belo Horizonte, duzentos anos depois!) e a estrela, mulher do diretor, chamava-se Magda. O galã também era mineiro: um talentoso ator da minha idade, Paulo Célio, que poucos anos depois morreu de leucemia. Do meu canto, observei encantado a atividade daquele bando de atores, dentre os quais Francisco Milani, Joana Fomm, Jardel Mello, Ênio Santos e Maurício do Vale (o grande ator glauberiano, de quem me tornei amigo anos mais tarde, em São Paulo, quando ele, casado com uma advogada, morou na rua Cesário Mota). O que me espantava era como aquela gente podia decorar tanto texto e viver tão bem aqueles personagens com tão pouco ensaio.&lt;br /&gt;À noite, depois de um sanduíche e um refrigerante oferecidos aos mortos de fome da figuração, foi ao ar o grande drama em três atos registrados por diversas câmeras enormes, verdadeiros trambolhos que os cameramen conduziam com notável perícia: cada vez que mudavam de lente, tinham que desencaixar uma e introduzir a outra, provocando um forte estalido que, estranhamente, os microfones nunca captavam. Fiquei particularmente encantado com uma cena em que o herói subia por uma corda pelo muro do castelo; na realidade, a parede estava no plano horizontal e tudo não passava de um truque devido à posição da câmera e à mímica do ator. Ainda outro dia vi na tevê uma chamada de Batman e Robin ilustrando a mesma situação, e foi aí que tive a idéia de escrever este depoimento.&lt;br /&gt;Na famosa cena da batalha em que eu devia estrear na tevê, havia grande tumulto com câmeras, microfones e figurantes correndo de um lado para o outro. De repente, como uma barata tonta, percebi que estava no lugar errado, no meio dos inimigos, quando deveria estar com a minha turma. Corri para o meu lado, mas tive que passar pela frente de uma câmera. Acabada a cena, no intervalo comercial, levei um pito do cameraman, aprendendo assim a minha primeira lição de tevê: "nunca faça o papel de bobo passando pela frente de uma câmera que esteja no ar."&lt;br /&gt;No final da emissão, o tal assistente me avisou que eu deveria receber o meu cachê dali um mês. Nisso chegou até nós um dos atores principais da telepeça, acho que foi o meu xará Ênio Santos (se não foi ele, foi o Álvaro Aguiar). Examinou-me dos pés à cabeça e explicou: "Estou fazendo um filme e esta noite vamos fazer uma cena importante em que eu, como cirurgião, opero os olhos da mocinha. A produção do filme me encarregou de arranjar um anestesista. Acho que você tem o tipo. Topa fazer?" Claro que topei! Num período de poucas horas, menos de uma semana fora da província, e eu já estava estreando na tevê e no cinema. Era mais do que eu sonhava. Êta cara de sorte!&lt;br /&gt;Pegamos o carrinho humilde do meu xará -e me surpreendi que um ator tivesse condições financeiras de ter um automóvel mesmo naquele estado. Antes da novela de tevê tomar impulso, pouca gente queria ser ator porque teria de andar a pé e, quando muito, de ônibus.&lt;br /&gt;Fomos até um hospital na Praia Vermelha. Numa sala de operações, a luz forte já estava sendo armada. Tratava-se de um filme colorido e em eastmancolor, o que não era pouco naquela época. O melodrama "Teus Olhos Castanhos" era baseado numa música de sucesso do cantor português Francisco José, que também era o galã do filme. A gaúcha Ilza Silveira -grande figura humana que, mais tarde, me daria força na TV Tupi do Rio -era responsável pela adaptação. Ruy Guerra tinha feito o roteiro. A mocinha cega, que voltava a enxergar depois da tal operação, era vivida por Aracy Cardoso. O diretor era outro gaúcho, Ibañez Filho. Mas quem comandava tudo mesmo, pelo menos naquela noite, era o assistente de direção, Sanin Cherques. Extremamente gentil, ele instruía tanto os atores quanto a equipe técnica.&lt;br /&gt;Ganhei um primeiro plano manipulando o controle da anestesia e, apesar da máscara cirúrgica que me escondia a boca, fui identificado pelo meu irmão Evaldo, quando o filme foi exibido em Porto Alegre. Até hoje guardo telegrama que ele me enviou me parabenizando pela participação no filme.&lt;br /&gt;A filmagem atravessou a noite. Quando saí do hospital naquela segunda-feira, um sol glorioso já tinha nascido, era um daqueles dias de verão cuja beleza é exclusividade do Rio. Enquanto esperava a lotação que ia me levar pra Copacabana, exausto e feliz da vida, fiquei analisando o meu primeiro passo naquele universo que eu sempre quisera penetrar, nem que fosse como varredor de estúdio, moleque de recado ou puxador de cabo.