domingo, 22 de agosto de 2010

O FIGURANTE

“Desejar a imortalidade é desejar a eterna perpetuação de um grande erro.”
Schopenhauer


No dia anterior, a produção do filme tinha me avisado que, finalmente, iríamos rodar a sequência do cemitério, que ainda faltava para a conclusão da filmagem. A dificuldade tinha sido conseguir autorização oficial de algum cemitério da cidade pra que um bando de atores, técnicos e figurantes perturbassem o sono eterno dos que “já fizeram a passagem”, como diz um amigo meu. O cemitério seria em Perus, na Grande São Paulo.
Outro problema a ser solucionado tinha sido a questão do tempo. O diretor do filme queria um enterro debaixo de chuva, pois sabia que toda a cena de enterro que se preze tem que ter chuva e guarda-chuva. Como o serviço de meteorologia estava prevendo um dia de sol, a produção fez um grande esforço e conseguiu a promessa do corpo de bombeiros de Perus de enviar uma guarnição para produzir uma chuva artificial.
Portanto, aí pelas oito horas da manhã seguinte, uma Kombi entrou pela rua principal do cemitério trazendo a mim e mais meia dúzia de atores que participariam da filmagem. Fomos descarregados junto a um jazigo de mármore cuja imponência contrastava com a humildade dos demais túmulos, alguns apenas cobertos de terra. Toda a sequência deveria ser rodada ao redor desse túmulo majestoso guarnecido por um enorme anjo de asas abertas.
Perto dali, uns trinta figurantes já nos aguardavam, vestindo os seus melhores trajes, já que a produção paupérrima não lhes fornecia o figurino. E o enterro tinha de ser chique: o falecido era um velho industrial riquíssimo que deixava uma grande fortuna que iria ser disputada pelos herdeiros. Meu personagem era o de um safardana casado com uma filha do morto.
Nesse primeiro momento, olhamos aquela infinidade de túmulos com enorme respeito, com aquele ar compungido que sempre temos diante da morte. Em situações como essa, somos praticamente obrigados a fazer uma reflexão sobre a nossa curta existência e o nosso fim. Percebi isso ao observar o comportamento da velha atriz que interpretava a viúva do industrial: ela se benzeu e murmurou uma rápida oração. Devia estar pensando em sua própria morte, o que de fato ocorreu alguns meses depois, antes mesmo do filme entrar em exibição. Ela tinha sido uma grande estrela no início da Tevê Tupi e agora, melancolicamente, estava encerrando sua carreira como coadjuvante numa pornochanchada da Boca do Lixo.
Daí a pouco, o caminhão de bombeiros chegou e apenas ficou por ali de sobreaviso, pois o tempo tinha mudado, começava garoar. Os cinco ou seis bombeiros ficaram sentados sobre o caminhão observando com curiosidade a atividade da equipe de filmagem. O tenente de meia idade que comandava a guarnição aproximou-se da velha atriz e pediu um autógrafo: “Pra minha mãe, que é sua fã”, explicou ele.
Pouco depois começamos a ensaiar a primeira tomada. A laje que cobria a cova tinha sido retirada, para que o caixão baixasse sob as nossas vistas. Nós, atores, fomos colocados diante da câmera, o caixão em primeiro plano, enquanto que a figuração foi convocada para se posicionar às nossas costas. Quando o grupo de figurantes se aproximou, o diretor do filme – um sujeito de maus bofes e extremamente ferino – avaliou a indigência do que tinha para realizar sua grande obra, e comentou: “Mas olha só os amigos que o finado tinha!”
Mas um determinado figurante chamava a atenção. Magro e alto, bem vestido num terno elegante, foi colocado pelo assistente de direção justamente atrás de mim e da bela atriz que interpretava minha mulher. Na hora de rodar a cena, olhei para trás e percebi que ele sabia se posicionar muito bem ali, como um profissional, um autêntico “papagaio de pirata”. O que estaria fazendo ali, no meio daquela bugrada, um sujeito tão fino, com pinta de executivo bem sucedido?
Câmera rodando, no meio da cena, “minha mulher” deu um grito, interrompendo a filmagem. “Um filho da puta passou a mão na minha bunda!”, disse ela.
Fulo da vida, o diretor olhou para o nosso figurante e vociferou: “Mais respeito, cara! É por isso que o cinema nacional não vai pra frente... Tô de olho em você! Como é o seu nome?”
“Robério de Souza, um seu criado”, respondeu o sujeito com a cara mais inocente deste mundo.
“Só te mantenho no filme porque você é o único desses figurantes de merda que tem panca de rico! Se não, te mandava pra puta que o pariu!”, explodiu o diretor.
“Obrigado por não me despedir, senhor”, agradeceu o figurante fazendo uma elegante reverência. “Muito obrigado por me deixar realizar o sonho da minha vida, que é ser ator de cinema que nem o Rodolfo Valentino.”
Surpreendido por uma resposta tão gentil e sem saber quem era Rodolfo Valentino – talvez algum jovem galã da Tevê Globo? – o diretor se desarmou e encerrou o assunto: “Então bola pra frente! Vamo rodá!”
A partir daí, o trabalhou transcorreu normalmente. As pessoas foram se descontraindo e até esquecendo de que estavam num cemitério. Passou o cortejo de um enterro com acompanhantes chorando e o pessoal do filme não tomou conhecimento: continuaram falando alto e às gargalhadas, como se estivessem num botequim. A velha atriz contava para a maquiadora um episódio interessante que acontecera com ela na noite em que a Tevê Tupi foi ao ar pela primeira vez: o manda-chuva da emissora tinha passado a mão na bunda dela, exatamente como acabou de acontecer. De repente, um ator que deveria participar da próxima tomada desapareceu; o assistente de direção saiu a sua procura e foi encontrá-lo atrás de um túmulo em intimidades com um bombeiro. Na hora do almoço, comemos nossas “quentinhas” sentados sobre os túmulos, tão à vontade como se estivéssemos no restaurante Gigetto. Que falta de respeito!
Certo momento, vi o tal Robério de Souza se aproximar da “minha mulher” e conversar com ela. Logo depois ela me explicou: “O sujeito veio me pedir desculpas. Disse que não conseguiu resistir porque minha bunda é muito bonita. Olha só que cara de pau!”
No final da tarde, tínhamos acabado de rodar o filme. Antes de me dirigir a Kombi, que já manobrava para nos trazer de volta a São Paulo, me bateu a curiosidade de saber quem era o ocupante do túmulo que nos servira de cenário. Fiquei pasmo! O mármore estampava uma pequena foto esmaltada do nosso figurante, além do nome Robério de Souza, datas de nascimento e morte, e as palavras de praxe, “descanse em paz” etc.
Não gosto e nem tenho o hábito de me ver na tela, mas fiz questão de assistir o filme quando ele foi exibido alguns meses mais tarde. Robério de Souza não aparece na sequência do cemitério como meu “papagaio de pirata”. Sumiu.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O DUBLADOR

