“Se um cego guiar outro cego, os dois cairão num buraco.”
Evangelho segundo s. Mateus, cap.5, v.14
Era só Abelardinho e a mãe neste mundo, morando no apartamento quarto-sala conjugado do edifício 200 da Barata Ribeiro, o mais famoso “balança” do Rio de Janeiro no final da década de 60.
Primeiro, ele viera sozinho do sertão cearense. Depois de três anos de luta pela sobrevivência, trouxera a mãe, já quase cega naquela époc a, o sol inclemente da seca lhe queimara as retinas.
Lá na cidadezinha do sertão, Abelardinho tinha visto alguns filmes da Atlântida e ficara fã de José Lewgoy. Achava o máximo a voz e o bigode do famoso vilão do cinema nacional. Anselmo Duarte e Cyll Farney não lhe diziam nada, muito menos Eliana ou Fada Santoro. Daí nasceu sua vontade de se tornar ator de cinema. Sendo assim, “pegou um ita no norte e veio pro Rio morar”, seguindo o exemplo de Dorival Caymi.
Agora trabalhava como atendente no Banco Nacional em Copacabana, perto de casa. Nas horas vagas corria atrás da carreira artística, no cinema, no teatro e na televisão. Mas não conseguia penetrar naquele universo maravilhoso, talvez por causa da cara feia e do corpo desajeitado, como ele mesmo acreditava. Na verdade, era um sujeito despreparado, com uma visão ingênua do que seria a profissão de ator.
Acontece que no 200 também morava um artista famoso – famoso no prédio, pelo menos -, Eduardo Del Dongo, que atuava nos teleteatros da Tevê Tupi, além de ser dublador de filmes estrangeiros. Um dia Abelardinho cruzou com ele no elevador do prédio e logo se enturmou. Penalizado com a situação do vizinho aspirante a ator, Del Dongo resolveu apresentá-lo ao estúdio de dublagem em que trabalhava. E Abelardinho começou por onde todo o dublador começa: fazendo o que se chama de “vozerio”, aquelas vozes anônimas de um grupo de personagens falando ao mesmo tempo.
A seu favor, Abelardinho tinha uma voz muito grave e bonita. E foi perdendo o forte sotaque nordestino por causa dos exercícios vocais que Del Dongo lhe passava.
Durante uma dessas aulas, aconteceu um episódio interessante. Estavam no apartamento de Del Dongo e Abelardinho pediu licença pra ir até o banheiro. Como o aluno demorasse algum tempo a voltar à lição, o professor resolveu verificar o que estava acontecendo. Empurrou a porta do banheiro e flagrou Abelardinho, muito concentrado, cheirando uma cueca samba-canção que ele, Del Dongo, tinha acabado de usar. “Nada do que é humano me choca”, pensou Del Dongo, lembrando-se de uma frase que Cacilda Becker dissera recentemente numa peça de Tennessee Williams. Por isso, fechou a porta do banheiro discretamente e fez que não tinha visto nada de extraordinário.
Uma nova série, que estava fazendo um grande sucesso nos Estados Unidos, ia ser lançada na Tevê Globo. O protagonista era um policial machão que dava porrada e falava grosso. Depois de alguns testes, a empresa dubladora escolheu Abelardinho para dublar o ator americano. Este trabalho fixo rendia um cachê razoável e, então, Abelardinho aproveitou a oportunidade pra largar o banco e se dedicar inteiramente à carreira artística.
Agora sua mãe, bem acabadinha, já estava completamente cega. Diante desse fato, Abelardinho decidiu dar uma alegria à velha, anunciando que iria estrelar uma novela da Globo. Sem enxergar as imagens, apenas ouvindo a voz do filho, a ilusão maternal foi perfeita. Durante as três temporados do seriado, a velhinha cega viveu em plena felicidade com o sucesso do filho global.
Quando o seriado foi suspenso, devido a uma greve de dubladores que se estendeu por meses, Abelardinho entrou em pânico. Mas, nisso, a velhinha morreu repentinamente. “Pelo menos, morreu feliz”, pensou Abelardinho.
No 200, correu o boato de que ele tinha estrangulado a mãe.
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quarta-feira, 28 de julho de 2010
quinta-feira, 4 de março de 2010
HOPALONGO
“Andar, companheiros, levar por aí afora,
Para os sumidouros do vácuo sem fundo,
Os cacos e entulhos da fábrica mundo.”
Goethe, em “Fausto”
Era uma cidade vazia, um bairro desconhecido. E caia uma garoa fria de antigamente. As ruas de terra tinham virado um lamaçal cinzento que me sujava os sapatos e a barra das calças. Por isso eu caminhava com dificuldade tentando voltar para a casa em que estava hospedado. Além do mais, anoitecia e foi me dando um desespero por não encontrar o meu destino. O fato é que não sei como e nem porque tinha chegado até ali.
Debaixo de um telheiro avistei dois rapazes que conversavam enquanto fumavam o mesmo cigarro.
“Por favor, onde fica a rua tal?”, perguntei vencendo o meu desconforto.
Riram na minha cara. Depois um deles explicou:
“Você pega a primeira rua à direita, depois a segunda à esquerda...”
“Não”, interrompeu o outro, “pega a terceira à esquerda. É essa!”
Agradeci a informação e segui em frente, tendo a impressão de que eles ficaram rindo às minhas costas. Certamente eles se divertiam com o meu estado lastimável ou com a informação errada que tinham me dado.
Em todo caso, como imaginei que eles estivessem me observando, fosse ou não fosse gozação, dobrei a primeira rua à direita. Acabei encontrando um velho apoiado atrás de uma cerca de madeira. Debaixo de um guarda-chuva, ele parecia observar com olhos de coruja assustada o movimento da rua que era nenhum.
“Por favor, o senhor sabe onde fica a rua tal?”, perguntei.
“Eu não sei de nada”, respondeu o velho, “mas, se o senhor dobrar a próxima rua à direita, vai encontrar uma casa com um hopalongo na frente. Peça informação nessa casa. Ali reside o morador mais antigo do bairro, um velho mais velho do que eu, e ele sabe de tudo.”
“O senhor disse o quê? Um hopalongo?”
“Isso mesmo, um hopalongo!”, repetiu o velho, afastando-se depressa. Na porta do casebre, ele conseguiu fechar o guarda-chuva que quase lhe fugia das mãos engolfado pelo vento.
Fiquei ali parado debaixo da garoa, mais sozinho do que nunca O que seria um hopalongo? Alguma espécie de varanda na frente da casa? Algum modelo de automóvel? Um balanço de corda pendurado numa árvore? Alguma raça de cachorro vigilante? Um certo tipo de muro? Uma cerca viva? Que diabo seria um hopalongo? Aquela palavra me soava familiar, mas significando o quê?
Foi então que me lembrei de Hopalong Cassidy, o herói dos antigos faroestes da minha infância, a quem a molecada, inclusive eu, chamava de “Hopalongue Casside”. Por certo, não seria ele que eu iria encontrar nessa minha caminhada.
Enfim, não encontrei nada que pudesse ser um hopalongo e acabei me perdendo dentro da noite que me envolveu rapidamente.
Para os sumidouros do vácuo sem fundo,
Os cacos e entulhos da fábrica mundo.”
Goethe, em “Fausto”
Era uma cidade vazia, um bairro desconhecido. E caia uma garoa fria de antigamente. As ruas de terra tinham virado um lamaçal cinzento que me sujava os sapatos e a barra das calças. Por isso eu caminhava com dificuldade tentando voltar para a casa em que estava hospedado. Além do mais, anoitecia e foi me dando um desespero por não encontrar o meu destino. O fato é que não sei como e nem porque tinha chegado até ali.
Debaixo de um telheiro avistei dois rapazes que conversavam enquanto fumavam o mesmo cigarro.
“Por favor, onde fica a rua tal?”, perguntei vencendo o meu desconforto.
Riram na minha cara. Depois um deles explicou:
“Você pega a primeira rua à direita, depois a segunda à esquerda...”
“Não”, interrompeu o outro, “pega a terceira à esquerda. É essa!”
Agradeci a informação e segui em frente, tendo a impressão de que eles ficaram rindo às minhas costas. Certamente eles se divertiam com o meu estado lastimável ou com a informação errada que tinham me dado.
Em todo caso, como imaginei que eles estivessem me observando, fosse ou não fosse gozação, dobrei a primeira rua à direita. Acabei encontrando um velho apoiado atrás de uma cerca de madeira. Debaixo de um guarda-chuva, ele parecia observar com olhos de coruja assustada o movimento da rua que era nenhum.
“Por favor, o senhor sabe onde fica a rua tal?”, perguntei.
“Eu não sei de nada”, respondeu o velho, “mas, se o senhor dobrar a próxima rua à direita, vai encontrar uma casa com um hopalongo na frente. Peça informação nessa casa. Ali reside o morador mais antigo do bairro, um velho mais velho do que eu, e ele sabe de tudo.”
“O senhor disse o quê? Um hopalongo?”
“Isso mesmo, um hopalongo!”, repetiu o velho, afastando-se depressa. Na porta do casebre, ele conseguiu fechar o guarda-chuva que quase lhe fugia das mãos engolfado pelo vento.
Fiquei ali parado debaixo da garoa, mais sozinho do que nunca O que seria um hopalongo? Alguma espécie de varanda na frente da casa? Algum modelo de automóvel? Um balanço de corda pendurado numa árvore? Alguma raça de cachorro vigilante? Um certo tipo de muro? Uma cerca viva? Que diabo seria um hopalongo? Aquela palavra me soava familiar, mas significando o quê?
Foi então que me lembrei de Hopalong Cassidy, o herói dos antigos faroestes da minha infância, a quem a molecada, inclusive eu, chamava de “Hopalongue Casside”. Por certo, não seria ele que eu iria encontrar nessa minha caminhada.
Enfim, não encontrei nada que pudesse ser um hopalongo e acabei me perdendo dentro da noite que me envolveu rapidamente.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
ALÉM DA ARREBENTAÇÃO
Para Will Damas, dramaturgo e poeta anarquista.
Acabo de ler no jornal que Vivi morreu afogada no Posto Cinco de Copacabana. Ela e um homem de quarenta anos, solteiro (não era o marido dela, portanto), foram nadar além da arrebentação e morreram afogados. Segundo testemunhas, o casal chamava a atenção porque estava aos beijos e abraços dentro d’água. Por incrível que pareça, os dois corpos foram retirados do mar ainda abraçados.
Ir além da arrebentação é muito perigoso. Só quem sabe nadar muito bem é que se atreve a tanto. Esse namorado de Vivi não era como eu: devia ser um bom nadador. Fico imaginando como teria sido a morte deles: ela cansou, sentiu câimbras; ele tentou salvá-la e também se afogou. Fim.
Essa notícia me faz lembrar o dia em que conheci Vivi, faz uns trinta anos. Nunca vou esquecer o que aconteceu porque, naquele dia, por uma estranha coincidência, eu também estive a ponto de morrer afogado no Posto Cinco.
