terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

ALÉM DA ARREBENTAÇÃO

Para Will Damas, dramaturgo e poeta anarquista.


Acabo de ler no jornal que Vivi morreu afogada no Posto Cinco de Copacabana. Ela e um homem de quarenta anos, solteiro (não era o marido dela, portanto), foram nadar além da arrebentação e morreram afogados. Segundo testemunhas, o casal chamava a atenção porque estava aos beijos e abraços dentro d’água. Por incrível que pareça, os dois corpos foram retirados do mar ainda abraçados.
Ir além da arrebentação é muito perigoso. Só quem sabe nadar muito bem é que se atreve a tanto. Esse namorado de Vivi não era como eu: devia ser um bom nadador. Fico imaginando como teria sido a morte deles: ela cansou, sentiu câimbras; ele tentou salvá-la e também se afogou. Fim.
Essa notícia me faz lembrar o dia em que conheci Vivi, faz uns trinta anos. Nunca vou esquecer o que aconteceu porque, naquele dia, por uma estranha coincidência, eu também estive a ponto de morrer afogado no Posto Cinco.
Ela era uma menina magricela, ruivinha e sardenta, que sentou ao meu lado na areia e a quem eu ofereci um sorvete. Quando eu entrei no mar, ela veio atrás, me ultrapassou e ficou boiando lá adiante na arrebentação das ondas. Não sei nadar, mas queria me exibir pra ela e fui em frente até ficar com água na altura dos ombros. A onda grandona vinha, eu pulava no balanço dela. Quando voltava a tocar com o pé no fundo, a cabeça já estava fora d’água. E assim ia me mantendo junto de Vivi, segurando sua mão por debaixo d’água porque ela me avisou que seu irmão mais velho estava jogando futebol na areia e, se visse ela namorando, iria contar ao pai – que era um militar troglodita – e aí adeus praia.
De repente, me apavorei. Não dava mais pé por mais que me espichasse. Comecei a bater pernas e braços como um louco. Vivi conseguiu voltar pra onde dava pé, enquanto eu me desesperava engolindo água salgada. “Vem pra cá, vem!” – ela gritava assustada na minha direção. Ir pra junto dela era o que eu mais queria naquele momento, mas de que jeito¿ Nisso passou por mim um garotinho flutuando numa bóia e eu, já sem fôlego, no desespero, me agarrei no calção dele. Então o moleque começou a gritar comigo, me chamando de filho da puta, já meio de bunda de fora. Aí finalmente veio uma correnteza e me empurrou na direção da praia junto com o garoto. “Me larga, desgraçado! Brincadeira mais besta!” – ele reclamava ainda quando eu o soltei. Com muito custo fui saindo d’água, Vivi me puxando pela mão. “Teu irmão pode ver!” – avisei. “Você é mesmo um bocó!” – ela respondeu. “Quase morre afogado, não se agüenta em cima das pernas e ainda fica preocupado com o meu irmão! Ele que vá pro inferno!”
Havia mais: quando chegamos ao montinho de areia onde estavam os nossos pertences, tinham roubado o meu radinho de pilhas, que eu tinha comprado com tanto sacrifício, e um relógio de pulso que Vivi tinha herdado da avó dela. “É muito azar num dia só!” – falei pra ela. “Se eu pego o lazarento que roubou o teu relógio, encho o safado de porrada!” “Deixa pra lá! O que importa é que você não morreu afogado” – ela tentou me consolar.Coisas dramáticas como essas – o meu quase afogamento e o roubo dos nossos objetos de estimação – envolvem as pessoas. Eu tinha a impressão de conhecer Vivi há um século.
Descansamos um pouco na areia, um sol violento queimando pra valer, e depois fui levá-la até a casa da tia, que morava numa transversal da Nossa Senhora de Copacabana. A entrada de banhistas era dentro da garagem e ficamos dando um amasso lá junto do elevador, enquanto não passava ninguém. Beija daqui, beija dali, comecei a baixar a parte de cima do maiô dela, quando me aparece o zelador do edifício. Foi um Deus nos acuda! A gente se soltou, ela ajeitando o maiô, eu virando as costas para o homem, naquele estado. O empata-foda arranjou um paninho e começou a limpar os carros que estavam por perto só pra sacanear a gente. O jeito era ela entrar no elevador e eu dar o fora – era o que o zelador estava querendo nos dizer com aquelas esfregadelas nos para-brisas. “Sujeito mais idiota!” – falei no ouvido dela. “Vai ver nunca fez o que a gente tá fazendo e ficou com inveja. Essa raça de zelador e porteiro de edifício é tudo recalcado.” Ela então me puxou pela mão na direção da saída, me convidando pra tomar uma coca-cola no bar da esquina.
No meio do caminho, comecei a pensar: “Vou arriscar tudo de uma vez. Se colar, colou; se não colar, azar é o meu.” Já estávamos quase chegando ao bar e eu ainda criando coragem pra fazer a minha proposta. “Por que não vamos tomar coca-cola lá em casa¿” – despejei de uma só vez sem muita convicção. Ela pareceu não entender o que eu tinha dito (ou talvez estivesse ganhando tempo pra analisar melhor o meu convite) porque deu alguns passos sem reagir e depois perguntou com toda a naturalidade: “O que foi que você disse¿” Repeti, audacioso: “Por que não vamos tomar coca-cola lá em casa¿ Moro aqui pertinho, no fim da Sá Ferreira.” Ela andou mais um pouco e eu fui atrás, esperando tudo, que ela apressasse o passo e fosse embora em silêncio ou que, antes de ir, ela me aplicasse uma bolacha. “Bem que a gente podia, né¿” – disse ela finalmente parando na beira da calçada e me olhando na cara, como se me desafiasse. “Claro!”- baixei os olhos e continuei a caminhar sem saber pra onde estava indo. “Então vamos. Onde é mesmo o teu apartamento¿”- ela falou passando a mão na minha cabeça como se eu fosse criança.
Assim fomos para o meu apartamento (felizmente os dois caras que dividiam comigo o sala-quarto conjugado não estavam lá) e tudo correu bem até o ponto em que havíamos chegado na porta do elevador, quando o bendito do zelador nos interrompera. Agora, quando seguíamos adiante, ela começou a respirar com dificuldade, ronronando como uma gata. Isso ainda me deixou mais excitado. Mas logo percebi que interpretara mal os gemidos da garota. Ela estava passando mal e me pediu que eu fosse correndo até uma farmácia comprar um remédio contra asma: era muito comum sofrer ataque de asma quando se emocionava além da conta. Recebi um balde de água fria.
Me vesti correndo, fui à farmácia e voltei num segundo, apavorado com a idéia de Vivi morrer no meu apartamento, com toda a complicação que podia surgir daí. Mas ela logo voltou ao normal, depois de dar umas bombadas na garganta com o aparelho que viera dentro da caixa de remédio. Mais tarde, eu a levei de táxi pra casa, na Tijuca, e gastei uma nota preta. Voltei pra Copacabana de ônibus, preocupado com a minha situação financeira.
Muita coisa aconteceu depois. Sempre nos encontrávamos na praia, sob o olhar vigilante do irmão. Uma vez ela veio ao meu apartamento com um violão e me cantou um samba bossa-nova muito bacana que ela disse que tinha composto em minha homenagem, falava em onda do mar, areia, sol, verão, essas coisas. Ela tocava o violão apoiando o pé em cima do meu sofá-cama e acabou furando o estofamento com o salto ponteagudo do sapato, fiquei puto da vida e quase mandei ela embora.
Durante esse tempo todo, eu continuava mantendo na gaveta do armário o tal remédio contra asma. E quando a gente ia pra cama, a bombinha sempre ficava ao alcance da minha mão, porque à certa altura, quando ela se emocionava o bastante, lá vinha aquele rosnado de gata, e eu era obrigado a me conter e lhe aplicar meia-dúzia de bombadas na garganta. Era até divertido.
Vivi desapareceu durante as férias de verão e depois voltou, vestindo o seu uniforme de normalista, com um presente pra mim, um copo onde estava escrito: “Estive em Poços de Caldas e pensei em você!” Depois de algum rodeio, acabou dizendo que estava grávida por minha causa. Não acreditei muito, ela ficou zangada e foi embora gritando que nunca mais queria ver a minha cara. Duas semanas mais tarde, nos encontramos dentro de um ônibus e ela veio comigo ao meu apartamento. Mas não aconteceu nada dessa vez porque, antes do ataque de asma, ela começou a sentir outro tipo de incômodo: tinha feito um aborto poucos dias antes. Pra encurtar a história, acabamos discutindo e brigando. Falei que por causa dela eu tinha perdido o meu radinho de pilhas e o meu sofá-cama estava furado.
Depois desse dia, eu nunca mais a vi. Joguei fora o tal remédio contra asma, inclusive porque já devia ter perdido a validade.
Alguns anos depois fui abordado , na praia, por um sujeito muito simpático. Era o tal irmão dela. Me informou que ela tinha se casado com um capitão do exército e que estava esperando um segundo filho. Pra mim, ela continuou sendo a imagem comovente de uma ruivinha com pele de ferrugem, no seu uniforme de colégio de freiras.
Agora essa notícia no jornal... Pensando bem, o mais provável é que Vivi tenha se emocionado demais, além da arrebentação, levando consigo pro fundo do mar – igual uma sereia – o homem que não pudera livrá-la de uma crise de asma.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