“Se um cego guiar outro cego, os dois cairão num buraco.”
Evangelho segundo s. Mateus, cap.5, v.14


Era só Abelardinho e a mãe neste mundo, morando no apartamento quarto-sala conjugado do edifício 200 da Barata Ribeiro, o mais famoso “balança” do Rio de Janeiro no final da década de 60.
Primeiro, ele viera sozinho do sertão cearense. Depois de três anos de luta pela sobrevivência, trouxera a mãe, já quase cega naquela époc a, o sol inclemente da seca lhe queimara as retinas.
Lá na cidadezinha do sertão, Abelardinho tinha visto alguns filmes da Atlântida e ficara fã de José Lewgoy. Achava o máximo a voz e o bigode do famoso vilão do cinema nacional. Anselmo Duarte e Cyll Farney não lhe diziam nada, muito menos Eliana ou Fada Santoro. Daí nasceu sua vontade de se tornar ator de cinema. Sendo assim, “pegou um ita no norte e veio pro Rio morar”, seguindo o exemplo de Dorival Caymi.
Agora trabalhava como atendente no Banco Nacional em Copacabana, perto de casa. Nas horas vagas corria atrás da carreira artística, no cinema, no teatro e na televisão. Mas não conseguia penetrar naquele universo maravilhoso, talvez por causa da cara feia e do corpo desajeitado, como ele mesmo acreditava. Na verdade, era um sujeito despreparado, com uma visão ingênua do que seria a profissão de ator.
Acontece que no 200 também morava um artista famoso – famoso no prédio, pelo menos -, Eduardo Del Dongo, que atuava nos teleteatros da Tevê Tupi, além de ser dublador de filmes estrangeiros. Um dia Abelardinho cruzou com ele no elevador do prédio e logo se enturmou. Penalizado com a situação do vizinho aspirante a ator, Del Dongo resolveu apresentá-lo ao estúdio de dublagem em que trabalhava. E Abelardinho começou por onde todo o dublador começa: fazendo o que se chama de “vozerio”, aquelas vozes anônimas de um grupo de personagens falando ao mesmo tempo.
A seu favor, Abelardinho tinha uma voz muito grave e bonita. E foi perdendo o forte sotaque nordestino por causa dos exercícios vocais que Del Dongo lhe passava.
Durante uma dessas aulas, aconteceu um episódio interessante. Estavam no apartamento de Del Dongo e Abelardinho pediu licença pra ir até o banheiro. Como o aluno demorasse algum tempo a voltar à lição, o professor resolveu verificar o que estava acontecendo. Empurrou a porta do banheiro e flagrou Abelardinho, muito concentrado, cheirando uma cueca samba-canção que ele, Del Dongo, tinha acabado de usar. “Nada do que é humano me choca”, pensou Del Dongo, lembrando-se de uma frase que Cacilda Becker dissera recentemente numa peça de Tennessee Williams. Por isso, fechou a porta do banheiro discretamente e fez que não tinha visto nada de extraordinário.
Uma nova série, que estava fazendo um grande sucesso nos Estados Unidos, ia ser lançada na Tevê Globo. O protagonista era um policial machão que dava porrada e falava grosso. Depois de alguns testes, a empresa dubladora escolheu Abelardinho para dublar o ator americano. Este trabalho fixo rendia um cachê razoável e, então, Abelardinho aproveitou a oportunidade pra largar o banco e se dedicar inteiramente à carreira artística.
Agora sua mãe, bem acabadinha, já estava completamente cega. Diante desse fato, Abelardinho decidiu dar uma alegria à velha, anunciando que iria estrelar uma novela da Globo. Sem enxergar as imagens, apenas ouvindo a voz do filho, a ilusão maternal foi perfeita. Durante as três temporados do seriado, a velhinha cega viveu em plena felicidade com o sucesso do filho global.
Quando o seriado foi suspenso, devido a uma greve de dubladores que se estendeu por meses, Abelardinho entrou em pânico. Mas, nisso, a velhinha morreu repentinamente. “Pelo menos, morreu feliz”, pensou Abelardinho.
No 200, correu o boato de que ele tinha estrangulado a mãe.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Emprego

Escrevi este esquete a pedido de uma atriz. Ela o recusou porque o considerou pesado demais, cruel, com um humor politicamente incorreto. Concordo com ela.