Ela era uma menina magricela, ruivinha e sardenta, que sentou ao meu lado na areia e a quem eu ofereci um sorvete. Quando eu entrei no mar, ela veio atrás, me ultrapassou e ficou boiando lá adiante na arrebentação das ondas. Não sei nadar, mas queria me exibir pra ela e fui em frente até ficar com água na altura dos ombros. A onda grandona vinha, eu pulava no balanço dela. Quando voltava a tocar com o pé no fundo, a cabeça já estava fora d’água. E assim ia me mantendo junto de Vivi, segurando sua mão por debaixo d’água porque ela me avisou que seu irmão mais velho estava jogando futebol na areia e, se visse ela namorando, iria contar ao pai – que era um militar troglodita – e aí adeus praia.
De repente, me apavorei. Não dava mais pé por mais que me espichasse. Comecei a bater pernas e braços como um louco. Vivi conseguiu voltar pra onde dava pé, enquanto eu me desesperava engolindo água salgada. “Vem pra cá, vem!” – ela gritava assustada na minha direção. Ir pra junto dela era o que eu mais queria naquele momento, mas de que jeito¿ Nisso passou por mim um garotinho flutuando numa bóia e eu, já sem fôlego, no desespero, me agarrei no calção dele. Então o moleque começou a gritar comigo, me chamando de filho da puta, já meio de bunda de fora. Aí finalmente veio uma correnteza e me empurrou na direção da praia junto com o garoto. “Me larga, desgraçado! Brincadeira mais besta!” – ele reclamava ainda quando eu o soltei. Com muito custo fui saindo d’água, Vivi me puxando pela mão. “Teu irmão pode ver!” – avisei. “Você é mesmo um bocó!” – ela respondeu. “Quase morre afogado, não se agüenta em cima das pernas e ainda fica preocupado com o meu irmão! Ele que vá pro inferno!”
Havia mais: quando chegamos ao montinho de areia onde estavam os nossos pertences, tinham roubado o meu radinho de pilhas, que eu tinha comprado com tanto sacrifício, e um relógio de pulso que Vivi tinha herdado da avó dela. “É muito azar num dia só!” – falei pra ela. “Se eu pego o lazarento que roubou o teu relógio, encho o safado de porrada!” “Deixa pra lá! O que importa é que você não morreu afogado” – ela tentou me consolar.Coisas dramáticas como essas – o meu quase afogamento e o roubo dos nossos objetos de estimação – envolvem as pessoas. Eu tinha a impressão de conhecer Vivi há um século.
Descansamos um pouco na areia, um sol violento queimando pra valer, e depois fui levá-la até a casa da tia, que morava numa transversal da Nossa Senhora de Copacabana. A entrada de banhistas era dentro da garagem e ficamos dando um amasso lá junto do elevador, enquanto não passava ninguém. Beija daqui, beija dali, comecei a baixar a parte de cima do maiô dela, quando me aparece o zelador do edifício. Foi um Deus nos acuda! A gente se soltou, ela ajeitando o maiô, eu virando as costas para o homem, naquele estado. O empata-foda arranjou um paninho e começou a limpar os carros que estavam por perto só pra sacanear a gente. O jeito era ela entrar no elevador e eu dar o fora – era o que o zelador estava querendo nos dizer com aquelas esfregadelas nos para-brisas. “Sujeito mais idiota!” – falei no ouvido dela. “Vai ver nunca fez o que a gente tá fazendo e ficou com inveja. Essa raça de zelador e porteiro de edifício é tudo recalcado.” Ela então me puxou pela mão na direção da saída, me convidando pra tomar uma coca-cola no bar da esquina.
No meio do caminho, comecei a pensar: “Vou arriscar tudo de uma vez. Se colar, colou; se não colar, azar é o meu.” Já estávamos quase chegando ao bar e eu ainda criando coragem pra fazer a minha proposta. “Por que não vamos tomar coca-cola lá em casa¿” – despejei de uma só vez sem muita convicção. Ela pareceu não entender o que eu tinha dito (ou talvez estivesse ganhando tempo pra analisar melhor o meu convite) porque deu alguns passos sem reagir e depois perguntou com toda a naturalidade: “O que foi que você disse¿” Repeti, audacioso: “Por que não vamos tomar coca-cola lá em casa¿ Moro aqui pertinho, no fim da Sá Ferreira.” Ela andou mais um pouco e eu fui atrás, esperando tudo, que ela apressasse o passo e fosse embora em silêncio ou que, antes de ir, ela me aplicasse uma bolacha. “Bem que a gente podia, né¿” – disse ela finalmente parando na beira da calçada e me olhando na cara, como se me desafiasse. “Claro!”- baixei os olhos e continuei a caminhar sem saber pra onde estava indo. “Então vamos. Onde é mesmo o teu apartamento¿”- ela falou passando a mão na minha cabeça como se eu fosse criança.
Assim fomos para o meu apartamento (felizmente os dois caras que dividiam comigo o sala-quarto conjugado não estavam lá) e tudo correu bem até o ponto em que havíamos chegado na porta do elevador, quando o bendito do zelador nos interrompera. Agora, quando seguíamos adiante, ela começou a respirar com dificuldade, ronronando como uma gata. Isso ainda me deixou mais excitado. Mas logo percebi que interpretara mal os gemidos da garota. Ela estava passando mal e me pediu que eu fosse correndo até uma farmácia comprar um remédio contra asma: era muito comum sofrer ataque de asma quando se emocionava além da conta. Recebi um balde de água fria.
Me vesti correndo, fui à farmácia e voltei num segundo, apavorado com a idéia de Vivi morrer no meu apartamento, com toda a complicação que podia surgir daí. Mas ela logo voltou ao normal, depois de dar umas bombadas na garganta com o aparelho que viera dentro da caixa de remédio. Mais tarde, eu a levei de táxi pra casa, na Tijuca, e gastei uma nota preta. Voltei pra Copacabana de ônibus, preocupado com a minha situação financeira.
Muita coisa aconteceu depois. Sempre nos encontrávamos na praia, sob o olhar vigilante do irmão. Uma vez ela veio ao meu apartamento com um violão e me cantou um samba bossa-nova muito bacana que ela disse que tinha composto em minha homenagem, falava em onda do mar, areia, sol, verão, essas coisas. Ela tocava o violão apoiando o pé em cima do meu sofá-cama e acabou furando o estofamento com o salto ponteagudo do sapato, fiquei puto da vida e quase mandei ela embora.
Durante esse tempo todo, eu continuava mantendo na gaveta do armário o tal remédio contra asma. E quando a gente ia pra cama, a bombinha sempre ficava ao alcance da minha mão, porque à certa altura, quando ela se emocionava o bastante, lá vinha aquele rosnado de gata, e eu era obrigado a me conter e lhe aplicar meia-dúzia de bombadas na garganta. Era até divertido.
Vivi desapareceu durante as férias de verão e depois voltou, vestindo o seu uniforme de normalista, com um presente pra mim, um copo onde estava escrito: “Estive em Poços de Caldas e pensei em você!” Depois de algum rodeio, acabou dizendo que estava grávida por minha causa. Não acreditei muito, ela ficou zangada e foi embora gritando que nunca mais queria ver a minha cara. Duas semanas mais tarde, nos encontramos dentro de um ônibus e ela veio comigo ao meu apartamento. Mas não aconteceu nada dessa vez porque, antes do ataque de asma, ela começou a sentir outro tipo de incômodo: tinha feito um aborto poucos dias antes. Pra encurtar a história, acabamos discutindo e brigando. Falei que por causa dela eu tinha perdido o meu radinho de pilhas e o meu sofá-cama estava furado.
Depois desse dia, eu nunca mais a vi. Joguei fora o tal remédio contra asma, inclusive porque já devia ter perdido a validade.
Alguns anos depois fui abordado , na praia, por um sujeito muito simpático. Era o tal irmão dela. Me informou que ela tinha se casado com um capitão do exército e que estava esperando um segundo filho. Pra mim, ela continuou sendo a imagem comovente de uma ruivinha com pele de ferrugem, no seu uniforme de colégio de freiras.
Agora essa notícia no jornal... Pensando bem, o mais provável é que Vivi tenha se emocionado demais, além da arrebentação, levando consigo pro fundo do mar – igual uma sereia – o homem que não pudera livrá-la de uma crise de asma.
Acabo de ler no jornal que Vivi morreu afogada no Posto Cinco de Copacabana. Ela e um homem de quarenta anos, solteiro (não era o marido dela, portanto), foram nadar além da arrebentação e morreram afogados. Segundo testemunhas, o casal chamava a atenção porque estava aos beijos e abraços dentro d’água. Por incrível que pareça, os dois corpos foram retirados do mar ainda abraçados.
Ir além da arrebentação é muito perigoso. Só quem sabe nadar muito bem é que se atreve a tanto. Esse namorado de Vivi não era como eu: devia ser um bom nadador. Fico imaginando como teria sido a morte deles: ela cansou, sentiu câimbras; ele tentou salvá-la e também se afogou. Fim.
Essa notícia me faz lembrar o dia em que conheci Vivi, faz uns trinta anos. Nunca vou esquecer o que aconteceu porque, naquele dia, por uma estranha coincidência, eu também estive a ponto de morrer afogado no Posto Cinco.
Ela era uma menina magricela, ruivinha e sardenta, que sentou ao meu lado na areia e a quem eu ofereci um sorvete. Quando eu entrei no mar, ela veio atrás, me ultrapassou e ficou boiando lá adiante na arrebentação das ondas. Não sei nadar, mas queria me exibir pra ela e fui em frente até ficar com água na altura dos ombros. A onda grandona vinha, eu pulava no balanço dela. Quando voltava a tocar com o pé no fundo, a cabeça já estava fora d’água. E assim ia me mantendo junto de Vivi, segurando sua mão por debaixo d’água porque ela me avisou que seu irmão mais velho estava jogando futebol na areia e, se visse ela namorando, iria contar ao pai – que era um militar troglodita – e aí adeus praia.
De repente, me apavorei. Não dava mais pé por mais que me espichasse. Comecei a bater pernas e braços como um louco. Vivi conseguiu voltar pra onde dava pé, enquanto eu me desesperava engolindo água salgada. “Vem pra cá, vem!” – ela gritava assustada na minha direção. Ir pra junto dela era o que eu mais queria naquele momento, mas de que jeito¿ Nisso passou por mim um garotinho flutuando numa bóia e eu, já sem fôlego, no desespero, me agarrei no calção dele. Então o moleque começou a gritar comigo, me chamando de filho da puta, já meio de bunda de fora. Aí finalmente veio uma correnteza e me empurrou na direção da praia junto com o garoto. “Me larga, desgraçado! Brincadeira mais besta!” – ele reclamava ainda quando eu o soltei. Com muito custo fui saindo d’água, Vivi me puxando pela mão. “Teu irmão pode ver!” – avisei. “Você é mesmo um bocó!” – ela respondeu. “Quase morre afogado, não se agüenta em cima das pernas e ainda fica preocupado com o meu irmão! Ele que vá pro inferno!”