&lt;br /&gt;Levei cano tanto da TV Continental quanto do filme. Naquela época, era muito comum o ator não receber o pagamento devido. Muitos canos vieram depois daqueles dois. E a verdade é que isso acontece até hoje. Mas nunca me arrependi de ter dado aquele primeiro passo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-6100363517853176294?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/6100363517853176294/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/07/memoria-1-primeira-vez-gente-nunca.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/6100363517853176294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/6100363517853176294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/07/memoria-1-primeira-vez-gente-nunca.html' title=''/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-6622165899672429899</id><published>2009-07-09T10:36:00.000-07:00</published><updated>2009-07-14T12:54:30.649-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='cinema'/><title type='text'>LUBITSCH</title><content type='html'>Imperdível a série de filmes de Ernst Lubitsch que o Banco do Brasil está apresentando. Além dos manjados "Ninotchka", "A Viúva Alegre" e "Ser ou Não Ser", um monte de outras obras-primas do mestre alemão.&lt;br /&gt;Começou com "Ana Bolena", de 1920, uma super-produção com enorme figuração e notáveis caracterizações. Emil Jannings, o mais famoso ator europeu de sua época, interpreta Henrique VIII com a exata imagem que temos do "barba azul" inglês, gordo e barbudo. Ele é um fauno cheio de humor correndo atrás das ninfetas de sua corte.&lt;br /&gt;Aqui, Ana Bolena é uma vítima indefesa, ao contrário da esperta e dissimulada Ana Bolena da série que a HBO está apresentando. A verdade do fato histórico nunca ninguém vai saber, apesar de toda e qualquer pesquisa. Acontecimentos registrados hoje pela tevê oferecem diversas versões e interpretações, imagine-se o que ocorreu faz quinhentos anos, sem o testemunho da mídia! Daí a pertinência do conceito emitido por Eça de Queirós com relação a qualquer obra de ficção:"A nudez forte da verdade sob o manto diáfano da fantasia".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-6622165899672429899?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/6622165899672429899/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/07/lubitsch.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/6622165899672429899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/6622165899672429899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/07/lubitsch.html' title='LUBITSCH'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-6460872158299229520</id><published>2009-07-07T18:39:00.000-07:00</published><updated>2009-08-30T07:33:32.223-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>CONTO (1)</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;OLHO POR OLHO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi numa sexta-feira chuvosa de inverno, no início dos anos oitenta, época em que ainda não havia detector de metais nas portas dos bancos - e esse detalhe é fundamental para a credibilidade da história que está sendo contada.&lt;br /&gt;Nessa noite ele entrou numa casa de samba em Pinheiros, acomodou-se numa banqueta junto ao balcão e pediu ao barman um uísque com gelo. Ele tinha sido amigo de infância do gerente e por isso tinha o costume de frequentar a casa. Não era exatamente um boêmio, mas como só trabalhava à tarde – como segurança numa empresa de transporte de valores - às vezes ia procurar o amigo a fim de bater papo, ouvir música, beber alguns uísques de graça e, principalmente, arranjar companhia feminina. Observou o ambiente e logo percebeu que a situação não era nada propícia ao seu habitual objetivo: nessa noite gelada havia pouca gente e muito mais homem que mulher. Seu consolo foi ficar ali escutando Lupicínio Rodrigues na voz poderosa da grande atração da casa, um negrão de quase dois metros de altura chamado Geraldão, que apresentava-se sozinho solando o seu violão.