PATRÃO, TIPO EXECUTIVO, MUITO EDUCADO E FORMAL, SENTADO DIANTE DE SUA MESA, LIGA O INTERFONE.
PATRÃO: Dona Teresinha, faça o favor de mandar entrar as candidatas. Quantas são? (............) Mais de cinqüenta?! Meu Deus! Faça uma coisa melhor, dona Teresinha. Tem alguma gorda aí? Uma gorda bem gorda? (.................) Faça o seguinte: mande entrar a mais gorducha e dispense o resto. (...............) Isso mesmo. Obrigado.
ENTRA UMA MULHER GORDA, DE UNS TRINTA ANOS, CARREGANDO UM PORTFÓLIO.
MULHER: Com licença...
PATRÃO: Entre, senhorita... (ELA VAI SE SENTAR, MAS ELE INTERVÉM.) Por favor, fique de pé um instante. Eu gostaria de verificar cuidadosamente o seu visual.
MULHER: Tudo bem, doutor, mas não deixa de ser uma coisa estranha. Porque eu não vim me candidatar a um emprego de modelo. Se bem que o anúncio do jornal era meio misterioso e não especificasse o tipo de trabalho. Em todo o caso, espero que o senhor goste do meu estilo. Tá certo que eu to meio cheinha: exagerei nos doces nesse último fim de semana. Mas se eu fizer uma dietazinha, em uma semana fico magrinha-magrinha. Mas também não posso exagerar, se não vai dar a impressão de que sou anoréxica... e eu não quero que as pessoas fiquem me olhando com olhar de piedade, como se eu estivesse morrendo de inanição por não ter o que comer. Porque eu tenho o que comer e como. E como como!
PATRÃO: Percebe-se.
MULHER: (DEPOIS DE FAZER UM PIVÔ) Então? Gostou?
PATRÃO: Muito. Pra mim, tá perfeito.
MULHER: Que bom!
PATRÃO: Por favor, sente-se. (ELA SENTA, COLOCANDO SEU PORTFÓLIO SOBRE A MESA.) É o seu currículo?
MULHER: Meu portfólio, como dizem as modelos. Deixa eu lhe mostrar as minhas fotos. Olha só que material interessante! Essa aqui sou eu e os meus cachorros.
PATRÃO: Quanto cachorro! A senhorita mora num canil?
MULHER: Imagina, doutor! Sou eu trabalhando. Foi um dos meus empregos. Eu era passeadora de cachorro.
PATRÃO: Passeadora de cachorro?!
MULHER: Exatamente. Este aqui é o Bobby, o meu preferido. Veja só que gracinha! Vivia me lambendo.
PATRÃO: O quê?!
MULHER: Lambendo a minha perna! Não seja malicioso, doutor.
PATRÃO: Desculpe... E por que deixou o emprego? Foi despedida?
MULHER: Não, eu deixei porque quis. Olha esse cachorrão aqui, o Manfredo. O maldito Manfredo! Um dia ele me arrastou ladeira abaixo e eu saí rolando feito uma bola. Me estrumbiquei toda! Fui parar no hospital! Depois dessa, adeus cachorrada! (MOSTRA OUTRA PÁGINA.) Aqui sou eu comendo um Big Mac, quando trabalhei de atendente no Mac Donald’s.
PATRÃO: E saiu do emprego por quê?
MULHER: Devo confessar que fui mandada embora. Cometi alguns erros. Eu mandava ver! Não conseguia resistir àquelas porções de batata frita, àqueles milk shakes de chocolate, àquelas tortas de banana, hum, que delícia!, já to com água na boca... (VIRA OUTRA PÁGINA.) Este aqui foi o meu último emprego...
PATRÃO: (INTERROMPENDO-A) Tudo bem, senhorita, não precisa mostrar mais nada. O emprego é seu.
MULHER: Que maravilha! E qual vai ser exatamente a minha função?
PATRÃO: Não se preocupe, é fácil. Pra senhorita, é fácil.
MULHER: Claro! Pra mim, todas as funções de uma secretária são fáceis. Sei falar inglês, francês, italiano, espanhol... e até japonês! Qué vê só? “Akira Kurosawa, Toshiro Mifune, Tatsuia Nakadai.” Ah! E tô fazendo um cursinho rápido de chinês, porque, como o senhor sabe, os chineses vão dominar o mundo. E também sou especialista em taquigrafia, computação e Xerox.
PATRÃO: A senhorita não vai precisar de nada disso, relaxe. Mas, com todo esse preparo, como é que até hoje a senhorita não arranjou um emprego melhor, como secretária bilíngüe, sei lá?
MULHER: Vai me dizer que o senhor não sabe? Não se faça de inocente. Patrão só admite secretária tipo modelo: magra e burra. O que não é o meu caso, como o senhor pode verificar... Mas o senhor me mata de curiosidade! Afinal, o que é que eu vou fazer?
PATRÃO: A senhorita vai exercer a função de... digamos assim... a função de rolha de poço.
MULHER: Nossa! Nunca ouvi falar desse cargo. O que é isso?
PATRÃO: Eu já explico. Tudo quanto é pepino da empresa desaba em cima mim. O dia inteiro entra aqui na minha sala um bando de gente inconveniente. É cliente fazendo reclamação, funcionário pedindo aumento, minha ex-mulher cobrando pensão, marido corno querendo me dar porrada. E muita gente de teatro pedindo apoio cultural! A senhorita vai barrar esses chatos.
MULHER: De que jeito, doutor?
PATRÃO: Facinho ! A senhorita vai bancar a rolha de poço. Quando aqueles pentelhos quiserem forçar a entrada... sim, porque eles são ousados e não respeitam nem os seguranças... nesse caso, a senhorita se coloca bem ali no vão da porta. Fica ali paradinha. Não precisa dizer nem fazer nada. Sua presença... e somente ela... vai impedir a entrada dos energúmenos. Entendeu?
MULHER: Entendi, doutor, agora entendi.
PATRÃO: E então? Aceita o emprego?
MULHER: Aceito, doutor...
PATRÃO: Que ótimo!
MULHER: ... mas com uma condição. Antes o senhor deve me responder uma pergunta.
PATRÃO: Pois não, pergunte.
MULHER: A senhora sua mãe é gordinha, não é?
PATRÃO: É, sim. Como é que a senhorita sabe disso?
MULHER: É uma coisa natural: com uma certa idade, as mulheres costumam engordar. Problemas hormonais, com o senhor deve saber. Mas o que eu quero lhe sugerir é o seguinte: (LEVANTANDO-SE DA CADEIRA) Por que o senhor não pega a sua mãezinha querida e bota ela ali na porta pra servir de rolha de poço?! (E SAI DA SALA PISANDO DURO.)
PATRÃO: (CONSIGO MESMO) Que gordinha mais mal-agradecida! Ganha um emprego sem precisar fazer o teste do sofá... e ainda fica fazendo doce! (LIGA O INTERFONE.) Dona Teresinha, sobrou alguma gorda por aí? (...............) Sei, foram todas embora... Então faça o seguinte: descubra onde os “gordos anônimos” se reúnem, pegue a fulana mais gorducha, ofereça-lhe uma feijoada do “Bolinha” e me traga aqui. Como disse o Albert Camus, “depois de uma feijoada, a peste!” (E DESLIGA O INTERFONE, ENCERRANDO-SE O QUADRO.)