Havia mais: quando chegamos ao montinho de areia onde estavam os nossos pertences, tinham roubado o meu radinho de pilhas, que eu tinha comprado com tanto sacrifício, e um relógio de pulso que Vivi tinha herdado da avó dela. “É muito azar num dia só!” – falei pra ela. “Se eu pego o lazarento que roubou o teu relógio, encho o safado de porrada!” “Deixa pra lá! O que importa é que você não morreu afogado” – ela tentou me consolar.Coisas dramáticas como essas – o meu quase afogamento e o roubo dos nossos objetos de estimação – envolvem as pessoas. Eu tinha a impressão de conhecer Vivi há um século.
Descansamos um pouco na areia, um sol violento queimando pra valer, e depois fui levá-la até a casa da tia, que morava numa transversal da Nossa Senhora de Copacabana. A entrada de banhistas era dentro da garagem e ficamos dando um amasso lá junto do elevador, enquanto não passava ninguém. Beija daqui, beija dali, comecei a baixar a parte de cima do maiô dela, quando me aparece o zelador do edifício. Foi um Deus nos acuda! A gente se soltou, ela ajeitando o maiô, eu virando as costas para o homem, naquele estado. O empata-foda arranjou um paninho e começou a limpar os carros que estavam por perto só pra sacanear a gente. O jeito era ela entrar no elevador e eu dar o fora – era o que o zelador estava querendo nos dizer com aquelas esfregadelas nos para-brisas. “Sujeito mais idiota!” – falei no ouvido dela. “Vai ver nunca fez o que a gente tá fazendo e ficou com inveja. Essa raça de zelador e porteiro de edifício é tudo recalcado.” Ela então me puxou pela mão na direção da saída, me convidando pra tomar uma coca-cola no bar da esquina.
No meio do caminho, comecei a pensar: “Vou arriscar tudo de uma vez. Se colar, colou; se não colar, azar é o meu.” Já estávamos quase chegando ao bar e eu ainda criando coragem pra fazer a minha proposta. “Por que não vamos tomar coca-cola lá em casa¿” – despejei de uma só vez sem muita convicção. Ela pareceu não entender o que eu tinha dito (ou talvez estivesse ganhando tempo pra analisar melhor o meu convite) porque deu alguns passos sem reagir e depois perguntou com toda a naturalidade: “O que foi que você disse¿” Repeti, audacioso: “Por que não vamos tomar coca-cola lá em casa¿ Moro aqui pertinho, no fim da Sá Ferreira.” Ela andou mais um pouco e eu fui atrás, esperando tudo, que ela apressasse o passo e fosse embora em silêncio ou que, antes de ir, ela me aplicasse uma bolacha. “Bem que a gente podia, né¿” – disse ela finalmente parando na beira da calçada e me olhando na cara, como se me desafiasse. “Claro!”- baixei os olhos e continuei a caminhar sem saber pra onde estava indo. “Então vamos. Onde é mesmo o teu apartamento¿”- ela falou passando a mão na minha cabeça como se eu fosse criança.
Assim fomos para o meu apartamento (felizmente os dois caras que dividiam comigo o sala-quarto conjugado não estavam lá) e tudo correu bem até o ponto em que havíamos chegado na porta do elevador, quando o bendito do zelador nos interrompera. Agora, quando seguíamos adiante, ela começou a respirar com dificuldade, ronronando como uma gata. Isso ainda me deixou mais excitado. Mas logo percebi que interpretara mal os gemidos da garota. Ela estava passando mal e me pediu que eu fosse correndo até uma farmácia comprar um remédio contra asma: era muito comum sofrer ataque de asma quando se emocionava além da conta. Recebi um balde de água fria.
Me vesti correndo, fui à farmácia e voltei num segundo, apavorado com a idéia de Vivi morrer no meu apartamento, com toda a complicação que podia surgir daí. Mas ela logo voltou ao normal, depois de dar umas bombadas na garganta com o aparelho que viera dentro da caixa de remédio. Mais tarde, eu a levei de táxi pra casa, na Tijuca, e gastei uma nota preta. Voltei pra Copacabana de ônibus, preocupado com a minha situação financeira.
Muita coisa aconteceu depois. Sempre nos encontrávamos na praia, sob o olhar vigilante do irmão. Uma vez ela veio ao meu apartamento com um violão e me cantou um samba bossa-nova muito bacana que ela disse que tinha composto em minha homenagem, falava em onda do mar, areia, sol, verão, essas coisas. Ela tocava o violão apoiando o pé em cima do meu sofá-cama e acabou furando o estofamento com o salto ponteagudo do sapato, fiquei puto da vida e quase mandei ela embora.
Durante esse tempo todo, eu continuava mantendo na gaveta do armário o tal remédio contra asma. E quando a gente ia pra cama, a bombinha sempre ficava ao alcance da minha mão, porque à certa altura, quando ela se emocionava o bastante, lá vinha aquele rosnado de gata, e eu era obrigado a me conter e lhe aplicar meia-dúzia de bombadas na garganta. Era até divertido.
Vivi desapareceu durante as férias de verão e depois voltou, vestindo o seu uniforme de normalista, com um presente pra mim, um copo onde estava escrito: “Estive em Poços de Caldas e pensei em você!” Depois de algum rodeio, acabou dizendo que estava grávida por minha causa. Não acreditei muito, ela ficou zangada e foi embora gritando que nunca mais queria ver a minha cara. Duas semanas mais tarde, nos encontramos dentro de um ônibus e ela veio comigo ao meu apartamento. Mas não aconteceu nada dessa vez porque, antes do ataque de asma, ela começou a sentir outro tipo de incômodo: tinha feito um aborto poucos dias antes. Pra encurtar a história, acabamos discutindo e brigando. Falei que por causa dela eu tinha perdido o meu radinho de pilhas e o meu sofá-cama estava furado.
Depois desse dia, eu nunca mais a vi. Joguei fora o tal remédio contra asma, inclusive porque já devia ter perdido a validade.
Alguns anos depois fui abordado , na praia, por um sujeito muito simpático. Era o tal irmão dela. Me informou que ela tinha se casado com um capitão do exército e que estava esperando um segundo filho. Pra mim, ela continuou sendo a imagem comovente de uma ruivinha com pele de ferrugem, no seu uniforme de colégio de freiras.
Agora essa notícia no jornal... Pensando bem, o mais provável é que Vivi tenha se emocionado demais, além da arrebentação, levando consigo pro fundo do mar – igual uma sereia – o homem que não pudera livrá-la de uma crise de asma.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
CONTO (3)
MEU PRIMO PADRE
para Carlos Reichenbach Filho
Eu e meu primo temos mais ou menos a mesma idade e somos os primos mais velhos da minha família por parte de mãe. Entretanto, a diferença entre nós dois – pelo menos no início desta história, quando tínhamos mais ou menos uns doze anos – era enorme. Entre outras coisas, ele era atlético e louro, morava no alto da rua Dom Pedro Segundo, reduto dos alemães abastados de Porto Alegre, estudava no Colégio Rosário, o mais caro da cidade, e estava aprendendo a tocar violino com um professor particular. Eu, ao contrário, era magrinho e tímido, morava na parte baixa da cidade, estudava numa escola pública e alimentava o sonho impossível de aprender a tocar piano.
Por falar nisso, nunca esqueço da primeira vez em que vi alguém tocando um solo de piano, quando aconteceu comigo uma espécie de epifania – pra usar uma palavra que está na moda e que pouca gente sabe exatamente o que significa. Eu devia ter uns cinco ou seis anos de idade. Minha mãe e eu subíamos a escadaria que divide a Galeria Chaves ao meio, quando comecei a ouvir um ruído que nunca tinha ouvido antes. Escapei de minha mãe e corri à sua frente tentando encontrar a origem daquele som fascinante. Dentro de uma loja de instrumentos musicais – situada à esquerda de quem sobe na direção da rua da Praia, quando a galeria se alarga - um pianista executava uma valsa que, anos mais tarde, descobri ser “Sobre as Ondas”. Agarrei firme a mão de minha mãe obrigando-a a permanecer comigo diante da grande vitrine, atrás da qual um homem, sentado diante de uma estranha caixa preta com uma tampa levantada, produzia um som que inundava o meu dia de brutal felicidade. Que magia seria aquela vibrando no ar com tanta beleza e me transportando pra não sei onde? Minhas pernas tremeram. Parecia que ia desmaiar, daquela mesma maneira que costumava desmaiar de fraqueza, sentado em jejum no banco da igreja, antes da comunhão dominical. Mas a emoção era inusitada, uma vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Naquele momento revelador tomei consciência de mim, descobri que eu existia, que eu era alguém com existência própria e independente de pai e mãe, que agora eu era apenas um menino, mas que mais tarde - era só ter paciência de esperar o tempo passar – eu seria um adulto livre o bastante pra poder realizar os meus sonhos, fossem eles quais fossem. Meu destino estava em minhas mãos, só dependia de mim mesmo.
Mas voltando ao meu primo, toda a vez que ia visitar a casa de meus tios eu era obrigado a ouvir-lo arranhando o seu violino em exercícios exasperantes, exatamente o oposto da inesquecível melodia da Galeria Chaves. Eu tinha a impressão de que ele estudava violino meio obrigado pela mãe, uma bela mulher de origem alemã com quem meu tio tinha feito um bom casamento. Então, toda a família reunida na sala, sem entender grande coisa, servia de auditório para meu primo exibir sua habilidade artística. Finda a audição, íamos brincar no quintal, onde ele finalmente se sentia à vontade pulando pelos galhos de uma árvore enorme como se fosse o Tarzã. Do chão, preocupado com os avisos paternos de que não subisse em árvore porque poderia quebrar o pescoço, eu apenas o observa cheio de admiração.
Tais visitas geralmente ocorriam aos domingos depois da missa, aonde tínhamos a obrigação de ir. À tarde, íamos assistir a matinê do cinema América, no Passo d’Areia, que cobrava a ninharia de um mil réis pelo ingresso e exibia dois filmes seguidos, além do episódio semanal do empolgante seriado “Marte Invade a Terra”.
Por essa época aconteceu um fato que me parece marcante. Nosso avô começou a insistir pra irmos visitá-lo num sitiozinho que ele tinha acabado de comprar fora da cidade, um pouco antes de Cachoeirinha. A idéia não me animava muito visto que o nosso avô fazia questão que chegássemos de manhã “bem cedinho a fim de aproveitar o dia”, conforme ele dizia. Já nessa época eu odiava acordar cedo e, tudo bem, tinha a sorte de estudar à tarde. Ao contrário, meu primo estudava de manhã no colégio dos padres e anda tinha o estranho hábito de acordar de madrugada pra fazer ginástica, que ele chamava de “calistênica”.