ALGUMA MEMÓRIA (4)

“O que finalmente eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol.”
Albert Camus

Pela época do meu nascimento, meu avô Emílio tinha um time de futebol, em que jogavam os homens da família e alguns vizinhos. O mais curioso de tudo era o nome do time: “Os Onze Cardeais”. Usavam um gorrinho vermelho na cabeça, possivelmente em homenagem ao pássaro cardeal e não à púrpura religiosa dos príncipes da igreja. Lembro-me apenas dos tais gorrinhos vermelhos que, naquele tempo, eram peças indispensáveis ao uniforme dos futebolistas, que não queriam desmanchar o penteado ou serem atrapalhados pelas longas melenas.
Mas os dois grandes times amadores do bairro de São João eram o “Marquês do Alegrete”, com sede social na Rua Augusto Severo, quase na esquina com Benjamin Constant, e o “Farroupilha”. As partidas entre os dois times rivais geralmente acabavam em conflito generalizado. Acompanhado de um parente mais velho, eu gostava de assistir a essas disputas, que ocorriam em alguns campos da várzea próximos ao aeroporto, especialmente pra ver um beque central chamado Batoque, que, baixinho como o apelido sugere, costumava dar um salto mortal e rebater a bola com os calcanhares, exatamente como tantos anos mais tarde vimos o goleiro Higuita fazer. Outra jogada inusitada a que assisti uma vez foi no campo do Fiatece, no bairro dos Navegantes: um goleiro defendia pênaltis encostado a uma trave; quando o adversário chutava a bola, ele corria na direção da outra trave, agitando braços e pernas, e assim confundindo o cobrador.
Nesses gramados – e “gramados” é força de expressão, pois o que mais havia era terra batida – vi jogar um elegante centro-avante negro chamado Breno Mello, que mais tarde, atuando profissionalmente no Rio de Janeiro (mais precisamente, como reserva no Fluminense), foi convidado pelo diretor francês Marcel Camus a estrelar o filme “Orfeu Negro”, grande sucesso comercial na época. Depois disso, ele fez mais um ou dois filmes. Diz que nos últimos anos de vida, ele ganhou algum dinheiro exibindo uma cópia do “Orfeu Negro” e apresentando-se pessoalmente em cinemas do interior do Rio Grande.