domingo, 16 de maio de 2010

LOUCO

“A diferença entre um louco e eu é que eu não sou louco.”
Salvador Dali


Eu (me) convenceria como louco
se tivesse a coragem de sair
num belo dia de sol
com um guarda-chuva aberto
todo roto.
Enquanto isso não faço,
mantenho o máximo recato:
escolho com cuidado
a cor do cinto
combinando com
a cor do sapato.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

ABEL E FANNY

Para meu amigo Wagner Vaz, ator carioca, vizinho e fã de Fada Santoro.

“Benvólio: Ai de mim! Que o amor, tão gentil na aparência, tenha que ser tão cruel e tirano na prova!”
“Romeu e Julieta”, Shakespeare.


Foi no Rio de Janeiro, nos anos sessenta.
Se Abel - que interpretava Romeu - já estava arrasado porque a temporada de “Romeu e Julieta” acabava naquele domingo, mais arrasado ficou ainda quando percebeu que Fanny – a sua Julieta - tinha ido embora do teatro sem se despedir dele. Mas, de certa forma, isso não o surpreendeu: já estava acostumado com o estranho comportamento da garota por quem estava apaixonado.
Abel e Fanny faziam parte do grupo teatral da “Sociedade Literária Israelita Brasileira Baruch Spinoza”. Além dos jovens judeus que eram sócios da entidade, o grupo de teatro admitia atores semiprofissionais não judeus – ou “góis”, como eram chamados. No elenco de uns vinte atores, pelo menos a metade não eram judeus – sendo que um, inclusive, era de origem árabe, o que demonstrava claramente a face liberal da “Sociedade Spinoza”. Mas nem tão liberal assim, como veremos.
A experiência teatral anterior de Abel se resumia em duas peças infantis, em que interpretara, pateticamente, um coelho numa e um príncipe na outra. Tenso e nervoso, na estréia do espetáculo em que tentava representar o príncipe encantando, soltou um sonoro pum na cena de amor com a princesa e ficou rubro de vergonha: a platéia infantil morreu de rir. Mas isso não o traumatizou. Como sua secreta ambição era a de se tornar um novo Adriano Reys , ele não desistiu do seu sonho.
Maior que sua ambição era a sua timidez: em estado de pânico , apresentou-se para teste com o diretor de “Romeu e Julieta” - um velho judeu refugiado de guerra que se vangloriava de ter sido assistente de direção em filmes de Ernst Lubitsch e Fritz Lang, mas que, segundo as más línguas, tinha sido apenas um simples açougueiro em sua terra natal.
“Abel? O assassino de Caim?”, perguntou o diretor. “Você é judeu?”
“Eu sou mineiro”, respondeu o rapaz. “Abel é apelido e nome artístico. Meu nome é Abelardo.”
“Ótimo!”, comentou o diretor. “Julieta judia e Romeu “gói” dá samba. Eu preferia um Romeu negro, mas não tem ator negro neste país, só o Grande Otelo. Nesse caso, vai você mesmo, meu filho.”
Lá no fundo do coração todo o jovem ator sonha em interpretar Romeu, e Abel não fugia à regra. Mas, agora que o sonho estava prestes a se realizar, baixou a insegurança e o medo de ser mandado embora logo no primeiro dia de ensaio.
Naquela noite ele não conseguiu dormir direito de tão nervoso. E no dia seguinte, ao meio-dia, quando devia ficar no lugar do pai na portaria do edifício enquanto o velho ia almoçar, trancou-se no banheiro vítima de uma diarréia monumental. Se soubesse a causa do transtorno intestinal do filho, o pai teria dado bronca: no seu entendimento “teatro era coisa de veado”, como sempre dizia.
Abel e Fanny tinham vinte anos de idade, e a atração física que um sentiu pelo outro foi imediata, situação favorecida pelo amor trágico que envolve os protagonistas da peça e pelo processo de ensaio proposto pelo diretor. Com o pretexto de que a relação entre Romeu e Julieta deveria ser aprofundada, o velho diretor mandava o resto do elenco sair da sala durante as cenas do casal, e determinava exercícios de improvisação e contato físico, um tipo de preparação do ator que ainda não tinha se tornado coisa comum em nosso teatro. Durante esses ensaios privados, Samuel – que liderava o grupo teatral – ficava espionando pelo buraco da fechadura e, certa vez, pego em flagrante por um colega judeu, confidenciou-lhe:
“Nosso diretor deve ser mesmo um vigarista. Fica provocando os dois pombinhos, botando fogo na fogueira. Vai ver, o tarado se excita vendo sacanagem alheia.”
“Parece que você também!”, ironizou o colega.
A verdade era que Samuel já andava desconfiado das esquisitices do diretor desde o dia em que o encontrara sentado num banco da praia de Copacabana. O velho falava em ídiche consigo mesmo e apontava a mão para o céu fazendo estranhos sinais. Quando Samuel lhe perguntou o que era aquilo, ele respondeu que estava tentando derrubar um avião da Panair com gestos mágicos.
Os ensaios – que duraram meses devido à inexperiência do elenco e à dificuldade do texto – aconteciam na sede da “Sociedade Spinoza”, um prédio escuro na Cinelândia, com salas cheias de livros empoeirados, escritos em línguas que Abel desconhecia. Numa das saletas, alguns rapazes judeus costumavam jogar xadrez, coisa que Abel nunca tinha visto antes. Às vezes, ele ficava ao lado observando aquele jogo bizarro, sem se atrever a jogá-lo mesmo quando convidado. Tinha medo de perder feio e de se sentir humilhado pela inteligência daqueles rapazes, todos cursando a universidade, enquanto ele se considerava um ignorante que nem conseguira acabar o ginásio.
Além dos exercícios diante do diretor, Abel e Fanny aproveitavam todo e qualquer momento em que estivessem sozinhos para se atracarem aos beijos e abraços, cheios de sofreguidão e desespero. No fundo da sala de ensaio, havia uma coluna atrás da qual se agarravam como dois animais no cio. Mas, na frente dos outros, comportavam-se como simples colegas de ofício. Nunca tinham discutido o assunto, esse ou qualquer outro: quase não se falavam. Mas parecia haver um acordo mútuo de que ninguém deveria saber que havia alguma coisa entre os dois. Ele, que nunca tivera uma namorada firme, agia dessa forma por timidez, desconfiado de que ela fazia o mesmo porque não quisesse que seus amigos judeus soubessem do seu envolvimento com um “gói” que, pior ainda, não tinha onde cair morto.
Por ser secreta, a paixão que Abel sentia por Fanny aumentava a cada ensaio. Essa emoção verdadeira fez com que ele descobrisse sua alma de ator, depois de sua ingênua experiência em peças infantis. Jogando-se de corpo e alma no seu personagem, ele sentia finalmente a alegria e o prazer de representar. Agora não tinha mais dúvida de que era a essa a profissão que iria seguir pelo resto de sua vida, entendendo o que a grande atriz Dulcina de Moraes quisera dizer quando dissera: “Representar em cima de um palco é melhor que trepar.”
Fanny era filha única de um velho casal de judeus ortodoxos. Aos dezessete anos, para se livrar da opressão familiar, ela conseguiu que o pai a mandasse para Israel, onde foi morar num kibutz. Menina rica, sentia-se feliz capinando no deserto, distante do tédio que tinha sido a sua vida no Brasil. Um ano depois, estava servindo ao exército como soldada e se exercitando com uma metralhadora, sob a ameaça constante de uma eventual guerra contra os árabes.Nas areias de uma praia de Haifa, numa noite de verão, fez amor pela primeira vez com um colega de farda. Logo ficou grávida e, como não quisesse se casar com o colega, deu uma de louca e foi enviada de volta ao Brasil. Sem que ninguém soubesse, se submeteu a um aborto. E meses depois, sem ter nada o que fazer, resolveu experimentar ser atriz em “Romeu e Julieta”. Os pais não gostaram muito, mas acabaram concordando com a inesperada idéia da filha, pois, afinal, tratava-se de um grupo de teatro judeu. Consideravam a filha meio desequilibrada e, quem sabe, talvez ela encontrasse ali na “Sociedade Spinoza” um bom rapaz judeu com quem pudesse se casar.