Vai daí que numa madrugada fria das férias de inverno, nós dois tomamos o primeiro ônibus na direção de Cachoeirinha. O campo começava logo depois do Sarandi e estava coberto pela colcha branca da geada que tinha caído durante a noite. A viagem, que hoje se faz em dez minutos pela via expressa que conduz ao litoral, durou quase uma hora pela estrada ruim. Acordei com meu primo me dando um tapa na cabeça e morrendo de rir. Saltamos do ônibus no ponto certo. O sol ameaçava surgir na linha do horizonte mas era encoberto por uma neblina tão espessa que mais parecia a fumaça de um incêndio. Não se via um palmo diante do nariz, mas era só seguir em linha reta pelo campo aberto que ia dar num morro, como nosso avô nos indicara. Mesmo sem nenhuma visão, começamos a andar cada vez mais depressa como se estivéssemos começando uma brincadeira, um jogo, uma disputa pra ver quem era o mais veloz de nós dois. “Eu sou o Roy Rogers, o rei do faroeste!”, gritou o meu primo no começo do morro, transformando-se em cavalo e cavaleiro ao mesmo tempo.
“E eu sou o Hopalong Cassidy!”, retruquei eu. E sem perda de tempo, saí em disparada meio que patinando na grama molhada pela geada. Apanhado de surpresa, meu primo ficou para trás. Mas logo ouvi ele gritando o meu nome desesperadamente. Achando que aquilo fazia parte do jogo, continuei correndo morro acima. De repente, no meio daquela neblina pastosa de filme de terror, senti uma garra apertando o meu braço e me impedindo de seguir em frente. Instintivamente tentei escapar. “Espera!”, berrou ele no meu ouvido.
Durante alguns segundos ficamos parados no meio do breu, diante do nada. Então, subitamente, o sol apareceu e iluminou o vale à nossa frente. Percebi então que estávamos parados à beira de um precipício que limitava o morro com um corte brutal. Mais um passo e eu teria caído no abismo e, agora, possivelmente não estaria aqui relatando a nossa história.
Premonição do meu primo diante do perigo iminente? Sei lá! Como o episódio nunca foi discutido por nós dois, nem naquele dia nem nunca, decidi naquela época que o meu primo tinha sido o meu anjo-da-guarda salvador, aquele das lições de catecismo que vela por nós nas horas de perigo.
Uns dez anos mais tarde eu estava morando no Rio de Janeiro, onde acabara de cursar o Conservatório Nacional de Música como bolsista. Um belo dia recebo um telegrama do meu primo me avisando que daria uma passada pelo Rio e que gostaria de se encontrar comigo. Fazia muitos anos que não nos víamos, mas eu sabia pela família que ele estava estudando num seminário franciscano em Divinópolis, interior de Minas Gerais.
Dia aprazado ele bate à minha porta, num apartamento conjugado que eu dividia com dois colegas do Conservatório. Eu tinha imaginado que, como bom seminarista, ele viria de batina e com aquela cara sofrida de são Francisco de Assis, tal como foi pintada por Portinari. Entretanto, ele surge à minha frente mais bronzeado de sol do que eu que vivia à beira-mar, usando uma surrada camiseta de meia branca, calça que parecia ser de pijama amarrada na cintura por um cordão e sandálias empoeiradas, essas sim franciscanas – um verdadeiro hippie, o que não deixava de estar na moda naquela época do “paz e amor”
“Cadê a batina?”, perguntei em tom de gozação.
“Deixei no seminário”, respondeu ele sorrindo. “Não sei se você sabe, mas a gente não é mais obrigado a usar batina o tempo todo. Os tempos são outros. Depois de João XXIII a Igreja mudou.”
Convidei-o pra tomar um chope na beira da praia e assim fomos trocando notícias até o final daquela bela tarde de verão com o sol se pondo lá pros lados do Posto Seis. Ele não tocava mais violino. Nem tinha certeza se poderia ter um violino consigo, já que o tal voto de pobreza dos franciscanos estabelecia que ninguém poderia possuir bens particulares. Lembrava-se da minha cara de enfado quando, menino, eu era obrigado a ouvir as audições em que ele maltratava o violino. Nunca imaginara que eu me interessasse pela música e muito menos que, um dia, eu fosse me meter a estudar piano.
Acabou me revelando o motivo de sua vinda ao Rio. “Amanhã embarco pra Alemanha. Veja só, vou estudar a história da religião católica em Frankfurt.”
“Mas precisa ir tão longe a fim de estudar essa história?” – brinquei. “Vamos até ali na igreja Nossa Senhora da Paz que o padre te conta tudinho.”
“A coisa é séria, meu amigo”, respondeu ele e, depois de verificar a mesa ao lado onde dois turistas argentinos cantavam uma mulata, me confidenciou em voz baixa: “Fui mandado pra Alemanha como uma espécie de punição. Acho que você não é tão alienado a ponto de não saber o que está acontecendo no país. Andei me envolvendo num movimento contra a ditadura lá em Minas, e os meus superiores resolveram me mandar embora. Eu acho que é censura, mas eles dizem que fazem isso com o objetivo de proteger a minha integridade física, porque os milicos já me deram umas porradas e continuam atrás de mim.”
Ao tomar conhecimento da ação subversiva do meu primo, achei que seria interessante ele me acompanhar numa visita que eu faria aquela noite. Acontece que a minha namorada morava com uma amiga em Botafogo e tinha me convidado pra jantar com elas. Avisei que talvez eu levasse comigo o meu primo seminarista, o que causou sensação nas hostes femininas: como seria aquela avis rara?
Tomamos um ônibus na Nossa Senhora de Copacabana e fui explicando ao meu primo a situação. Eu estava prestes a ficar noivo, de aliança no dedo como mandava o figurino, e pretendia me casar assim que desse. Isso porque eu tinha alguma convicção de que iria vencer o concurso pra pianista da Orquestra Sinfônica. Então algum dinheiro ia começar a entrar. Por outro lado, minha namorada tinha um emprego razoável, era assistente da colunista social do “Correio da Manhã”. Expliquei também que ela estava dando um tempo em Botafogo porque tenha entrado em desavença com a família, que pertencia ao ridículo café-soçaite carioca e que não aceitava o envolvimento dela com um artista morto de fome.
Mas quem eu achava mais interessante meu primo conhecer era a colega da minha noiva, a que dividia o apartamento com ela. Também jornalista, ela era casada com um professor que estivera preso como terrorista e que, agora, morava na Suécia, pois fora trocado por um embaixador seqüestrado. Ela próprio fizera parte do grupo de seqüestro, o que eu desconfiava mas não sabia com certeza naquela época.
Chegamos ao apartamento e fomos recebidos com festa pelas duas moças, que foram logo abrindo uma garrafa de vinho. “Vinho da missa em homenagem ao padre”, disseram elas.
Minha namorada era mais reservada, enquanto a outra era despachada e bem-falante – daquelas cariocas que têm voz bonita e que costumam falar alto, além do charme especial dos esses e erres. Figura típica da boemia da Zona Sul, espécie de musa da bossa nova e do cinema novo, ela provocou uma série de crônicas apaixonadas escritas por Carlinhos Oliveira no “Jornal do Brasil”; certo fim de noite, no Zepelim, o marido da musa encontrou o cronista completamente bêbado e, não conseguindo mais conter o ciúme, encheu-o de porradas. “Abaixo a ditadura!”, gritou o pobre do Carlinhos sendo socorrido pelos garçons.
Não duvido que ela amasse o marido, mas, com ele agora na Europa, acredito que eventualmente se envolvesse com outros homens pois não estava morta nem nada. E eu estava curioso pra ver se meu primo iria conseguir resistir àquela mulher sedutora. Com o vinho fazendo efeito, ela não se fez de rogada e começou a se jogar pra cima do meu primo. Como uma espécie de provocação, contou uma história que tinha acontecido com ela alguns anos atrás. Uma noite ela voltava de São Paulo de ônibus quando um homem usando batina ocupou a poltrona ao lado. ”O padre era jovem e bonito como você”, disse a sapeca encarando o meu primo. “E confesso que tentei seduzi-lo. Fiz que dormia e fui me encostando nele, primeiro o braço, depois a perna. O padre começou a rezar baixinho, mas não se esquivou de mim. Depois de um tempo, deu pra gemer num sussurro, parecia choramingar, coitado. Mas a coisa não passou disso, que pena! De manhã, quando chegamos ao Rio, ele saltou do ônibus e foi embora como se não houvesse acontecido nada. Se ele quisesse, poderia ter acontecido tudo.”
Devidamente alcoolizado, tanto quanto os outros três, fui sendo dominado por um certo espírito maligno: eu queria tirar a prova dos nove, queria descobrir enfim se aquela vocação do meu primo para o celibato era verdadeira.
Ele, no entanto, permaneceu incólume. Sempre elegante, foi se esquivando do assédio da moça. O tempo todo desviou o assunto para temas mais sérios, como a situação política do país, a censura, a guerrilha no Araguaia, a prisão dos dominicanos em São Paulo. As duas jornalistas, que na redação de seus jornais tinham acesso a informações censuradas, revelaram acontecimentos que espantaram meu primo. Ele acabou concordando que o mais seguro seria mesmo cair fora do país, antes que fosse torturado e morto.
Na madrugada quente do Rio, eu e meu primo fomos caminhando devagar até Copacabana. Logo no início da Barata Ribeiro, alguns caminhões do exército, ali estacionados, estrangulavam a metade da rua. Da outra calçada, meia dúzia de basbaques, certamente sem noção do que estava acontecendo, espiavam os soldados entrando e saindo do prédio em frente. Passamos direto como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, mas sabíamos que haviam “estourado um aparelho”, como se dizia na época. "Eu me sinto um merda”, desabafou o meu primo. “Me sinto um cachorro fugindo com o rabo entre as pernas!”
Mais adiante, sem que eu lhe perguntasse nada, me disse que sua vocação religiosa era coisa verdadeira. E que nós dois tínhamos a sorte de ter tido, em nossa família, uma sólida formação cristã. E isso – por mais que ocasionalmente nos afastássemos da Igreja – seria um fato fundamental em nossas vidas. Estávamos marcados pra sempre. Seríamos sempre pessoas do bem.
Antes de pegar o ônibus pra voltar ao convento onde estava hospedado, ele encerrou a conversa me recomendando que não deixasse de ler a filosofia cristã de Teilhard de Chardin e “Os Sete Pilares da Sabedoria”, de Thomas Merton. Não segui seu conselho. Por essa época eu estava encantado com a literatura nada edificante de Henry Miller.
Nosso próximo encontro – e que também foi o último – aconteceu recentemente. Quando eu soube que iria dar um concerto em Brasília, logo pensei em rever o meu primo, que residia lá, aposentado como professor da Universidade. Liguei diversas vezes pra Porto Alegre e, com grande dificuldade, finalmente consegui o telefone dele.
Pelas vagas informações que me chegaram através daqueles anos todos, ele tinha largado a batina no final dos anos oitenta. Depois foi dar aula na Universidade e acabou se casando com uma jovem aluna. Era só o que eu sabia.
Chegando ao Hotel Nacional por volta do meio-dia, a primeira coisa que fiz foi ligar pra ele. Atendeu uma voz de menina, eu me identifiquei e logo ouvi qualquer coisa como “Papai, o seu primo de São Paulo quer falar com você”. Esperei um tempão, até achei que não iria me atender, mas finalmente ele se manifestou dando uma desculpa qualquer pela demora. Não entendi porque ele tinha vacilado em conversar comigo. Talvez estivesse apenas se refazendo do espanto com o surgimento de um fantasma vindo lá das brumas do passado. “Quem atendeu foi a minha filha”, explicou. “A mais novinha. Tenho quatro.”