Anos mais tarde, na década de 60, numa das casas do terreno de meu avô, morou um moleque de cabelos compridos chamado João Batista. Vivia ali com a mãe, que trabalhava fora o dia inteiro como enfermeira. Por isso, cabia a minha tia Luci tomar conta do moleque, que era endiabrado. Na década seguinte, ele se tornou conhecido como Batista, que juntamente com Paulo Roberto Falcão e tantos outros craques formaram o grande time do Internacional. Hoje, Batista é comentarista esportivo do canal “Sport TV”.
No “Marquês do Alegrete” brilhava o capitão do time, um center-half que jogava e comandava sua equipe com muita classe e que tinha o sugestivo nome de Napoleão. Casado com uma filha do presidente do clube, ele tinha o apoio das mulheres da família e da pequena torcida feminina, que gritavam em coro: “Napô! Napô! Napô!” Já o half-esquerdo, que devia ter uns 25 anos de idade, também era o treinador do time infantil do “Marquês”. Treinador também é força de expressão: ele apenas escalava o time e nos acompanhava durante os jogos. Havia algum comentário de que o sujeito gostava de bolinar os garotos nas sessões noturnas do cine Rosário, e a nossa tática era ficar longe dele.
O infantil do “Marquês” jogava de pés descalços e era formado por meninos entre dez e treze anos de idade. Eu jogava na meia-direita. Na ponta-direita tinha o Benito Marquesin, veloz e habilidoso. Tinha um enorme senso de humor e gostava de apelidar todo mundo. Chamava meu tio Breno Malta - gremista apaixonado pelo futebol, ainda hoje capaz de correr atrás de uma bola - de Tio Bubu. Benito era sobrinho do campeão gaúcho de ciclismo, Jovino Trombini, fato que o deixava muito orgulhoso.
O centro-avante (ou center-forward) era o Chico. Malicioso e esperto, ele vendia balas no cinema Colombo, na Avenida Cristóvão Colombo, onde assisti a muitos filmes da Metro sem pagar entrada devido a sua interferência.
Como zagueiros revezavam-se três meninos mais fortes: Mário, Aldoíno Zilio e Antoninho Além. Aldoíno acabou se profissionalizando como zagueiro do Novo Hamburgo e depois como treinador físico do Grêmio. Antônio Além não brincava em serviço: tenho um calombo no joelho esquerdo, que me impede de ficar ajoelhado por muito tempo, devido a uma entrada assassina que ele me deu. Foi meu colega no colégio dos padres, o São João Batista, e uma vez, numa aula de matemática, disse uma coisa interessante: na verdade ele deveria se chamar “Antônio Além na Segunda Potência”, já que seu pai e sua mãe eram primos e tinham o mesmo sobrenome. Também fazia parte dessa família sírio-libanesa um “brimo”, que todos os sábados à tarde aparecia no bairro carregando uma enorme cesta com os mais variados tipos de doces. Aquilo era uma festa! Mais recentemente, conversando com o jornalista e homem de teatro Edson Nequete, eu soube que, por um acaso do destino, era ele, Nequete, o tal vendedor de doces.
Outra figuraça era o Rui, apelidado de Cobra: mulato esquelético, jogava futebol usando uma reduzida sunga de natação esverdeada, deslocando-se pelo campo de maneira esquisita, como se fosse um réptil. Era engraxate ambulante, vivia em péssimas condições com a mãe adotiva e acabou morrendo de inanição aí pelos quinze anos. Certa vez, o Grêmio ia jogar em Novo Hamburgo, e Rui acabou sabendo que eu, meu pai e meu tio Breno, iríamos de carro até a cidade vizinha assistir ao jogo. Na noite anterior à partida, Rui acendeu uma vela e ficou zanzando diante de minha casa como se estivesse procurando alguma coisa que tinha perdido. Todo mundo preocupado, ele explicou que, realmente, tinha perdido a passagem de trem para Novo Hamburgo e o ingresso antecipado que havia comprado com tanto sacrifício. Compadecido, mesmo sem acreditar na história, meu pai deu carona ao Cobra e pagou o seu ingresso.
Os bailes de carnaval na sede social do “Marquês do Alegrete” eram famosos pela fantástica imoralidade, por isso não eram freqüentados pelas moças e rapazes de família. Quando muito, ficávamos discretamente na calçada pra ver a entrada das mulheres seminuas – e nem tão seminuas assim! Era um grande salão de madeira – o que não é surpreendente, já que a própria sede do Grêmio Porto-Alegrense, em plena Rua da Praia, não passava de um barracão cheio de taças, fotos e medalhas. Esses bailes eram organizados pelo faxineiro do clube, um homossexual rude e musculoso que habitava um quartinho junto ao salão. O único freqüentador desses bailes que eu conheci era o nosso amigo Nezinho, que gostava de nos reportar todas as bandalheiras que ocorriam no salão. Pouco mais velho do que a turma, era metido a malandro: cabelão preto cheio de brilhantina Glostora, calça boca dezoito apertadinha no tornozelo e um pentinho preto, que costumava manejar, em brigas imaginárias e ricamente coreografadas, como se fosse um punhal. No dia seguinte ao baile, a turma de bocós se sentava no bueiro da esquina da Vilela Tavares com Augusto Severo, e Nezinho nos contava como tinha sido a noite passada, que sempre acabava ao nascer do sol com ele e a odalisca transando sobre folhas de jornal, no meio do mato, junto ao campo de aviação.