Às vésperas da estréia - com os ensaios já acontecendo num clube israelita situado nas Laranjeiras, onde o espetáculo iria ser inicialmente apresentado - Abel percebeu que o chofer particular que quase sempre conduzia Fanny não aguardava por ela na saída. Então ele a seguiu pela rua na direção do Largo do Machado, acreditando que não estava sendo notado. No entanto, ao parar um táxi, Fanny voltou-se para trás e convidou Abel a entrar com ela no carro. Logo estavam se beijando loucamente. Até que o motorista resmungou qualquer coisa e o casal foi obrigado a se controlar. Certo momento, para sua surpresa, Abel entendeu que Fanny estava propondo que passassem a noite num hotel. Ele já estava pedindo ao motorista que se dirigisse para o Catete, quando Fanny corrigiu:
“Não esta noite, mas uma outra noite!”
Ela não era boba. Estava em período fértil e só iria dormir com o Romeu às vésperas de ficar menstruada. Gato escaldado tem medo de água fria. Pílula anticoncepcional ela também não iria tomar porque podia dar câncer. Camisinha podia furar. Dali uma semana seria o momento ideal.
“Quando o nosso dia chegar, vamos tomar um trem na Central do Brasil e passar a noite em algum hotelzinho do Méier ou do Encantado”, decretou Fanny.
Abel achou meio absurda a proposta de pegaram trem na Central. Seria muito mais fácil se hospedarem em algum hotel do Catete. Mas Fanny expusera o plano com tanta determinação que Abel achou melhor não dizer nada: não quis correr o risco de perder o que já tinha ganho.
Nisso, o táxi já estava chegando na Avenida Atlântica e os dois se separaram: Fanny seguiu para o Leme, enquanto Abel foi andando nas nuvens pelo calçadão de Copacabana.
E assim foi que no domingo que se seguiu à estréia da peça, na cena final em que Julieta se suicida sobre o cadáver de Romeu, Fanny sussurrou para Abel: “É hoje.”
Ao chegarem à Central do Brasil, ela disse que queria ter uma conversa séria com ele e o puxou pela mão até a mesa de um botequim infecto. Depois de entornar uma caipirinha, ela explicou:
“Vou te contar uma história que ninguém sabe. Na verdade, eu não sou filha daquele casal de velhos. Ou melhor, sou filha adotada. Antes, eles tiveram duas filhas que morreram num campo de concentração. E depois não puderam ter mais filhos. Não sei direito, mas parece que ele foi capado pelos nazistas. Então eles resolveram adotar uma criança abandonada, que era eu. Tenho uma lembrança muito vaga de quando eu tinha três ou quatro anos. Junto com minha mãe eu ficava mendigando numa escadaria junto a uma estação de trem. Outro dia eu vi na televisão umas imagens da estação do Encantado, acho que é lá que a gente ficava. Me lembro da passarela sobre os trilhos, do barulho do trem, do povão andando pra lá e pra cá. Quero descer nas estações e ver se reconheço o lugar. Do meu nome eu não me lembro, mas minha mãe era chamada de Joana Cu.”
Naquela noite eles tomaram um trem quase vazio e ficaram abraçados, em silêncio, vendo passar as imagens de um Rio de Janeiro que não se vê em cartão-postal e que eles desconheciam. Saltaram no Encantado, mas Fanny não reconheceu o lugar onde fora criança. Já era mais de meia-noite e resolveram entrar num hotelzinho vagabundo perto da estação. Não conseguiram dormir. O desejo de um pelo outro sobrepujava tanto o sono quanto o sangue da menstruação, que empapou o lençol puído e o colchão furado.
Manhã cedo, prosseguiram a viagem na direção da Baixada Fluminense, mas à medida que o trem foi se aproximando da estação seguinte, que era Piedade, Fanny apertou com força a mão de Abel e o puxou pra fora do vagão. Em cima da passarela que atravessava os trilhos, ela parou e se debruçou na amurada: reconheceu, lá embaixo, o bar onde comia pão com manteiga e, mais adiante, a marquise onde dormia. Uma multidão caminhava apressada pela passarela de um lado para o outro e, de repente, Fanny teve a impressão de que iria dar de cara com a mãe. Depois de tanto tempo, ela ainda estaria viva? Ou teria morrido antes dela ter sido adotada?
Essa foi a única vez que fizeram amor. Mas alguns meses depois, numa excursão que fizeram a Belo Horizonte para uma única apresentação do espetáculo, sentaram-se juntos no ônibus. Durante a noite, enquanto todos dormiam, eles ficaram se tocando com a mesma paixão de sempre. E Fanny acabou limpando nos cabelos as mãos cheias do amor de Abel.
Agora, no último dia da apresentação da peça, no Teatro Maison de France, Fanny tinha ido embora sem ao menos se despedir. Abel tomou um ônibus para Copacabana e se dirigiu ao “Max”, um barzinho estreito e comprido situado na praia, debaixo da Galeria Alaska, onde algumas vezes o pessoal do grupo costumava se reunir. Talvez Fanny tivesse ido para lá. Dito e feito. Lá estava ela, numa mesa de fundo, junto com um fotógrafo americano. Em outras ocasiões - o grupo reunido em duas ou três mesas - o tal americano ficara ciscando ao redor de Fanny, conversando com ela em inglês, despertando assim um ciúme feroz em Abel. O diabo da timidez impediu que Abel entrasse no bar e se aproximasse da mesa onde o casal conversava animadamente. Parado na calçada como um idiota, diante do bar superlotado, ele tentou chamar a atenção da moça. Será que ela não via, ou fazia que não via, os seus gestos desesperados? Depois de um tempo, saiu de dentro do bar um sujeito grandalhão, meio alcoolizado, que se dirigiu a Abel de maneira agressiva:
“O que tá havendo, camarada? Tá vendendo droga?” Em seguida, o sujeito exibiu uma carteirinha identificando-se como detetive da policia e concluiu: “Vamos lá na Delegacia! Você vai ter que se explicar!”
Cada vez mais assustado, Abel tentou se justificar, mas o policial agarrou-o pelo braço e –suprema humilhação! - o conduziu através da Galeria Alaska até a 13ª Delegacia, ali perto, do outro lado da Avenida Nossa Senhora de Copacabana.
Diante de um grande tabuleiro de xadrez, o delegado de plantão – que logo se tornaria um famoso escritor - estava entretido em jogar uma partida consigo mesmo. O detetive aproximou-se trazendo Abel e foi logo dizendo sem a menor cerimônia:
“Doutor, peguei este marginal em atitude suspeita, vendendo droga lá na praia.”
O delegado continuou olhando as peças de xadrez durante algum tempo. Depois encarou o detetive com desagrado e disse:
“Miguelão, você tá bêbado.” Finalmente olhou para o aterrorizado Abel, perguntando:
“E você, rapaz, sabe jogar xadrez?”
Abel mal conseguiu balançar a cabeça sinalizando que sim.
“Qual é o lance que você daria se estivesse jogando com as pretas?”, perguntou o delegado.
Abel examinou o jogo, e depois apanhou um cavalo preto, pulou duas casas à esquerda e uma em frente, abatendo um peão branco. Então o delegado decretou:
“Vá pra casa curar o seu porre, Miguelão. E você também pode ir embora, rapaz. Marginal não sabe jogar xadrez.”
Abel voltou depressa ao “Max”, mas Fanny não estava mais lá. Depois desse dia, ela desapareceu, e os dois só foram se encontrar mais uma vez uns trinta anos mais tarde.