Imaginei que em seguida ele fosse me convidar pra ir até o seu apartamento tomar um café e conhecer sua família. Como o convite não veio, propus que nos encontrássemos naquela tarde à beira da piscina do hotel. Ele vacilou outra vez: deu uma pausa dizendo que ia consultar sua agenda. Acabou marcando nosso encontro para dentro de meia hora; o resto do dia estaria muito ocupado. “Vai ver” - pensei cá comigo – “quer se livrar logo de mim, que devo ser um chato de galocha querendo me enturmar com ele depois de tanto tempo.”
Fui aguardá-lo à beira da piscina debaixo de um inesperado céu nublado. Fiquei lá sozinho tomando a minha cerveja e pensando na vida, que não estava nada fácil. Alguns dias antes, depois de um bate-boca com minha mulher - a quinta de uma série -acabei batendo a porta e machucando a mão esquerda. Meu ortopedista tirou uma chapa e garantiu que estava tudo bem, mas a mão doía pra danar. Claro que eu iria me dar mal no concerto do dia seguinte, se minha mão não melhorasse.
Nisso percebi meu primo se aproximando. Seria mesmo ele? Parecia ter encolhido de tamanho, perdera o porte atlético, a barriga crescera, o cabelo ficara branco e escasso. Pensei com os meus botões que, aos seus olhos, eu também teria me tornado um caco, mas pelo menos meu cabelo continuava abundante e escuro – à custa de muita tintura, mas escuro.
Nossa conversa não engrenava, nossas lembranças familiares eram tristes, sua mãe estava internada num asilo com Alzheimer, quase todos os nossos parentes mais velhos, e mesmo alguns mais novos, já tinham morrido.
Comentei que ele tinha ficado muito parecido com o pai. Ele retrucou: “Você também. Estamos quites.”
Ousei perguntar por que tinha deixado de ser padre. “Te confesso que não sei direito”, respondeu ele lentamente, parecendo analisar suas razões. Pediu mais uma cerveja e acendeu um cigarro. Depois continuou: “Não sei se eu perdi a fé. Mas o fato é que depois de João XXIII a Igreja mudou muito, mudou até demais. Você não faz idéia do que aconteceu com a minha Ordem. Foi se transformando, sei lá. Virou um refúgio de homossexuais. Uma coisa absurda.
De repente as nuvens se esgarçaram e o sol começou a brilhar através do ar seco de Brasília. Algumas mesas próximas foram sendo ocupadas. Crianças se jogaram na piscina fazendo baderna e nos respingando de água. Meu primo chamou o garçom e pagou a conta. Antes que ele se fosse, convidei-o a assistir ao meu recital na noite seguinte. Que também levasse a família. Os convites estariam à sua disposição na bilheteria do teatro.
Ameaçou se despedir ali mesmo, mas fiz questão de acompanhá-lo até hall do hotel. No último instante, quando íamos nos afastando da piscina, cruzamos com uma bela loira que sorriu pra nós. Paramos e ficamos observando o que ia acontecer. À beira d’água, ela tirou a saída-de-praia e revelou um corpão bombado mal encoberto por um reduzido biquíni. Depois esticou a toalha no chão e se deitou de barriga pra baixo, exibindo ao sol o esplêndido bumbum.
“Puta merda, que mulherão!”, não se conteve o meu primo.
No fim das contas ele tinha se tornado um homem comum. Um homem de meia-idade comum. Exatamente assim como eu.
Não me surpreendeu ele não ter comparecido ao meu concerto na noite seguinte.
para Carlos Reichenbach Filho
Eu e meu primo temos mais ou menos a mesma idade e somos os primos mais velhos da minha família por parte de mãe. Entretanto, a diferença entre nós dois – pelo menos no início desta história, quando tínhamos mais ou menos uns doze anos – era enorme. Entre outras coisas, ele era atlético e louro, morava no alto da rua Dom Pedro Segundo, reduto dos alemães abastados de Porto Alegre, estudava no Colégio Rosário, o mais caro da cidade, e estava aprendendo a tocar violino com um professor particular. Eu, ao contrário, era magrinho e tímido, morava na parte baixa da cidade, estudava numa escola pública e alimentava o sonho impossível de aprender a tocar piano.
Por falar nisso, nunca esqueço da primeira vez em que vi alguém tocando um solo de piano, quando aconteceu comigo uma espécie de epifania – pra usar uma palavra que está na moda e que pouca gente sabe exatamente o que significa. Eu devia ter uns cinco ou seis anos de idade. Minha mãe e eu subíamos a escadaria que divide a Galeria Chaves ao meio, quando comecei a ouvir um ruído que nunca tinha ouvido antes. Escapei de minha mãe e corri à sua frente tentando encontrar a origem daquele som fascinante. Dentro de uma loja de instrumentos musicais – situada à esquerda de quem sobe na direção da rua da Praia, quando a galeria se alarga - um pianista executava uma valsa que, anos mais tarde, descobri ser “Sobre as Ondas”. Agarrei firme a mão de minha mãe obrigando-a a permanecer comigo diante da grande vitrine, atrás da qual um homem, sentado diante de uma estranha caixa preta com uma tampa levantada, produzia um som que inundava o meu dia de brutal felicidade. Que magia seria aquela vibrando no ar com tanta beleza e me transportando pra não sei onde? Minhas pernas tremeram. Parecia que ia desmaiar, daquela mesma maneira que costumava desmaiar de fraqueza, sentado em jejum no banco da igreja, antes da comunhão dominical. Mas a emoção era inusitada, uma vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Naquele momento revelador tomei consciência de mim, descobri que eu existia, que eu era alguém com existência própria e independente de pai e mãe, que agora eu era apenas um menino, mas que mais tarde - era só ter paciência de esperar o tempo passar – eu seria um adulto livre o bastante pra poder realizar os meus sonhos, fossem eles quais fossem. Meu destino estava em minhas mãos, só dependia de mim mesmo.
Mas voltando ao meu primo, toda a vez que ia visitar a casa de meus tios eu era obrigado a ouvir-lo arranhando o seu violino em exercícios exasperantes, exatamente o oposto da inesquecível melodia da Galeria Chaves. Eu tinha a impressão de que ele estudava violino meio obrigado pela mãe, uma bela mulher de origem alemã com quem meu tio tinha feito um bom casamento. Então, toda a família reunida na sala, sem entender grande coisa, servia de auditório para meu primo exibir sua habilidade artística. Finda a audição, íamos brincar no quintal, onde ele finalmente se sentia à vontade pulando pelos galhos de uma árvore enorme como se fosse o Tarzã. Do chão, preocupado com os avisos paternos de que não subisse em árvore porque poderia quebrar o pescoço, eu apenas o observa cheio de admiração.
Tais visitas geralmente ocorriam aos domingos depois da missa, aonde tínhamos a obrigação de ir. À tarde, íamos assistir a matinê do cinema América, no Passo d’Areia, que cobrava a ninharia de um mil réis pelo ingresso e exibia dois filmes seguidos, além do episódio semanal do empolgante seriado “Marte Invade a Terra”.
Por essa época aconteceu um fato que me parece marcante. Nosso avô começou a insistir pra irmos visitá-lo num sitiozinho que ele tinha acabado de comprar fora da cidade, um pouco antes de Cachoeirinha. A idéia não me animava muito visto que o nosso avô fazia questão que chegássemos de manhã “bem cedinho a fim de aproveitar o dia”, conforme ele dizia. Já nessa época eu odiava acordar cedo e, tudo bem, tinha a sorte de estudar à tarde. Ao contrário, meu primo estudava de manhã no colégio dos padres e anda tinha o estranho hábito de acordar de madrugada pra fazer ginástica, que ele chamava de “calistênica”.
Vai daí que numa madrugada fria das férias de inverno, nós dois tomamos o primeiro ônibus na direção de Cachoeirinha. O campo começava logo depois do Sarandi e estava coberto pela colcha branca da geada que tinha caído durante a noite. A viagem, que hoje se faz em dez minutos pela via expressa que conduz ao litoral, durou quase uma hora pela estrada ruim. Acordei com meu primo me dando um tapa na cabeça e morrendo de rir. Saltamos do ônibus no ponto certo. O sol ameaçava surgir na linha do horizonte mas era encoberto por uma neblina tão espessa que mais parecia a fumaça de um incêndio. Não se via um palmo diante do nariz, mas era só seguir em linha reta pelo campo aberto que ia dar num morro, como nosso avô nos indicara. Mesmo sem nenhuma visão, começamos a andar cada vez mais depressa como se estivéssemos começando uma brincadeira, um jogo, uma disputa pra ver quem era o mais veloz de nós dois. “Eu sou o Roy Rogers, o rei do faroeste!”, gritou o meu primo no começo do morro, transformando-se em cavalo e cavaleiro ao mesmo tempo.
“E eu sou o Hopalong Cassidy!”, retruquei eu. E sem perda de tempo, saí em disparada meio que patinando na grama molhada pela geada. Apanhado de surpresa, meu primo ficou para trás. Mas logo ouvi ele gritando o meu nome desesperadamente. Achando que aquilo fazia parte do jogo, continuei correndo morro acima. De repente, no meio daquela neblina pastosa de filme de terror, senti uma garra apertando o meu braço e me impedindo de seguir em frente. Instintivamente tentei escapar. “Espera!”, berrou ele no meu ouvido.
Durante alguns segundos ficamos parados no meio do breu, diante do nada. Então, subitamente, o sol apareceu e iluminou o vale à nossa frente. Percebi então que estávamos parados à beira de um precipício que limitava o morro com um corte brutal. Mais um passo e eu teria caído no abismo e, agora, possivelmente não estaria aqui relatando a nossa história.
Premonição do meu primo diante do perigo iminente? Sei lá! Como o episódio nunca foi discutido por nós dois, nem naquele dia nem nunca, decidi naquela época que o meu primo tinha sido o meu anjo-da-guarda salvador, aquele das lições de catecismo que vela por nós nas horas de perigo.
Uns dez anos mais tarde eu estava morando no Rio de Janeiro, onde acabara de cursar o Conservatório Nacional de Música como bolsista. Um belo dia recebo um telegrama do meu primo me avisando que daria uma passada pelo Rio e que gostaria de se encontrar comigo. Fazia muitos anos que não nos víamos, mas eu sabia pela família que ele estava estudando num seminário franciscano em Divinópolis, interior de Minas Gerais.
Dia aprazado ele bate à minha porta, num apartamento conjugado que eu dividia com dois colegas do Conservatório. Eu tinha imaginado que, como bom seminarista, ele viria de batina e com aquela cara sofrida de são Francisco de Assis, tal como foi pintada por Portinari. Entretanto, ele surge à minha frente mais bronzeado de sol do que eu que vivia à beira-mar, usando uma surrada camiseta de meia branca, calça que parecia ser de pijama amarrada na cintura por um cordão e sandálias empoeiradas, essas sim franciscanas – um verdadeiro hippie, o que não deixava de estar na moda naquela época do “paz e amor”
“Cadê a batina?”, perguntei em tom de gozação.