Esse mesmo Nezinho encerrou sua carreira de malandro quando, certa noite, na frente do cinema Rosário, que ficava à meia quadra da sede do “Marquês”, se desentendeu com um desconhecido. Estava acompanhado de um amigo, um meu xará chamado Ênio, e puxou o seu famoso pentinho preto, que na penumbra passava como se fosse uma faca. O problema foi que o desconhecido puxou uma faca de verdade e saiu golpeando os dois amigos a torto e a direito. Sobrou para o meu xará, que morreu na hora, enquanto Nê passou um mês no hospital entre a vida e a morte, sobrevivendo afinal. O que o salvou foi estar vestindo um sobretudo Camelo, um casacão de pano grosso transpassado na frente, muito usado naqueles invernos.
Aí pelos treze anos, joguei futebol em outro time, o “Maltense”. Marino Boeira e Luiz Folchini, dois meninos que eram vizinhos na Rua Marquês do Alegrete, tinham acabado de fundar esse time. Apesar da origem italiana dos dois, puseram o nome português de “Maltense” porque haviam comprado numa liquidação um conjunto de camisetas que tinha no peito uma cruz de Malta. Aí jogávamos de chuteiras. Além de mim, diversos infantis do “Marquês” participavam da nova equipe, entre os quais, Aldoíno, Benito e Chico. Zeca e Ciro Chamoun, que se formaram comigo no Ginásio São João Batista, eram os novos colegas. Ciro jogava um bolão, era um centro-avante rompedor capaz de marcar muitos gols – ou “golos”, como se dizia.
Além do futebol, Marino e Luiz (colorados doentes!) tinham interesse por cinema e literatura, o que fortaleceu em muito a nossa amizade. Marino colecionava os livros publicados pela editora Mérito, assim acabei lendo “O Egípcio”, de Mika Waltari, “Uma Fábula”, de William Faulkner, “Eurico, o Presbítero”, de Alexandro Herculano, e tantos outros. Já muito politizado - torcia pelo Inter por causa da Internacional Socialista e da cor vermelha - Marino era fã de Sartre e dos grandes escritores russos. Emprestou-me “Os Caminhos da Liberdade”, “ A Náusea”, “Guerra e Paz”, “ Crime e Castigo”, “O Vermelho e o Negro”.
Voltando ao capítulo futebol, meu pai era torcedor do São José, certamente porque residira perto do clube, no Passo da Areia, logo que chegou do Interior. Quando o “Zequinha” fechou as portas, ele se tornou gremista por influência minha e de meu irmão, Evaldo Gonçalves, que mais tarde foi jornalista esportivo da “Zero Hora”. Eu fui gremista desde que nasci, influenciado por dois tios, Breno Malta (com quem jogava bola todos os finais da tarde) e Saturnino Fernandes Borba (que também foi meu padrinho de crisma).
Outro tio meu, tio Paulo, torcia pelo Renner não sei por que cargas d’água. Ele costumava me levar ao estádio do clube, situado na Avenida Farrapos. Lembro-me de ter assistido ali a uma partida entre o “Vasco da Gama” e o dono da casa. No “Vasco”, lembro-me do centro-médio Danilo e do centro-avante Ademir, jogadores da seleção brasileira. Outro craque que me impressionou foi o meia-direita Zizinho. Antes do futebol pela televisão, ver esses jogadores atuando era algo excepcional. Às vezes, conseguíamos vê-los rapidamente através do Canal Cem, que passava nos cinemas. Aí a vibração, tão distante, dos grandes clássicos do Maracanã nos causava uma grande impressão.
No “Renner”, cansei de ver dois jovens jogadores que depois se tornaram conhecidos nacionalmente: o goleiro Valdir de Morais e o zagueiro Paulinho, que logo se transferiu para o “Vasco da Gama”. E quando o “Renner” acabou, tio Paulo virou colorado, um absurdo!
Um fato esportivo que marcou a minha infância – e a de tantos brasileiros! – foi a perda da Copa do Mundo de 1950, que não ouvi pelo rádio porque tinha ido à matinê de domingo do cine Rosário. Quando saí do cinema, o clima de velório pairava no ar, o mesmo estado de choque causado pelo suicídio de Getúlio Vargas, quatro anos mais tarde. No dia seguinte, o avião que levava o time uruguaio de volta pra casa fez uma escala em Porto Alegre. Uma multidão acorreu ao aeroporto. Meu pai conseguiu um autógrafo do meia Juan Schiafino numa nota de dez cruzeiros, que ele guardou pelo resto da vida como lembrança daquele pesadelo.
Outro acontecimento marcante foi quando Tesourinha (Osmar Fortes Barcelos), ex-ponteiro direito do Internacional, depois de passar duas ou três temporadas no “Vasco da Gama”, voltou a Porto Alegre contratado pelo Grêmio. Tesourinha tinha sido o maior ídolo do futebol gaúcho, formando uma dupla infernal com outro jogador negro, o pequeno Adãozinho – a propósito de quem Plínio Marcos me contou uma história interessante: indo a Bauru para fazer uma palestra, o grande dramaturgo foi convidado a conhecer o famoso centro-avante gaúcho, que tinha encerrado sua carreira na cidade e que, agora, trabalhava na cozinha de um restaurante; conduzido até a cozinha, Plínio não conseguiu falar com Adãozinho porque ele estava dormindo dentro de uma panela.
Mestre Tesoura foi o primeiro jogador negro a vestir oficialmente a camisa do Grêmio, e me lembro de tê-lo visto jogar pelo meu time, já com mais de trinta anos, mas ainda com incrível velocidade e domínio de bola, voando pela lateral direita ou cortando enviesado do meio de campo na direção do gol adversário. Imagens Inesquecíveis!
Tesourinha ficou como o meu ídolo esportivo, assim como é o ídolo de tantos colorados que o viram jogar. Em entrevista que vi recentemente, o colorado Luiz Fernando Verissimo também o colocou no mesmo pedestal.
(Continua)