Abel estava fazendo um filme em São Paulo. Determinada sequência deveria ser filmada nos jardins de uma elegante mansão, onde aconteceria uma festa noturna com dezenas de figurantes. A equipe de produção acabou conseguindo uma propriedade no Morumbi, com a condição de que a filmagem durasse só uma noite, que se usasse apenas o jardim e que ninguém entrasse na casa.
Lá pela meia-noite, depois de duas ou três cenas rodadas, entrou pela alameda principal um carrão importado, de onde saiu um casal. Abel e o diretor do filme, que ensaiavam a próxima cena, foram interrompidos pela aproximação do casal que se apresentou como proprietários da mansão. Abel logo reconheceu Fanny, agora uma cinquentona elegante e ainda bela. Como sempre, comportaram-se como dois estranhos. O marido dela, um italianão simpático, fez questão de dizer que estava feliz por colaborar com o cinema nacional. E Fanny comentou que, muitos anos atrás, tinha tido uma experiência teatral fazendo o papel de Julieta.
“Agora, se retornasse ao teatro, gostaria de interpretar a maluca Lady Macbeth”, concluiu sorrindo.
Depois o casal se retirou, e Abel pensou consigo mesmo que, mesmo não sendo tão velho, talvez já estivesse em condições de encarnar o amargo Rei Lear.