“Deixei no seminário”, respondeu ele sorrindo. “Não sei se você sabe, mas a gente não é mais obrigado a usar batina o tempo todo. Os tempos são outros. Depois de João XXIII a Igreja mudou.”
Convidei-o pra tomar um chope na beira da praia e assim fomos trocando notícias até o final daquela bela tarde de verão com o sol se pondo lá pros lados do Posto Seis. Ele não tocava mais violino. Nem tinha certeza se poderia ter um violino consigo, já que o tal voto de pobreza dos franciscanos estabelecia que ninguém poderia possuir bens particulares. Lembrava-se da minha cara de enfado quando, menino, eu era obrigado a ouvir as audições em que ele maltratava o violino. Nunca imaginara que eu me interessasse pela música e muito menos que, um dia, eu fosse me meter a estudar piano.
Acabou me revelando o motivo de sua vinda ao Rio. “Amanhã embarco pra Alemanha. Veja só, vou estudar a história da religião católica em Frankfurt.”
“Mas precisa ir tão longe a fim de estudar essa história?” – brinquei. “Vamos até ali na igreja Nossa Senhora da Paz que o padre te conta tudinho.”
“A coisa é séria, meu amigo”, respondeu ele e, depois de verificar a mesa ao lado onde dois turistas argentinos cantavam uma mulata, me confidenciou em voz baixa: “Fui mandado pra Alemanha como uma espécie de punição. Acho que você não é tão alienado a ponto de não saber o que está acontecendo no país. Andei me envolvendo num movimento contra a ditadura lá em Minas, e os meus superiores resolveram me mandar embora. Eu acho que é censura, mas eles dizem que fazem isso com o objetivo de proteger a minha integridade física, porque os milicos já me deram umas porradas e continuam atrás de mim.”
Ao tomar conhecimento da ação subversiva do meu primo, achei que seria interessante ele me acompanhar numa visita que eu faria aquela noite. Acontece que a minha namorada morava com uma amiga em Botafogo e tinha me convidado pra jantar com elas. Avisei que talvez eu levasse comigo o meu primo seminarista, o que causou sensação nas hostes femininas: como seria aquela avis rara?
Tomamos um ônibus na Nossa Senhora de Copacabana e fui explicando ao meu primo a situação. Eu estava prestes a ficar noivo, de aliança no dedo como mandava o figurino, e pretendia me casar assim que desse. Isso porque eu tinha alguma convicção de que iria vencer o concurso pra pianista da Orquestra Sinfônica. Então algum dinheiro ia começar a entrar. Por outro lado, minha namorada tinha um emprego razoável, era assistente da colunista social do “Correio da Manhã”. Expliquei também que ela estava dando um tempo em Botafogo porque tenha entrado em desavença com a família, que pertencia ao ridículo café-soçaite carioca e que não aceitava o envolvimento dela com um artista morto de fome.
Mas quem eu achava mais interessante meu primo conhecer era a colega da minha noiva, a que dividia o apartamento com ela. Também jornalista, ela era casada com um professor que estivera preso como terrorista e que, agora, morava na Suécia, pois fora trocado por um embaixador seqüestrado. Ela próprio fizera parte do grupo de seqüestro, o que eu desconfiava mas não sabia com certeza naquela época.
Chegamos ao apartamento e fomos recebidos com festa pelas duas moças, que foram logo abrindo uma garrafa de vinho. “Vinho da missa em homenagem ao padre”, disseram elas.
Minha namorada era mais reservada, enquanto a outra era despachada e bem-falante – daquelas cariocas que têm voz bonita e que costumam falar alto, além do charme especial dos esses e erres. Figura típica da boemia da Zona Sul, espécie de musa da bossa nova e do cinema novo, ela provocou uma série de crônicas apaixonadas escritas por Carlinhos Oliveira no “Jornal do Brasil”; certo fim de noite, no Zepelim, o marido da musa encontrou o cronista completamente bêbado e, não conseguindo mais conter o ciúme, encheu-o de porradas. “Abaixo a ditadura!”, gritou o pobre do Carlinhos sendo socorrido pelos garçons.
Não duvido que ela amasse o marido, mas, com ele agora na Europa, acredito que eventualmente se envolvesse com outros homens pois não estava morta nem nada. E eu estava curioso pra ver se meu primo iria conseguir resistir àquela mulher sedutora. Com o vinho fazendo efeito, ela não se fez de rogada e começou a se jogar pra cima do meu primo. Como uma espécie de provocação, contou uma história que tinha acontecido com ela alguns anos atrás. Uma noite ela voltava de São Paulo de ônibus quando um homem usando batina ocupou a poltrona ao lado. ”O padre era jovem e bonito como você”, disse a sapeca encarando o meu primo. “E confesso que tentei seduzi-lo. Fiz que dormia e fui me encostando nele, primeiro o braço, depois a perna. O padre começou a rezar baixinho, mas não se esquivou de mim. Depois de um tempo, deu pra gemer num sussurro, parecia choramingar, coitado. Mas a coisa não passou disso, que pena! De manhã, quando chegamos ao Rio, ele saltou do ônibus e foi embora como se não houvesse acontecido nada. Se ele quisesse, poderia ter acontecido tudo.”
Devidamente alcoolizado, tanto quanto os outros três, fui sendo dominado por um certo espírito maligno: eu queria tirar a prova dos nove, queria descobrir enfim se aquela vocação do meu primo para o celibato era verdadeira.
Ele, no entanto, permaneceu incólume. Sempre elegante, foi se esquivando do assédio da moça. O tempo todo desviou o assunto para temas mais sérios, como a situação política do país, a censura, a guerrilha no Araguaia, a prisão dos dominicanos em São Paulo. As duas jornalistas, que na redação de seus jornais tinham acesso a informações censuradas, revelaram acontecimentos que espantaram meu primo. Ele acabou concordando que o mais seguro seria mesmo cair fora do país, antes que fosse torturado e morto.
Na madrugada quente do Rio, eu e meu primo fomos caminhando devagar até Copacabana. Logo no início da Barata Ribeiro, alguns caminhões do exército, ali estacionados, estrangulavam a metade da rua. Da outra calçada, meia dúzia de basbaques, certamente sem noção do que estava acontecendo, espiavam os soldados entrando e saindo do prédio em frente. Passamos direto como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, mas sabíamos que haviam “estourado um aparelho”, como se dizia na época. "Eu me sinto um merda”, desabafou o meu primo. “Me sinto um cachorro fugindo com o rabo entre as pernas!”
Mais adiante, sem que eu lhe perguntasse nada, me disse que sua vocação religiosa era coisa verdadeira. E que nós dois tínhamos a sorte de ter tido, em nossa família, uma sólida formação cristã. E isso – por mais que ocasionalmente nos afastássemos da Igreja – seria um fato fundamental em nossas vidas. Estávamos marcados pra sempre. Seríamos sempre pessoas do bem.
Antes de pegar o ônibus pra voltar ao convento onde estava hospedado, ele encerrou a conversa me recomendando que não deixasse de ler a filosofia cristã de Teilhard de Chardin e “Os Sete Pilares da Sabedoria”, de Thomas Merton. Não segui seu conselho. Por essa época eu estava encantado com a literatura nada edificante de Henry Miller.
Nosso próximo encontro – e que também foi o último – aconteceu recentemente. Quando eu soube que iria dar um concerto em Brasília, logo pensei em rever o meu primo, que residia lá, aposentado como professor da Universidade. Liguei diversas vezes pra Porto Alegre e, com grande dificuldade, finalmente consegui o telefone dele.
Pelas vagas informações que me chegaram através daqueles anos todos, ele tinha largado a batina no final dos anos oitenta. Depois foi dar aula na Universidade e acabou se casando com uma jovem aluna. Era só o que eu sabia.
Chegando ao Hotel Nacional por volta do meio-dia, a primeira coisa que fiz foi ligar pra ele. Atendeu uma voz de menina, eu me identifiquei e logo ouvi qualquer coisa como “Papai, o seu primo de São Paulo quer falar com você”. Esperei um tempão, até achei que não iria me atender, mas finalmente ele se manifestou dando uma desculpa qualquer pela demora. Não entendi porque ele tinha vacilado em conversar comigo. Talvez estivesse apenas se refazendo do espanto com o surgimento de um fantasma vindo lá das brumas do passado. “Quem atendeu foi a minha filha”, explicou. “A mais novinha. Tenho quatro.”
Imaginei que em seguida ele fosse me convidar pra ir até o seu apartamento tomar um café e conhecer sua família. Como o convite não veio, propus que nos encontrássemos naquela tarde à beira da piscina do hotel. Ele vacilou outra vez: deu uma pausa dizendo que ia consultar sua agenda. Acabou marcando nosso encontro para dentro de meia hora; o resto do dia estaria muito ocupado. “Vai ver” - pensei cá comigo – “quer se livrar logo de mim, que devo ser um chato de galocha querendo me enturmar com ele depois de tanto tempo.”
Fui aguardá-lo à beira da piscina debaixo de um inesperado céu nublado. Fiquei lá sozinho tomando a minha cerveja e pensando na vida, que não estava nada fácil. Alguns dias antes, depois de um bate-boca com minha mulher - a quinta de uma série -acabei batendo a porta e machucando a mão esquerda. Meu ortopedista tirou uma chapa e garantiu que estava tudo bem, mas a mão doía pra danar. Claro que eu iria me dar mal no concerto do dia seguinte, se minha mão não melhorasse.
Nisso percebi meu primo se aproximando. Seria mesmo ele? Parecia ter encolhido de tamanho, perdera o porte atlético, a barriga crescera, o cabelo ficara branco e escasso. Pensei com os meus botões que, aos seus olhos, eu também teria me tornado um caco, mas pelo menos meu cabelo continuava abundante e escuro – à custa de muita tintura, mas escuro.
Nossa conversa não engrenava, nossas lembranças familiares eram tristes, sua mãe estava internada num asilo com Alzheimer, quase todos os nossos parentes mais velhos, e mesmo alguns mais novos, já tinham morrido.
Comentei que ele tinha ficado muito parecido com o pai. Ele retrucou: “Você também. Estamos quites.”
Ousei perguntar por que tinha deixado de ser padre. “Te confesso que não sei direito”, respondeu ele lentamente, parecendo analisar suas razões. Pediu mais uma cerveja e acendeu um cigarro. Depois continuou: “Não sei se eu perdi a fé. Mas o fato é que depois de João XXIII a Igreja mudou muito, mudou até demais. Você não faz idéia do que aconteceu com a minha Ordem. Foi se transformando, sei lá. Virou um refúgio de homossexuais. Uma coisa absurda.
De repente as nuvens se esgarçaram e o sol começou a brilhar através do ar seco de Brasília. Algumas mesas próximas foram sendo ocupadas. Crianças se jogaram na piscina fazendo baderna e nos respingando de água. Meu primo chamou o garçom e pagou a conta. Antes que ele se fosse, convidei-o a assistir ao meu recital na noite seguinte. Que também levasse a família. Os convites estariam à sua disposição na bilheteria do teatro.