sábado, 9 de janeiro de 2010

ALGUMA MEMÓRIA (3)

“A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas.”
Chico Buarque em “Leite Derramado”.

Pablo Neruda deu um título muito expressivo – e que se presta a diversas interpretações – à sua autobiografia: “Confesso que Vivi”. Já Daniel Filho escreveu “Antes que me Esqueça”, certamente com a preocupação de contar sua vida antes da chegada do deletador Alzheimer.
Outro título autobiográfico muito interessante é “As Amargas Não...”, diário em que o poeta gaúcho Álvaro Moreyra excluía de suas lembranças os momentos amargos. E ele viveu uma vida bastante agitada: poeta, jornalista, cronista, também foi homem de teatro. Tentou sacudir a poeira do teatro nacional na década de 20, fundando com sua mulher, Eugênia Álvaro Moreyra, a companhia “Teatro de Brinquedo”. Também é autor de uma peça de estrutura surpreendente para a sua época, “Adão e Eva e os Outros Membros da Família”, em que mostra personagem cheirando cocaína. Se bem que, naquele tempo, esse era um hábito social bem aceito nas altas esferas.
Claro que não tenho a pretensão de “escrever para a posteridade” estas minhas lembranças. Se algum amigo, parente ou descendente meu se interessar em ler estes retalhos de memória, já me dou por satisfeito. De minha parte, curioso que sou, gostaria que meus antepassados tivessem me deixado algum registro escrito de sua passagem por este mundo.
*
“Apaga a luz, quinta coluna!” – este deve ter sido o primeiro bordão que aprendi em minha vida.
Lá pelo final da Segunda Grande Guerra, quando o Brasil resolveu participar do conflito, houve um treinamento de alerta para a população civil, caso acontecesse um {improvável) ataque aéreo alemão. No início da noite, a Quarta Delegacia de Polícia – que ficava na rua Pereira Franco, a duas quadras da casa de meu avô Emílio – acionava uma sirene estridente que alertava toda a vizinhança. Imediatamente todas as luzes da casa deviam ser apagadas. Ficávamos todos, adultos e crianças, olhando pelas frestas das janelas para verificar se realmente havia um blecaute total. Se houvesse qualquer resquício de luz na vizinhança, sempre ouvia-se um gaiato gritando: “Apaga a luz, quinta-coluna!”
A chamada “Quinta Coluna” correspondia à rede de espiões nazistas que atuavam fora da Alemanha . Luz acesa poderia indicar o alvo para o bombardeio aéreo. Na casa de meu avô havia um cuidado especial em atender à regra do blecaute, pois minha avó tinha receio de ser vítima do preconceito de algum vizinho mais xenófobo. Os Rohden e os Dullius, vizinhos próximos que falavam alemão com minha avó, deviam ter o mesmo tipo de preocupação. Aliás, meu avô, que não tinha nada de germânico, também aprendera a língua através da convivência com a família de minha avó, os Buhl. Minha mãe dizia que, quando criança, só se falava em alemão em sua casa.
No final da guerra, houve racionamento de gasolina, e os veículos passaram a ser movidos à gasogênio, que ficava armazenado em um tubo de aço junto ao motor. Entretanto, como todo mundo, meu pai começou a comprar gasolina no mercado negro a fim de abastecer o seu caminhão. Um grande tonel de metal, meio escondido no fundo do quintal, junto à garagem, servia de depósito para a preciosa gasolina.
E foi atrás desse tonel que tive a minha primeira experiência sexual. Acontece que numa das casas que meu avô alugava veio morar uma menina loura e ranhenta chamada Anita, mais ou menos da minha idade, uns cinco ou seis anos. Nos dias de verão, as mães costumavam dar banho nas crianças dentro de dois tanques de lavar roupa, que ficavam lado a lado no quintal. Eu já tinha visto a menina pelada dentro do tanque, mas não ousara olhar direito porque morria de vergonha. Mas, nesse belo dia de sol, fomos os dois para trás do tal proibido tonel de gasolina, tiramos nossas roupas e ficamos ali examinando detidamente, com direito a toque, tudo o que faltava nela e que sobrava em mim. Nisso, ouvimos passos que se aproximavam e nos vestimos rapidamente. Era minha mãe, que, recuperando-se de uma operação pulmonar, vinha se sentar ao sol a fim de cicatrizar o corte que tinha às costas. Em vez de esperar um tempo, eu e Anita saímos precipitadamente como dois idiotas do nosso esconderijo, sob as vistas de minha mãe, dando a maior bandeira. Adão e Eva esgueirando-se do paraíso cheios de vergonha.
O terreno do meu avô era um universo completo. Em outras duas casas, um tio e uma tia já começavam a formar suas famílias, com filhos menores do que eu. A convivência com os meus tios - por parte de pai e por parte de mãe, eram uns doze tios com quem convivia diariamente – enchiam aquele espaço de surpresa s e descobertas. Nas laterais do terreno, minha avó plantava flores e árvores de fruta: pêra, amora, laranja, maçã, parreiras de uva.