&lt;br /&gt;Perguntou do amigo gerente a um garçom e foi informado de que ele não viria trabalhar porque estava de cama por conta de um forte resfriado. “Resfriado coisa nenhuma”, interveio o barman. “De vez em quando ele vem com essa conversa. Deve tá com alguma mulher. Mas quem pode, pode. Se eu der uma dessa, perco o emprego.” Ele apenas sorriu porque sabia que seu amigo, apesar de homem sério, era um tremendo mulherengo. Nisso eles se pareciam e talvez por isso se dessem tão bem.&lt;br /&gt;Nesse momento dois ou três rapazes e uma moça aproximaram-se do balcão às gargalhadas, já bem calibrados. Geraldão, lá do seu poleiro diante do microfone, começou a se impacientar com a algazarra que cada vez mais prejudicava sua atuação. Pavio curto, ele costumava partir pra cima dos bêbados que extrapolavam em atrapalhar sua performance. De repente ele não conseguiu mais se conter e esbravejou no microfone: “A noite é uma merda! Ninguém respeita o artista.” Dito isso, botou o violão nas costas e, dirigindo-se para o banheiro, sentenciou: “Vou mijar.”&lt;br /&gt;Logo depois foi a vez do barman perder as estribeiras, acusando os rapazes e a moça de terem se apossado de uma garrafa de uísque que estava sobre o balcão. Como a casa não tinha leão de chácara, o barman convocou a meia dúzia de garçons para expulsar os bagunceiros. Geraldão não se fez de rogado e veio junto “Deixa comigo!”, disse ele. “Eu resolvo sozinho essa parada!” Logo abriu os braços como se fossem os tentáculos de um polvo, envolveu o grupelho e o arrastou para a rua.&lt;br /&gt;Meia hora mais tarde e três uísques pendurados, que depois seu amigo gerente iria aliviar, ele saiu da casa de samba. A noite não ia render nada mesmo, o negócio era ir pra casa dormir. Foi andando todo encarangado debaixo da garoinha miúda e fria.&lt;br /&gt;Quando ia abrindo a porta do carro, sentiu-se agarrado por uma gangue violenta. A moça gritava histericamente: “É ele! É o gerente! É ele mesmo!” “Que gerente nada! Eu sou freguês! Sou freguês como vocês!”, defendia-se ele, tentando se soltar dos rapazes. “Filho da puta!”, rugia a moça. “Você é o gerente! Tava lá no balcão e denunciou a gente!” E não adiantou ele jurar por tudo o que era mais sagrado que não era o gerente, porque os três rapazes desceram-lhe o cacete. Enquanto dois o seguravam pelos braços, o terceiro enchia-o de socos e pontapés. E a moça açulando: “Bate! Bate mais!” Apertado contra o carro, completamente imobilizado, sentiu seu olho direito estourar. Nisso a luz de um poste incidiu sobre o rosto do rapaz que batia e, com a visão do olho que ainda lhe restava, pode registrar, como se fosse um flash fotográfico, as feições do maldito agressor: devia ter uns vinte e poucos anos, olhos azuis e o nariz arrebitado. Seu corpo amoleceu e ele parou de se debater. Julgando que a vítima estivesse entregue, os algozes o soltaram. Num salto inesperado, ele saltou para o meio da rua e correu. Os outros quatro, ainda não satisfeitos, vieram-lhe atrás.&lt;br /&gt;Na esquina havia um botequim ainda aberto e ele o invadiu em busca de refúgio. O dono do bar e alguns pinguços que estavam por ali não esboçaram nenhuma reação quando ele apanhou uma faca de cozinha que estava sobre o balcão. Já os quatro agressores, ao verem a faca apontada na sua direção, não ousaram entrar no bar. Ficaram na porta ameaçando e dizendo palavrão. O rapaz de nariz arrebitado catou uma pedra da calçada e ameaçou atirar em cima dele. “Se acertar o vagabundo, tudo bem!”, avisou o português. “Mas se quebrar um copo aqui dentro, vai ter pra vocês!” Aí eles desistiram e foram embora dizendo que iriam “arrebentar com o carro desse gerente filho da puta”.&lt;br /&gt;“Se eles queriam te pegar é porque alguma coisa você fez”, comentou o português. “Vai ver, tu tá devendo, malandro!”, emendou um pinguço.&lt;br /&gt;Só estava enxergando de um olho e precisava de ajuda. Era evidente que, naquele botequim infecto, ninguém iria socorrê-lo. Portanto, depois de se certificar de que, lá no meio do quarteirão, a gangue concentrava-se em depredar o seu carro, correu de volta à casa de samba. Mal explicou ao pessoal o que tinha acontecido, suas pernas bambearam e ele desmaiou.&lt;br /&gt;No dia seguinte, já sabendo que tinha perdido o olho direito, recebeu a visita de Geraldão no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas.&lt;br /&gt;“Já vi que o teu problema é sério”, comentou o negrão. “Como é que você, cego de um olho, vai voltar a trabalhar como segurança “Boa pergunta!”, respondeu ele. “Ainda bem que você é um sujeito sossegado. Fosse comigo, ia atrás daqueles putos e mandava bala.” “Como ir atrás se nem sei quem são eles?” “Mas eu sei!”, concluiu Geraldão, chegando ao ponto que interessava: “Um sujeito que tava lá na casa ontem à noite me contou que conhece eles. Trabalham numa agência do Banco do Brasil na Vila Mariana. Esses bancários de merda enchem os cornos e sempre aprontam no final de semana.”&lt;br /&gt;Segunda-feira, logo depois do meio-dia, ele saiu do hospital e foi até a sua empresa. Sem que ninguém visse, apanhou sua arma de serviço e se dirigiu à tal agência do Banco do Brasil. Com o olho que lhe restava examinou o ambiente. Filas enormes de gente querendo acertar suas despesas do final de semana. Uma jovem funcionária, rápida e eficiente, se aproximava da mesa do gerente e lhe entregava uma pasta de documentos. Poderia ser a vagabunda gritona da noite de sexta, mas não teve certeza. Caminhou na direção dos caixas e lá estava, atrás de um guichê, o canalha de olhos azuis e nariz arrebitado. Ele não teve dúvidas, furou a fila, afastou delicadamente uma velhinha que estava sendo atendida e sapecou um tiro no olho azul direito do caixa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-6460872158299229520?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/6460872158299229520/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/07/olho-por-olho.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/6460872158299229520'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/6460872158299229520'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/07/olho-por-olho.html' title='CONTO (1)'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5811438274244307441.post-1443961696755821941</id><published>2009-07-05T18:18:00.000-07:00</published><updated>2009-07-07T18:15:12.122-07:00</updated><title type='text'>APRESENTAÇÃO</title><content type='html'>Meu nome é Ênio Gonçalves. Sou conhecido por algumas pessoas por conta da minha já longa carreira como ator de teatro, cinema e televisão, mas desde a minha distante infância sempre gostei de escrever ficção. Além de arte dramática, estudei jornalismo e, no início de minha carreira como ator, trabalhei na imprensa de Porto Alegre, Rio e São Paulo (onde tive a honra de trabalhar sob o comando de Samuel Wainer, na fase final da "Última Hora").&lt;br /&gt;Escrevi umas quinze peças de teatro, metade das quais foram montadas em São Paulo por mim ou por outros diretores. Fui indicado ao Prêmio Shell como autor pela peça "Cachorro!" O engraçado é que, depois de mais de três anos apresentando esse espetáculo, apareceram mais duas peças com o mesmo título. Diz que isso pode! O que me sugeriu a idéia estúpida de escrever e representar um monólogo chamado "Trair e Coçar É Só Começar", mesmo correndo o risco de levar um tiro do grande Marcos Caruso, que já utilizou esse título com enorme sucesso.&lt;br /&gt;Mas o foco deste blog são os contos, que sempre escrevi, fora dois romances que também estão na gaveta. Tive um conto publicado na saudosa revista "Ficção", mas diversas tentativas de estabelecer  contato com editoras não deram em nada. É muita gente escrevendo. Compreende-se que as editoras não estejam recebendo originais para apreciação. E como não tenho padrinho...&lt;br /&gt;Meu propósito é apresentar aqui, a partir de hoje, um conto por mês - e ficar à espera de alguma crítica ou apreciação.&lt;br /&gt;Se por acaso você ler um dos meus contos, por favor, me dê retorno: pode malhar à vontade pra que eu caia na real.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5811438274244307441-1443961696755821941?l=contosdoenio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosdoenio.blogspot.com/feeds/1443961696755821941/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/07/apresentacao.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/1443961696755821941'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5811438274244307441/posts/default/1443961696755821941'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosdoenio.blogspot.com/2009/07/apresentacao.html' title='APRESENTAÇÃO'/><author><name>enio gonçalves</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04691535861605975995</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