Ameaçou se despedir ali mesmo, mas fiz questão de acompanhá-lo até hall do hotel. No último instante, quando íamos nos afastando da piscina, cruzamos com uma bela loira que sorriu pra nós. Paramos e ficamos observando o que ia acontecer. À beira d’água, ela tirou a saída-de-praia e revelou um corpão bombado mal encoberto por um reduzido biquíni. Depois esticou a toalha no chão e se deitou de barriga pra baixo, exibindo ao sol o esplêndido bumbum.
“Puta merda, que mulherão!”, não se conteve o meu primo.
No fim das contas ele tinha se tornado um homem comum. Um homem de meia-idade comum. Exatamente assim como eu.
Não me surpreendeu ele não ter comparecido ao meu concerto na noite seguinte.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
CONTO(2)
VISITANTE
Não tenho a mínima idéia de quem é esse homem. Sei apenas que é um perfeito cavalheiro, sempre elegante com seu terno e gravata, os sapatos pretos muito bem engraxados. Percebo este detalhe porque, ao sentar-se na poltrona, ele cruza as pernas e mantém suspenso no ar o pé direito como se fosse um belo pássaro negro e reluzente.
Não se trata de uma invasão, porque ele age de maneira muito educada. Mas certas noites, nas raras vezes em que a família está toda reunida, depois do jantar e da novela, ele entra pela porta do nosso apartamento, caminha pelo corredor, entra na sala, senta-se sempre no mesmo lugar e fica vendo televisão. Não pede licença, não dá boa-noite, não diz uma palavra. Mas, apesar disso, sua presença me traz uma espécie de tranquilidade, como se fosse ele, e não eu, o dono da casa, o responsável por alguma coisa que não sei bem o que é. Ele nada diz e nada lhe é perguntado. Tanto nós quanto ele agimos com a maior naturalidade nessa hora de perfeita convivência.
Trata-se de um homem sério, de mais ou menos uns sessenta anos. Pelo modo como se veste e se comporta, deve ser um burocrata bem sucedido, um diretor de banco, um alto executivo, um chefe de repartição, que sei eu? Às vezes, quando a noite é mais quente, ele toma a liberdade de afrouxar a gravata e tirar o paletó, revelando assim um discreto par de suspensórios, daqueles de antigamente, quando eles combinavam com o cinto.
O mais estranho é que ele não me lembra ninguém que eu tenha visto ou conhecido em toda a minha vida, nem pai, nem parente, nem vizinho, nem artista de cinema ou televisão. Mas, apesar disso, é como se eu o conhecesse desde que nasci.
Ele é apenas uma testemunha silenciosa do que se desenrola ali na sala, quando a família se reúne e contamos uns aos outros o que nos aconteceu naquele dia, o que é quase sempre a mesma coisa. Quando surge um fato surpreendente, ele não aparenta nenhuma emoção, apenas fecha os olhos por alguns momentos e descansa em sua poltrona preferida, que por um acaso é a minha preferida também quando ele não está.
A primeira vez que notei sua presença em nosso apartamento, faz muitos anos, foi numa pequena reunião familiar, possivelmente alguma festa de aniversário não lembro de quem. Achei então que ele tivesse vindo acompanhando algum parente ou amigo da família, apesar dele ter se mantido isolado na sua (minha) poltrona a noite toda sem se relacionar com ninguém. Em dado momento, o nosso gato angorá, sempre tão arisco, aproximou-se dele miando e tranquilamente subiu ao seu colo. Com toda a delicadeza deste mundo, ele repôs o bichinho no chão, que, acredito, sentindo-se rejeitado foi embora da sala pra nunca mais voltar, sendo que na manhã seguinte foi encontrado morto, caído lá no andar térreo.
Depois dessa primeira noite, ele tem vindo sempre mesmo sem ser convidado. Mas a verdade é que, com seu jeito discreto e natural, ele nos cativou profundamente, a ponto de eu temer o dia em que ele deixar de nos visitar. Aí espero que ninguém se jogue pela janela.
Tarde da noite, quando já estamos todos meio sonolentos, ele se levanta e vai embora. Na porta da rua, ele vira-se meio de perfil e dá um boa-noite geral quase imperceptível, um simples murmúrio, que mal consigo ouvir e que mais adivinho porque mal posso vê-lo do sofá onde estou derreado. Hora de dormir.
Não tenho a mínima idéia de quem é esse homem. Sei apenas que é um perfeito cavalheiro, sempre elegante com seu terno e gravata, os sapatos pretos muito bem engraxados. Percebo este detalhe porque, ao sentar-se na poltrona, ele cruza as pernas e mantém suspenso no ar o pé direito como se fosse um belo pássaro negro e reluzente.
Não se trata de uma invasão, porque ele age de maneira muito educada. Mas certas noites, nas raras vezes em que a família está toda reunida, depois do jantar e da novela, ele entra pela porta do nosso apartamento, caminha pelo corredor, entra na sala, senta-se sempre no mesmo lugar e fica vendo televisão. Não pede licença, não dá boa-noite, não diz uma palavra. Mas, apesar disso, sua presença me traz uma espécie de tranquilidade, como se fosse ele, e não eu, o dono da casa, o responsável por alguma coisa que não sei bem o que é. Ele nada diz e nada lhe é perguntado. Tanto nós quanto ele agimos com a maior naturalidade nessa hora de perfeita convivência.
Trata-se de um homem sério, de mais ou menos uns sessenta anos. Pelo modo como se veste e se comporta, deve ser um burocrata bem sucedido, um diretor de banco, um alto executivo, um chefe de repartição, que sei eu? Às vezes, quando a noite é mais quente, ele toma a liberdade de afrouxar a gravata e tirar o paletó, revelando assim um discreto par de suspensórios, daqueles de antigamente, quando eles combinavam com o cinto.
O mais estranho é que ele não me lembra ninguém que eu tenha visto ou conhecido em toda a minha vida, nem pai, nem parente, nem vizinho, nem artista de cinema ou televisão. Mas, apesar disso, é como se eu o conhecesse desde que nasci.
Ele é apenas uma testemunha silenciosa do que se desenrola ali na sala, quando a família se reúne e contamos uns aos outros o que nos aconteceu naquele dia, o que é quase sempre a mesma coisa. Quando surge um fato surpreendente, ele não aparenta nenhuma emoção, apenas fecha os olhos por alguns momentos e descansa em sua poltrona preferida, que por um acaso é a minha preferida também quando ele não está.
A primeira vez que notei sua presença em nosso apartamento, faz muitos anos, foi numa pequena reunião familiar, possivelmente alguma festa de aniversário não lembro de quem. Achei então que ele tivesse vindo acompanhando algum parente ou amigo da família, apesar dele ter se mantido isolado na sua (minha) poltrona a noite toda sem se relacionar com ninguém. Em dado momento, o nosso gato angorá, sempre tão arisco, aproximou-se dele miando e tranquilamente subiu ao seu colo. Com toda a delicadeza deste mundo, ele repôs o bichinho no chão, que, acredito, sentindo-se rejeitado foi embora da sala pra nunca mais voltar, sendo que na manhã seguinte foi encontrado morto, caído lá no andar térreo.
Depois dessa primeira noite, ele tem vindo sempre mesmo sem ser convidado. Mas a verdade é que, com seu jeito discreto e natural, ele nos cativou profundamente, a ponto de eu temer o dia em que ele deixar de nos visitar. Aí espero que ninguém se jogue pela janela.
Tarde da noite, quando já estamos todos meio sonolentos, ele se levanta e vai embora. Na porta da rua, ele vira-se meio de perfil e dá um boa-noite geral quase imperceptível, um simples murmúrio, que mal consigo ouvir e que mais adivinho porque mal posso vê-lo do sofá onde estou derreado. Hora de dormir.
terça-feira, 7 de julho de 2009
CONTO (1)
OLHO POR OLHO
Foi numa sexta-feira chuvosa de inverno, no início dos anos oitenta, época em que ainda não havia detector de metais nas portas dos bancos - e esse detalhe é fundamental para a credibilidade da história que está sendo contada.
Nessa noite ele entrou numa casa de samba em Pinheiros, acomodou-se numa banqueta junto ao balcão e pediu ao barman um uísque com gelo. Ele tinha sido amigo de infância do gerente e por isso tinha o costume de frequentar a casa. Não era exatamente um boêmio, mas como só trabalhava à tarde – como segurança numa empresa de transporte de valores - às vezes ia procurar o amigo a fim de bater papo, ouvir música, beber alguns uísques de graça e, principalmente, arranjar companhia feminina. Observou o ambiente e logo percebeu que a situação não era nada propícia ao seu habitual objetivo: nessa noite gelada havia pouca gente e muito mais homem que mulher. Seu consolo foi ficar ali escutando Lupicínio Rodrigues na voz poderosa da grande atração da casa, um negrão de quase dois metros de altura chamado Geraldão, que apresentava-se sozinho solando o seu violão.
Perguntou do amigo gerente a um garçom e foi informado de que ele não viria trabalhar porque estava de cama por conta de um forte resfriado. “Resfriado coisa nenhuma”, interveio o barman. “De vez em quando ele vem com essa conversa. Deve tá com alguma mulher. Mas quem pode, pode. Se eu der uma dessa, perco o emprego.” Ele apenas sorriu porque sabia que seu amigo, apesar de homem sério, era um tremendo mulherengo. Nisso eles se pareciam e talvez por isso se dessem tão bem.
Nesse momento dois ou três rapazes e uma moça aproximaram-se do balcão às gargalhadas, já bem calibrados. Geraldão, lá do seu poleiro diante do microfone, começou a se impacientar com a algazarra que cada vez mais prejudicava sua atuação. Pavio curto, ele costumava partir pra cima dos bêbados que extrapolavam em atrapalhar sua performance. De repente ele não conseguiu mais se conter e esbravejou no microfone: “A noite é uma merda! Ninguém respeita o artista.” Dito isso, botou o violão nas costas e, dirigindo-se para o banheiro, sentenciou: “Vou mijar.”
Logo depois foi a vez do barman perder as estribeiras, acusando os rapazes e a moça de terem se apossado de uma garrafa de uísque que estava sobre o balcão. Como a casa não tinha leão de chácara, o barman convocou a meia dúzia de garçons para expulsar os bagunceiros. Geraldão não se fez de rogado e veio junto “Deixa comigo!”, disse ele. “Eu resolvo sozinho essa parada!” Logo abriu os braços como se fossem os tentáculos de um polvo, envolveu o grupelho e o arrastou para a rua.
Meia hora mais tarde e três uísques pendurados, que depois seu amigo gerente iria aliviar, ele saiu da casa de samba. A noite não ia render nada mesmo, o negócio era ir pra casa dormir. Foi andando todo encarangado debaixo da garoinha miúda e fria.