sexta-feira, 26 de março de 2010

AS CURVAS DA ESTRADA DE SANTOS

“Se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer.
Entre no meu carro da Estrada de Santos e você vai me conhecer.”
Roberto e Erasmo Carlos
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Claro que o planejado fora ir para o Guarujá pela Rodovia dos Imigrantes, mas depois da reta do pedágio policiais rodoviários fechavam a estrada, obrigando Antônio a desviar para a direita na direção da Anchieta. A viagem, que prometera ser tranqüila, trazia essa pequena surpresa desagradável: a série de curvas perigosas à beira de precipícios.
“Seria melhor não ter vindo”, pensou Antônio com os seus botões, sem externar seu arrependimento à moça que o acompanhava e que tanto insistira na viagem. Bem feito! Como concedera em agradá-la, agora era obrigado a enfrentar esse contratempo.
Dono de uma conhecida agência de publicidade, Antônio estivera supervisionando a filmagem de um comercial até o início da noite daquele sábado, quando o ideal teria sido viajar na sexta-feira e assim aproveitar todo o fim de semana no apartamento do Guarujá.
Já era a quarta ou quinta vez que ele fazia essa viagem com a moça e, por isso, ela estava tendo a impressão de que estavam namorando pra valer. Ele, nem tanto. Cioso de sua liberdade, sempre desconfiava que as jovens modelos que o assediavam quisessem fazer carreira às suas custas. A moça que agora o agora o acompanhava tinha exatamente esse perfil, no entendimento de Antônio.
Na saída de São Paulo, conversaram sobre o assunto do dia: a descoberta do pré-sal e o progresso que o investimento econômico iria trazer para a Baixada Santista. Depois a conversa derivou para a violência que tinha tomado conta do Guarujá. Ele comentou que a cidade estava cada vez mais cercada de favelas, mas que o problema já vinha de longe. Contou que uns quinze anos antes, ele tinha uma casa na Praia da Enseada, que nessa época era um lugar bastante deserto. A casa ficava distante do mar e próxima do morro, onde já existiam alguns barracos de madeira. Certo dia, ele e a ex-mulher saíram de carro pra fazer compras no super-mercado e a empregada ficou tomando conta do garotinho, filho deles, que estava dormindo no quarto. Logo depois da partida dos patrões, a empregadinha quase morreu de susto ao ser agarrada pelas costas por dois negrões. “Dois crioulos mais pretos do que eu!”, comento a menina. Queriam dinheiro, jóias! Onde estava o dinheiro dos patrões? Ela entregou alguns trocados, que estavam guardados numa gaveta, e mais algumas bijuterias sem valor. Então os dois assaltantes foram embora, mas antes avisaram que, se ela avisasse o patrão daquela visita, eles voltariam e matariam todo o mundo que estivesse dentro da casa. Segundo a informação de um vizinho, os bandidos ficavam no alto do morro observando o movimento dos moradores, aproveitando-se da ausência deles pra invadirem as casas.
“Vendi a casa na semana seguinte”, concluiu Antônio.
Durante toda essa narrativa, a moça manteve o rosto voltado para o outro lado, como se observasse a paisagem escura que corria pela sua janela. No silêncio que se seguiu, Antônio começou a cismar que a moça tinha ciúme do seu passado. Bastava ele contar qualquer passagem de sua vida com a ex-mulher pra que a moça ficasse emburrada.
Tentando quebrar o gelo que se instalara dentro do carro, Antônio perguntou o que já sabia: “E como foi o assalto que vocês sofreram lá no Guarujá?”
“Eu já te contei, não lembra?”, respondeu ela com má vontade. “A filmagem acabou na praia de madrugada. A produção era uma merda e eu fui obrigada a pegar uma carona com a equipe técnica. Um idiota mandou parar o carro pra ir urinar atrás de uma árvore e fomos assaltados por um sujeito que nos apontou um revólver. Ele levou a câmera e a maleta com todo o material que a gente tinha acabado de gravar. Só isso.”
Em seguida, a moça ligou o rádio do carro, dando o assunto por encerrado.
Alguns minutos depois, desciam a serra. Antônio redobrou sua atenção na estrada porque baixou sobre o carro uma cortina de neblina e as primeiras curvas da estrada de Santos começaram a surgir à sua frente. Entretanto, como o tráfego era mínimo na passagem do sábado para o domingo, ele mal reduziu a velocidade do carro.
Veio-lhe à lembrança a música do Roberto Carlos e ele começou a cantá-la com voz desafinada, competindo com o som do rádio. A moça, que tinha a desculpa de não ter mais do que dezenove anos, comentou: “Já ouvi essa música. De quem é mesmo? Do Caetano?”
Antônio fez que não ouviu a pergunta e acelerou o carro mais um pouco.
“Vai mais devagar que eu tenho medo”, pediu a moça.
De repente, depois de uma curva fechada, Antônio viu a sua frente um ônibus encostado na mureta de pedra. Ele ainda conseguiu reduzir um pouco a velocidade do carro, mas, ao passar ao lado do ônibus, um policial fez sinal pra que ele parasse. Só faltava agora receber uma multa! Ele encostou o carro e ficou esperando pelo pior.
“Estão indo pra onde?”, perguntou o policial.
“Guarujá”, respondeu Antônio, crente de que iria ser achacado como tantas outras vezes.
“Acontece o seguinte, meu amigo: o ônibus quebrou e tem aí um casal com um bebê que tá passando mal. O senhor leva eles até o Guarujá?”
Apanhado de surpresa, Antônio não conseguiu inventar nenhuma desculpa pra se livrar daquela missão. Concordou em dar carona ao casal. Logo deu pra perceber que se tratava de gente muito humilde, talvez nordestinos, talvez favelados. Deviam ter no máximo uns trinta anos. A mulher carregava o bebê enrolado nuns panos pobres e o marido trazia na mão uma mamadeira vazia – e esta era a única bagagem de que dispunham. O marido mal sussurrou um “boa noite”, enquanto se acomodava com a mulher no banco traseiro.
E a viagem prosseguiu em completo silêncio, apenas quebrado pelo som do rádio. Não havia diálogo entre o banco da frente e o banco de trás.
A moça desligou o rádio quando o bebê começou a chorar, talvez o ruído o estivesse incomodando. Mas o bebê continuou chorando, enquanto os pais sussurravam frases incompreensíveis.
E o berreiro da criança prosseguia, irritando Antônio cada vez mais. Lembrava-se das noites em que fora obrigado a passar em claro por causa de seu filho, um bebê chorão de marca maior. Com algum esforço, vencendo a dificuldade de penetrar naquele outro universo, Antônio olhou pelo espelho retrovisor e viu a mãe sufocando o seu próprio choro abraçada ao filho.
“O que é que ele tem?”, perguntou a moça virando-se para trás.
“Não sei”, respondeu o pai. “Começou a vomitar na viagem.”
“Deve estar desidratado”, disse a moça, apanhando a garrafa de água mineral que tinha sobre o painel do carro e a entregando ao pai. A mãe preparou a mamadeira com água, que o bebê aceitou, suspendendo o choro.
Aí o carro já estava entrando na cidade, e a moça disse: “Vamos deixar vocês no pronto-socorro. Essa criança precisa ser medicada.”
Como ninguém respondesse nada, Antônio manobrou o carro para a esquerda, na direção da Enseada, onde ficava o pronto-socorro municipal, e não à direita, que os conduziria de imediato ao seu apartamento na Praia das Asturias. Outra aporrinhação!
Nisso o sinal fechou e Antônio automáticamente parou o carro, quando poderia ter avançado sem nenhum perigo de acidente naquela hora tardia. Então, como um raio, surgido do nada, Antônio sentiu uma coisa fria encostar na sua orelha esquerda. Virou o rosto e viu um rapaz magrinho atrás de um revólver. Ficou gelado, não conseguiu dizer nada. Ao seu lado, a moça gemeu e afundou no banco.
“Passa a grana, o relógio, o celular, passa tudo, tio!”, disse o magrinho, tremendo a arma no rosto apatetado de Antônio.
Aí então, do banco de trás, o pai do bebê interveio: “Zé, é o Ranulfo!” E aproximando o rosto da janela do carro, prosseguiu: “É o Ranulfo, Zé! Libera aí, meu irmão. O pessoal aqui é gente boa. O Júnior tá passando mal. Tão levando ele pro pronto-socorro.”
O assaltante baixou a arma e se afastou na direção das trevas.
Antônio tocou o carro e depois de algumas quadras, já mais calmo, perguntou: “Aquele sujeito era seu amigo?”
“Não. Era meu irmão mesmo. É bom menino, mas se meteu com droga, perdeu o emprego de gari e agora deu no que deu. Já levamos ele pra igreja, o pastor arrancou o demônio de dentro dele, mas depois voltou, não adiantou nada.”
Depois que o casal ficou no pronto-socorro, Antônio dirigiu o carro para o centro da cidade. Ainda na Enseada, à sua direita, ele examinou o local onde tivera a sua casa. Quase não reconheceu o espaço, tão diferente do que fora vinte anos antes. No lugar de sua antiga casa existia agora um condomínio com prédios altíssimos e, ao fundo, o morro transformara-se numa enorme favela.
“Os gatos, em cima do morro, observando a ratazana do asfalto, prontos pra dar o bote”, pensou Antônio, sem comentar nada com a moça. Ele desconfiava que, se o assunto voltasse a ser a casa da Enseada onde vivera com a ex-mulher, tal lembrança poderia dar origem a uma “discussão da relação” capaz de varar a noite, e ele estava muito cansado.