Revejo minha mãe deitada numa espreguiçadeira debaixo de uma parreira: magra e pálida, recuperando-se da terrível tuberculose, ela está lendo um folhetim com estranhas ilustrações de pessoas e ambientes que eu nunca tinha visto antes, que despertam minha curiosidade, certamente europeus em Paris ou Roma no final do século anterior. O que salvou a vida de minha mãe foi – como ela acreditava – uma profunda fé religiosa em Nossa Senhora, aliada ao advento da penicilina e à perícia do médico que a tratou, o Dr. Augusto Maria Sisson. (Quando jovem, esse pneumologista também foi um conhecido jogador de futebol do Grêmio e, depois, do Flamengo, do Rio. Participou, em 1912, da maior goleada gremista, que aplicou 23 a 0 no Sport Club Nacional de Porto Alegre, quando Sisson marcou nada menos que 14 gols - ou “golos”, como diziam os gaúchos naquela época em que o futebol ainda era amador. Com mais de 90 anos, o Dr. Sisson ainda esteve na Amazônia praticando medicina social. Que vida!)
Nos fundos do quintal, havia um enorme espaço para os animais, galinhas, patos, porcos, coelhos, porquinhos-da-índia. E guardando a criação animal, em espaço próprio à frente do xiqueiro e do galinheiro, o Tarzã, um cachorro selvagem que daria o alerta caso um ladrão de galinhas se aproximasse nas trevas da noite.
Certa vez meu tio Vili resolveu pôr em prática um artigo da revista "Seleções do Reader’s Digest", que ensinava como fazer a gestação de pintinhos utilizando-se do calor da luz elétrica. Meu avô aceitou, mas não quis tomar conhecimento da experiência. Aquela modernidade absurda só iria aumentar a conta de luz no final do mês.
Lembro-me de minha irmã Eda, dois ou três anos de idade, balançando uma chaleira velha, dentro da qual estava um pintinho que ela, em sua inocência, acabara de sacrificar. Meu avô ficou furioso. Vejo-me também em cima da carroceria do caminhão de meu pai, jogando pedrinhas nos pintinhos amarelos que ciscam lá no chão. Acabo acertando um coitadinho e corro a enterrá-lo antes que alguém perceba o meu crime.
O terreno vizinho que ficava aos fundos era desabitado. Como nunca tinha sido aterrado, era um banhado que volta e meia se transformava num verdadeiro lago. Certa vez, Clóvis e César, meus primos por parte de pai, que moravam no outro lado da cidade, na Azenha, vieram nos visitar. À vista daquela lagoa, tiveram a idéia de juntar umas madeiras velhas que estavam por ali e construir uma jangada. Feito isso, improvisaram um remo e saímos os três navegando por aquelas águas perigosas. Achei aquela aventura de uma ousadia estupenda. Eu nunca ousara pensar em fazer uma coisa daquelas. Meus primos eram bem mais espertos do que eu. Droga, eu não passava de um bocó! Assim, aprendi com os meus dois primos que eu deveria ser mais audacioso.
Nesse mesmo dia, Clóvis me deu mais uma lição: me ensinou como se dá o nó no cadarço do sapato, com aquelas quatro pontas de igual tamanho.
Tio Nenê, o irmão mais velho de meu pai, tinha mais dois filhos homens, além do Clóvis e do César. Numa fase de crise financeira, ele trouxe a família para morar conosco. Então esses meus primos espertos trouxeram com eles dois verdadeiros tesouros: três caixotes abarrotados de revistas em quadrinho e a coleção completa do Tesouro da Juventude. Foi aí que eu descobri a coisa mais útil e mais bonita criada pelo homem: o livro.
Já em nossa adolescência, depois de muitos anos sem contato, certa noite apareceu em minha casa esse meu primo Clóvis carregando um violão. E deu um show, sob os nossos olhares basbaques. Disse que aprendera a tocar sozinho utilizando-se de um estranho método: durante os bailes do clube, ele, que não podia entrar porque não era sócio, ficava lá na rua tentando acompanhar com seu violão a música da orquestra.
Cantar, vá lá! E minha tia Luci fazia o trabalho de casa cantando tangos e boleros com sua bela voz. Mas tocar um instrumento musical, para meu avô Emílio, era coisa de vagabundo! Por isso, meio apreensivo que meu avô me visse, todos os sábados à tarde eu ia até o portão de um vizinho, um velho sapateiro que - além de ser conhecido como o único espírita kardecista do pedaço – fazia um sarau musical no quintal de sua casa. Ele tocava cavaquinho e fazia-se acompanhar de mais dois músicos: um rapaz que tocava pandeiro e um violonista que também cantava e soprava uma gaitinha acoplada sobre o violão. Era um momento mágico em que desfilavam, ao vivo, todos os grandes sucessos da música brasileira daquela época e do passado.
Foi numa dessas sessões musicais que ouvi pela primeira vez a composição de Dorival Caymmi“Marina”: “Marina, morena Marina, você se pintou...” Ouvindo a letra dessa canção tive uma revelação: percebi pela primeira vez dois sentimentos que me eram desconhecidos: o amor que une um casal e, principalmente, a dor duma coisa chamada ciúme, que pode arrasar com tudo: “Eu já perdoei tanta coisa. Você não arranjava outro igual. Desculpe, morena Marina, mas eu estou de mal. De mal com você.”
(continua)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