Quando ia abrindo a porta do carro, sentiu-se agarrado por uma gangue violenta. A moça gritava histericamente: “É ele! É o gerente! É ele mesmo!” “Que gerente nada! Eu sou freguês! Sou freguês como vocês!”, defendia-se ele, tentando se soltar dos rapazes. “Filho da puta!”, rugia a moça. “Você é o gerente! Tava lá no balcão e denunciou a gente!” E não adiantou ele jurar por tudo o que era mais sagrado que não era o gerente, porque os três rapazes desceram-lhe o cacete. Enquanto dois o seguravam pelos braços, o terceiro enchia-o de socos e pontapés. E a moça açulando: “Bate! Bate mais!” Apertado contra o carro, completamente imobilizado, sentiu seu olho direito estourar. Nisso a luz de um poste incidiu sobre o rosto do rapaz que batia e, com a visão do olho que ainda lhe restava, pode registrar, como se fosse um flash fotográfico, as feições do maldito agressor: devia ter uns vinte e poucos anos, olhos azuis e o nariz arrebitado. Seu corpo amoleceu e ele parou de se debater. Julgando que a vítima estivesse entregue, os algozes o soltaram. Num salto inesperado, ele saltou para o meio da rua e correu. Os outros quatro, ainda não satisfeitos, vieram-lhe atrás.
Na esquina havia um botequim ainda aberto e ele o invadiu em busca de refúgio. O dono do bar e alguns pinguços que estavam por ali não esboçaram nenhuma reação quando ele apanhou uma faca de cozinha que estava sobre o balcão. Já os quatro agressores, ao verem a faca apontada na sua direção, não ousaram entrar no bar. Ficaram na porta ameaçando e dizendo palavrão. O rapaz de nariz arrebitado catou uma pedra da calçada e ameaçou atirar em cima dele. “Se acertar o vagabundo, tudo bem!”, avisou o português. “Mas se quebrar um copo aqui dentro, vai ter pra vocês!” Aí eles desistiram e foram embora dizendo que iriam “arrebentar com o carro desse gerente filho da puta”.
“Se eles queriam te pegar é porque alguma coisa você fez”, comentou o português. “Vai ver, tu tá devendo, malandro!”, emendou um pinguço.
Só estava enxergando de um olho e precisava de ajuda. Era evidente que, naquele botequim infecto, ninguém iria socorrê-lo. Portanto, depois de se certificar de que, lá no meio do quarteirão, a gangue concentrava-se em depredar o seu carro, correu de volta à casa de samba. Mal explicou ao pessoal o que tinha acontecido, suas pernas bambearam e ele desmaiou.
No dia seguinte, já sabendo que tinha perdido o olho direito, recebeu a visita de Geraldão no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas.
“Já vi que o teu problema é sério”, comentou o negrão. “Como é que você, cego de um olho, vai voltar a trabalhar como segurança “Boa pergunta!”, respondeu ele. “Ainda bem que você é um sujeito sossegado. Fosse comigo, ia atrás daqueles putos e mandava bala.” “Como ir atrás se nem sei quem são eles?” “Mas eu sei!”, concluiu Geraldão, chegando ao ponto que interessava: “Um sujeito que tava lá na casa ontem à noite me contou que conhece eles. Trabalham numa agência do Banco do Brasil na Vila Mariana. Esses bancários de merda enchem os cornos e sempre aprontam no final de semana.”
Segunda-feira, logo depois do meio-dia, ele saiu do hospital e foi até a sua empresa. Sem que ninguém visse, apanhou sua arma de serviço e se dirigiu à tal agência do Banco do Brasil. Com o olho que lhe restava examinou o ambiente. Filas enormes de gente querendo acertar suas despesas do final de semana. Uma jovem funcionária, rápida e eficiente, se aproximava da mesa do gerente e lhe entregava uma pasta de documentos. Poderia ser a vagabunda gritona da noite de sexta, mas não teve certeza. Caminhou na direção dos caixas e lá estava, atrás de um guichê, o canalha de olhos azuis e nariz arrebitado. Ele não teve dúvidas, furou a fila, afastou delicadamente uma velhinha que estava sendo atendida e sapecou um tiro no olho azul direito do caixa.
Foi numa sexta-feira chuvosa de inverno, no início dos anos oitenta, época em que ainda não havia detector de metais nas portas dos bancos - e esse detalhe é fundamental para a credibilidade da história que está sendo contada.
Nessa noite ele entrou numa casa de samba em Pinheiros, acomodou-se numa banqueta junto ao balcão e pediu ao barman um uísque com gelo. Ele tinha sido amigo de infância do gerente e por isso tinha o costume de frequentar a casa. Não era exatamente um boêmio, mas como só trabalhava à tarde – como segurança numa empresa de transporte de valores - às vezes ia procurar o amigo a fim de bater papo, ouvir música, beber alguns uísques de graça e, principalmente, arranjar companhia feminina. Observou o ambiente e logo percebeu que a situação não era nada propícia ao seu habitual objetivo: nessa noite gelada havia pouca gente e muito mais homem que mulher. Seu consolo foi ficar ali escutando Lupicínio Rodrigues na voz poderosa da grande atração da casa, um negrão de quase dois metros de altura chamado Geraldão, que apresentava-se sozinho solando o seu violão.
Perguntou do amigo gerente a um garçom e foi informado de que ele não viria trabalhar porque estava de cama por conta de um forte resfriado. “Resfriado coisa nenhuma”, interveio o barman. “De vez em quando ele vem com essa conversa. Deve tá com alguma mulher. Mas quem pode, pode. Se eu der uma dessa, perco o emprego.” Ele apenas sorriu porque sabia que seu amigo, apesar de homem sério, era um tremendo mulherengo. Nisso eles se pareciam e talvez por isso se dessem tão bem.
Nesse momento dois ou três rapazes e uma moça aproximaram-se do balcão às gargalhadas, já bem calibrados. Geraldão, lá do seu poleiro diante do microfone, começou a se impacientar com a algazarra que cada vez mais prejudicava sua atuação. Pavio curto, ele costumava partir pra cima dos bêbados que extrapolavam em atrapalhar sua performance. De repente ele não conseguiu mais se conter e esbravejou no microfone: “A noite é uma merda! Ninguém respeita o artista.” Dito isso, botou o violão nas costas e, dirigindo-se para o banheiro, sentenciou: “Vou mijar.”
Logo depois foi a vez do barman perder as estribeiras, acusando os rapazes e a moça de terem se apossado de uma garrafa de uísque que estava sobre o balcão. Como a casa não tinha leão de chácara, o barman convocou a meia dúzia de garçons para expulsar os bagunceiros. Geraldão não se fez de rogado e veio junto “Deixa comigo!”, disse ele. “Eu resolvo sozinho essa parada!” Logo abriu os braços como se fossem os tentáculos de um polvo, envolveu o grupelho e o arrastou para a rua.
Meia hora mais tarde e três uísques pendurados, que depois seu amigo gerente iria aliviar, ele saiu da casa de samba. A noite não ia render nada mesmo, o negócio era ir pra casa dormir. Foi andando todo encarangado debaixo da garoinha miúda e fria.
Quando ia abrindo a porta do carro, sentiu-se agarrado por uma gangue violenta. A moça gritava histericamente: “É ele! É o gerente! É ele mesmo!” “Que gerente nada! Eu sou freguês! Sou freguês como vocês!”, defendia-se ele, tentando se soltar dos rapazes. “Filho da puta!”, rugia a moça. “Você é o gerente! Tava lá no balcão e denunciou a gente!” E não adiantou ele jurar por tudo o que era mais sagrado que não era o gerente, porque os três rapazes desceram-lhe o cacete. Enquanto dois o seguravam pelos braços, o terceiro enchia-o de socos e pontapés. E a moça açulando: “Bate! Bate mais!” Apertado contra o carro, completamente imobilizado, sentiu seu olho direito estourar. Nisso a luz de um poste incidiu sobre o rosto do rapaz que batia e, com a visão do olho que ainda lhe restava, pode registrar, como se fosse um flash fotográfico, as feições do maldito agressor: devia ter uns vinte e poucos anos, olhos azuis e o nariz arrebitado. Seu corpo amoleceu e ele parou de se debater. Julgando que a vítima estivesse entregue, os algozes o soltaram. Num salto inesperado, ele saltou para o meio da rua e correu. Os outros quatro, ainda não satisfeitos, vieram-lhe atrás.
Na esquina havia um botequim ainda aberto e ele o invadiu em busca de refúgio. O dono do bar e alguns pinguços que estavam por ali não esboçaram nenhuma reação quando ele apanhou uma faca de cozinha que estava sobre o balcão. Já os quatro agressores, ao verem a faca apontada na sua direção, não ousaram entrar no bar. Ficaram na porta ameaçando e dizendo palavrão. O rapaz de nariz arrebitado catou uma pedra da calçada e ameaçou atirar em cima dele. “Se acertar o vagabundo, tudo bem!”, avisou o português. “Mas se quebrar um copo aqui dentro, vai ter pra vocês!” Aí eles desistiram e foram embora dizendo que iriam “arrebentar com o carro desse gerente filho da puta”.
“Se eles queriam te pegar é porque alguma coisa você fez”, comentou o português. “Vai ver, tu tá devendo, malandro!”, emendou um pinguço.
Só estava enxergando de um olho e precisava de ajuda. Era evidente que, naquele botequim infecto, ninguém iria socorrê-lo. Portanto, depois de se certificar de que, lá no meio do quarteirão, a gangue concentrava-se em depredar o seu carro, correu de volta à casa de samba. Mal explicou ao pessoal o que tinha acontecido, suas pernas bambearam e ele desmaiou.
No dia seguinte, já sabendo que tinha perdido o olho direito, recebeu a visita de Geraldão no Pronto Socorro do Hospital das Clínicas.
“Já vi que o teu problema é sério”, comentou o negrão. “Como é que você, cego de um olho, vai voltar a trabalhar como segurança “Boa pergunta!”, respondeu ele. “Ainda bem que você é um sujeito sossegado. Fosse comigo, ia atrás daqueles putos e mandava bala.” “Como ir atrás se nem sei quem são eles?” “Mas eu sei!”, concluiu Geraldão, chegando ao ponto que interessava: “Um sujeito que tava lá na casa ontem à noite me contou que conhece eles. Trabalham numa agência do Banco do Brasil na Vila Mariana. Esses bancários de merda enchem os cornos e sempre aprontam no final de semana.”
Segunda-feira, logo depois do meio-dia, ele saiu do hospital e foi até a sua empresa. Sem que ninguém visse, apanhou sua arma de serviço e se dirigiu à tal agência do Banco do Brasil. Com o olho que lhe restava examinou o ambiente. Filas enormes de gente querendo acertar suas despesas do final de semana. Uma jovem funcionária, rápida e eficiente, se aproximava da mesa do gerente e lhe entregava uma pasta de documentos. Poderia ser a vagabunda gritona da noite de sexta, mas não teve certeza. Caminhou na direção dos caixas e lá estava, atrás de um guichê, o canalha de olhos azuis e nariz arrebitado. Ele não teve dúvidas, furou a fila, afastou delicadamente uma velhinha que estava sendo atendida e sapecou um tiro no olho azul direito do caixa.
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