quinta-feira, 4 de março de 2010

HOPALONGO

“Andar, companheiros, levar por aí afora,
Para os sumidouros do vácuo sem fundo,
Os cacos e entulhos da fábrica mundo.”

Goethe, em “Fausto”



Era uma cidade vazia, um bairro desconhecido. E caia uma garoa fria de antigamente. As ruas de terra tinham virado um lamaçal cinzento que me sujava os sapatos e a barra das calças. Por isso eu caminhava com dificuldade tentando voltar para a casa em que estava hospedado. Além do mais, anoitecia e foi me dando um desespero por não encontrar o meu destino. O fato é que não sei como e nem porque tinha chegado até ali.
Debaixo de um telheiro avistei dois rapazes que conversavam enquanto fumavam o mesmo cigarro.
“Por favor, onde fica a rua tal?”, perguntei vencendo o meu desconforto.
Riram na minha cara. Depois um deles explicou:
“Você pega a primeira rua à direita, depois a segunda à esquerda...”
“Não”, interrompeu o outro, “pega a terceira à esquerda. É essa!”
Agradeci a informação e segui em frente, tendo a impressão de que eles ficaram rindo às minhas costas. Certamente eles se divertiam com o meu estado lastimável ou com a informação errada que tinham me dado.
Em todo caso, como imaginei que eles estivessem me observando, fosse ou não fosse gozação, dobrei a primeira rua à direita. Acabei encontrando um velho apoiado atrás de uma cerca de madeira. Debaixo de um guarda-chuva, ele parecia observar com olhos de coruja assustada o movimento da rua que era nenhum.
“Por favor, o senhor sabe onde fica a rua tal?”, perguntei.
“Eu não sei de nada”, respondeu o velho, “mas, se o senhor dobrar a próxima rua à direita, vai encontrar uma casa com um hopalongo na frente. Peça informação nessa casa. Ali reside o morador mais antigo do bairro, um velho mais velho do que eu, e ele sabe de tudo.”
“O senhor disse o quê? Um hopalongo?”
“Isso mesmo, um hopalongo!”, repetiu o velho, afastando-se depressa. Na porta do casebre, ele conseguiu fechar o guarda-chuva que quase lhe fugia das mãos engolfado pelo vento.
Fiquei ali parado debaixo da garoa, mais sozinho do que nunca O que seria um hopalongo? Alguma espécie de varanda na frente da casa? Algum modelo de automóvel? Um balanço de corda pendurado numa árvore? Alguma raça de cachorro vigilante? Um certo tipo de muro? Uma cerca viva? Que diabo seria um hopalongo? Aquela palavra me soava familiar, mas significando o quê?
Foi então que me lembrei de Hopalong Cassidy, o herói dos antigos faroestes da minha infância, a quem a molecada, inclusive eu, chamava de “Hopalongue Casside”. Por certo, não seria ele que eu iria encontrar nessa minha caminhada.
Enfim, não encontrei nada que pudesse ser um hopalongo e acabei me perdendo dentro da noite que me envolveu rapidamente.