ALGUMA MEMÓRIA (2)

“A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade.”
Manuel Bandeira

À medida que os filhos foram se casando, vô Emílio foi construindo casas em seu enorme terreno, onde se instalavam as novas famílias. Depois de um tempo, essas casas foram sendo alugadas e mesmo vendidas para outras pessoas. E, numa dessas subdivisões do terreno, veio morar a família dos meus outros avós, os pais de meu pai. Naturalmente, meu pai deve ter intermediado a venda.
Este outro ramo de minha família veio do interior do Estado, mais precisamente de Glorinha, que naquele tempo fazia parte do município de Santo Antônio da Patrulha. Meu avô Osório Gonçalves dos Santos, gauchão alto e magro, era casado com minha avó Dinah, conhecida como Picucha devido a sua pequena estatura. Meu pai – Francisco Soares Gonçalves - costumava mencionar às vezes um seu avô apelidado de Chico Diabo, possivelmente uma referência a façanhas revolucionárias típicas dos velhos tempos. Sabendo-se que no final da Guerra do Paraguai, em 1870, o ditador Solano Lopes foi morto por um ordenança chamado Chico Diabo, fica a dúvida se meu bisavô teve alguma coisa a ver com aquilo ou não. Por sua vez, meu pai lembrava-se de que, aos quinze anos de idade, na Revolução de 23, teve de esgueirar-se por baixo de cercas de arame farpado, a mando de seu pai, a fim de levar certa mensagem secreta para um chefe revolucionário. Seu nome, Francisco, advém desse avô, além do fato de ter nascido numa fazenda em São Francisco de Paula, uma região montanhosa próxima a Gramado. Além de um sobrinho com o nome de Francisco, também sou Ênio Francisco. E o santo de minha admiração - devido a sua maravilhosa biografia e ao extraordinário filme de Roberto Rosselini (“Francisco, o Arauto de Deus”) – é São Francisco de Assis.
Os Soares, Santos e Gonçalves tinham, pelo menos até a minha infância, as características pessoais típicas de determinado tipo de gaúcho, herdadas de seus antepassados, os paulistas de Sorocaba que colonizaram o Rio Grande do Sul no século 18. Tal situação é muito bem descrita por Érico Veríssimo em “O Continente”, a primeira parte de sua obra-prima “O Tempo e o Vento”. Para melhor cuidar de suas tropas de burros, cavalos e rebanhos de gado, os paulistas, que inicialmente iam e vinham em direção ao sul, começaram a se fixar no pampa gaúcho, deixando alguém da família de vigia o tempo integral. Isso porque castelhanos da Banda Oriental do Uruguai invadiam o Rio Grande a fim de roubar gado. Em seu isolamento, na função de vigiar seu rebanho, esse tipo de gaúcho – que se opõe àquele outro, o falastrão contador de proezas – tornou-se extremamente introvertido e desconfiado. Qualquer sujeito desconhecido que chegasse perto de sua estância era motivo de desconfiança: podia ser ladrão de gado. Fundamental era derrubar árvores: atrás delas ou em sua sombra poderia estar se escondendo o inimigo. Não sem razão - na minha adolescência, quando eu costumava chegar tarde da noite em casa - meu pai cortou uma grande árvore que jogava sombra na calçada da rua e no quintal. Teve de se haver com um fiscal da Prefeitura!
Então o menino Lolinha – meu pai era conhecido na intimidade como Lola – nasceu e se criou no campo na companhia de mais dez irmãos. Parece que levavam uma vida bastante ociosa, não se dedicando muito a plantar ou criar gado. Tive tal impressão pelos relatos da família e ao visitar a fazenda duas vezes quando menino. Tudo era muito primitivo e abandonado; o chão da casa era de terra batida, e a roupa era lavada numa pequena sanga, de onde também se recolhia a água para consumo.
À beira dessa sanga assisti a uma cena inesquecível: minha mãe e tia Maria estavam lavando roupa, quando meu primo Cláudio, de dois ou três anos, caiu de um barranco dentro d’água e desapareceu das nossas vistas; ao vir à tona pela segunda vez, minha mãe o catou pelos cabelos e o trouxe para a margem são e salvo.
Imagino que talvez a fazenda tenha entrado em decadência, tal como acontece na dramaturgia de Jorge de Andrade (“O Telescópio”, “A Moratória”, “Rasto Atrás”), que trata desse tema em razão da Crise de 29 no interior paulista. O fato é que, ao se tornarem adultos, meu pai e todos os seus irmãos acabaram se mudando para Porto Alegre em busca de melhor situação. Por último, meus avós também abandonaram a estância e vieram se juntar aos filhos, que agora eram obrigados a trabalhar arduamente para sobreviverem.
As distâncias eram longas. Pra se ter uma idéia, uma vez que meu avô veio de Glorinha a Porto Alegre levou um dia inteiro por caminhos tortuosos no lombo de um cavalo. Somente no início da década de 30, por obra do interventor Flores da Cunha, é que a estrada foi pavimentada com concreto. E ficou conhecida pelo nome de "Faixa". Hoje fazemos essa mesma viagem em meia hora de carro pela “Free Way”.
Depois que outros irmãos vieram para a cidade grande, meu pai também botou o pé na estrada. Veio morar com uma irmã mais velha, casada com um italiano – o tio Canova - e residindo no Passo d’Areia, bairro situado ao lado de São João. O primeiro emprego que arranjou foi o de ajudante de caminhão, depois virou motorista e, finalmente, feliz proprietário do fantástico Chevrolet Gigante da minha mais tenra infância.
Em setembro de 1935, houve uma grande festa campal em Porto Alegre, no Parque da Redenção – hoje Parque Farroupilha – em comemoração ao primeiro centenário da Revolução Farroupilha. Nesta festa meus pais se conheceram. Formavam um belo casal, como se pode ver na foto oficial do casamento: ele muito elegante com seu cabelo preto e liso, ela lourinha como sua mãe.
Minha avó Picucha, depois que se mudou para a Capital, nunca mais quis sair de dentro de casa, raramente chegava até o portão do quintal. Sempre que eu passava na rua pra ir ao colégio, lá estava ela, curiosa e assustada, espiando o mundo detrás de sua janela. Permaneceu reclusa, ouvindo rádio ou jogando víspora com as filhas por uns trinta anos, até sua morte.
Uma única vez saiu de casa. Por ocasião do Golpe Militar de 64, apavorada com a ameaça de bombardeio a Porto Alegre, ela pediu que um filho a levasse de carro para Taquara, município próximo à fazenda de Glorinha, onde se homiziou junto a umas primas que não via desde muito tempo. Lembrava seu tempo de menina, no isolamento da fazenda, quando as histórias de degola – a chamada “gravata vermelha” - corriam soltas nas revoluções gaúchas. Ela tinha vivenciado a terrível Revolução Federalista de 1893, em que, das dez mil vítimas, mais de mil foram degoladas a sangue frio, segundo o historiador Carlos Reverbel.
Em 64, meu avô Osório já tinha morrido fazia tempo. Lembro-me dele rezando o terço antes de ir dormir. Da casa do meu outro avô, que ficava no terreno ao lado, revejo sua cabeça branca passar pela janela alta de sua cozinha, indo e vindo, pra lá e pra cá, enquanto recita ave-marias e padre-nossos.
No dia em que ele morreu e foi velado na sala, meu outro avô, tomando chimarrão na calçada ao lado, vangloriava-se por ainda estar cheio de saúde. Era dia 31 de dezembro, e tal data deprimia tanto meu pai que, daí em diante, nunca mais quis comemorar a entrada do ano novo, recolhendo-se bem cedo à cama.
Outra cena dolorosa que ainda tenho viva diante dos olhos refere-se à morte de uma prima ainda menina. Chamava-se Regina e foi a primeira filha de tia Maria e tio Antônio, irmão de meu pai.
Naquele tempo o enterro era feito a pé, cobrindo-se a distância de uns três quilômetros até o Cemitério São João Batista, com os homens acompanhantes revezando-se na condução do féretro. Crianças conduziam o caixão da criança morta.
Na hora do enterro, quando o caixão foi sendo levado para fora da casa de Vô Osório, tio Antônio foi o último acompanhante do cortejo. Ainda vejo meu tio – que era muito parecido com o ator Cary Grant – parado no vão da porta, desgrenhado, pés descalços, camisa aberta, olhando o caixãozinho branco da filha afastar-se. Ele não consegue andar, desaba no degrau da escada, segura a cabeça enlouquecida com as duas mãos e urra de dor. Nem no cinema assisti até hoje cena tão trágica.
(continua na próxima semana)

sábado, 12 de dezembro de 2009

ALGUMA MEMÓRIA (1)

No belo filme argentino “O Mesmo Amor, a Mesma Chuva”, de Juan José Campanella, um escritor frustrado (interpretado por Ricardo Darin) resolve publicar um livro autobiográfico. Discutindo a obra com um amigo jornalista, logo surge o conhecido aforismo: “Pinte tua aldeia e serás universal.” Replica o amigo: “Tudo bem, mas você não precisava pintar a tua aldeia com merda.”
Espero, nestas minhas memórias, não estar fazendo a mesma coisa

*

Minha primeira lembrança, aí pelos dois anos de idade, é um barquinho – na verdade, um toquinho maciço de madeira em que fora esculpido um barquinho, pintado de vermelho e amarelo, possivelmente confeccionado por meu avô Emílio, pai de minha mãe, que era marceneiro. Vejo-me de pé na escada da cozinha de minha casa manobrando com um barbante o tal barquinho, que bóia no quintal graças uma das muitas enchentes que seguidamente inundavam nosso bairro na década de quarenta.
Esta cena acontece em um terreno de meu avô, que ocupava mais ou menos meio quarteirão da Rua Vilela Tavares, entre as ruas Souza Reis e Augusto Severo, bairro de São João, em Porto Alegre. Naquele espaço tive a sorte de viver toda a minha primeira infância, convivendo com meus quatro avós e mais uns trinta parentes - pais, irmãos, tios e primos –, território esse que hoje se me afigura pleno de magia.
Vô Emílio tinha nascido em 1893 em um vilarejo às margens do rio dos Sinos, filho de um professor de escola primária, que na minha imaginação delirante bem poderia ter sido o louco dramaturgo Corpo Santo, que andou por aquela região dando aula. Ainda adolescente meu avô emigrou para Porto Alegre em busca de trabalho. Logo conseguiu emprego como açougueiro e foi nessa condição que conheceu minha avó. Típico brasileiro, de sobrenome Silva, acabou se casando com a lourinha alemã, de uma família de imigrantes alemães, os Buhl.
Imagino que meus avós tenham se conhecido no açougue, ele cortando carne, ela comprando os melhores filés para uma rica família de alemães da Avenida Independência, a rua mais chique da cidade, onde ela, ainda menina, trabalhava como empregada doméstica. O fato é que acabaram se casando, ele com dezenove anos de idade, ela com dezessete. Naquele momento ele já tinha mudado de emprego, era marceneiro em um estaleiro do Rio Guaíba, enquanto ela foi ser dona de casa para poder cuidar da penca de filhos que foi nascendo. E já estavam morando na casa que ele construíra com suas próprias mãos no enorme terreno da minha infância, naquele tempo uma região quase deserta, sujeita às cheias do Guaíba e às águas de chuva que desciam dos altos da Rua Benjamin Constant.
Assim é que, pelos cinquenta anos seguintes, a grande preocupação de meu avô foi aterrar sua propriedade. Com carrinho de mão, carroça puxada por burro ou caminhão de carga, ele obsessivamente carregou terra ou entulho que lhe eram doados com o objetivo de deter as inundações que se sucediam na época das chuvas. Somente na década de sessenta, quando a rua foi calçada e a região urbanizada, foi que ele pode descansar da sua labuta. Lembro-me de meu pai, que tinha um caminhão Chevrolet Gigante, trazendo entulho de alguma obra. E, à medida que o quintal ia sendo aterrado, as casas de madeira iam sendo erguidas através de macacos manuais, pedras e troncos de árvore. Eu assistia aquela operação, que envolvia diversos homens da família, com grande curiosidade.
Certa vez, vi uma cobra de mais ou menos meio metro esgueirando-se para debaixo de uma casa que estava rente ao chão. Alertei meu avô, que, munido de um alicate, desapareceu da minha vista arrastando-se pelo espaço exíguo em que a cobra se enfiara. Depois de um minuto aflitivo, ele reapareceu com a cobra presa na ponta do alicate. Que avô corajoso!
Não conheci ninguém que acreditasse tanto na importância do trabalho como meu avô. Getulista, depois de ter sido um integralista seduzido pelo nacionalismo de Plínio Salgado, ele costumava dizer com muito orgulho que, em sua juventude, tinha trabalhado dezessete horas por dia no estaleiro, antes das leis trabalhistas criadas por Getúlio Vargas.
Conta-se que em sua fase integralista, meu avô convenceu toda a família, inclusive os genros, a usar camisa verde, tendo oferecido sua casa para reuniões políticas com Alberto Pasqualini e Plínio Salgado. Sobraram dessa época alguns bancos compridos que ele construiu para as tais reuniões que congregavam os integralistas do bairro. Quando Getúlio ameaçou com prisão qualquer manifestação integralista, as bandeiras e as camisas verdes foram imediatamente enterradas no fundo do quintal. Isso não o impediu de se tornar um ardoroso getulista. Nacionalista exaltado, sempre hasteava na frente da casa uma enorme bandeira brasileira durante a Semana da Pátria. Pregava a derrubada das florestas e a construção de estradas para o progresso do país.
Agora vô Emílio estava trabalhando por conta própria, construindo e reformando casas de madeira, as suas e as da vizinhança. Algumas vezes, durante as férias escolares, cheguei ajudá-lo a destelhar algumas casas. Como não recebia pagamento e ainda era repreendido por quebrar algumas telhas, deixei de ajudá-lo, apoiado por meu pai que temia que eu, aos doze ou treze anos, recebesse alguma telhada na cabeça.
Nos fundos da casa onde morava, meu avô mantinha a sua oficina, com uma comprida e sólida bancada de madeira e toda a sorte de ferramentas de marcenaria: torno, serras e serrotes, martelos, formões, alicates, prumos, furadeiras, plainas, enxós, lixadeiras, pé-de-cabra, pás, enxadas, chaves-de-fenda, pregos e parafusos - objetos encantados que eu, moleque, gostava de fuçar, para desespero do velho que não gostava que mexessem nos seus pertences. Mas ficava satisfeito quando alguém profetizava que, devido ao meu interesse, quando eu crescesse iria ser marceneiro como ele.
Ao final de um dia de trabalho, enquanto minha avó regava as plantas, flores e árvores de fruta, meu avô trazia uma cadeira para a calçada, onde ficava tomando chimarrão e puxando conversa com todos os vizinhos que passassem pela rua. Gostava de prosear contando histórias que tinha vivido, algumas verdadeiras, outras inventadas por sua rica imaginação – como a narrativa de ter comandado um batalhão de soldados alemães em combate na Primeira Grande Guerra, ele que nunca tinha ido além do rio dos Sinos, a quarenta quilômetros de Porto Alegre. Outra aventura que ele, já senil, gostava de contar é que tinha conhecido dentro de um ônibus um radialista da Rádio Gaúcha que o levara até a emissora, onde ficara no ar durante um tempão recitando as suas trovas.
Minha avó, cujo nome era Elizabeth, chamada de Alice devido à sonoridade próxima do nome alemão, não era menos trabalhadeira que o marido. Teve oito filhos, sendo que um morreu ainda bebê e outro, Valter, aos dezessete anos, vítima de uma tuberculose provocada, como diziam, por uma bolada nas costas quando jogava futebol. Pra mim, durante a minha infância, ele foi um personagem mítico porque era sempre lembrada na família a minha semelhança física com ele, fato comprovado pelas fotografias que conheço dele. Da mesma forma, examinando a fotografia de casamento de meu bisavô Joseph Buhl, ainda na Alemanha, percebo agora a nossa espantosa semelhança física. Esse bisavô teve um fim trágico: funcionário de uma fábrica de cerveja de Porto Alegre, gostava de beber no trabalho e nas horas de folga; por causa disso, morreu afogado ao cair de um pontilhão durante uma enchente.
A penúltima vez que vi minha avó, eu já morando no Rio de Janeiro, ela com mais de setenta anos, encontrei-a no topo de uma escada de pedreiro caiando com uma broxa uma casa que iria alugar. Dois ou três anos depois, voltei a encontrá-la em seu leito de morte: tinha sofrido uma queda e quebrara a bacia.
Vó Alice vivia em função da família, cuidando dos filhos e netos, aplicando injeções, cataplasmas e clisteres, ajudando nos partos e na preparação dos velórios, o nascimento e a morte dentro de casa, naquela época.
Eu era o seu neto mais velho. Recordo sempre que ela me levava pela mão quando ia fazer compras; entrava no armazém e fazia com que o vendeiro deixasse eu escolher as balas de figurinha, com a foto de jogadores de futebol ou artistas de cinema, que faltavam na minha coleção. E por todo o caminho ela ia parando para conversar com as pessoas conhecidas, às vezes em alemão, um dialeto bárbaro que sempre escutei com encanto apesar de não entender absolutamente nada. Guardo até hoje comigo, como herança, uma coleção de cartas e cartões postais que ninguém consegue decifrar completamente, enviados pelos familiares que ficaram na Alemanha, em que está incluído um outro ramo da família, os Adam. Essa correspondência foi interrompida no começo da Segunda Guerra Mundial.
Meu avô, talvez por ciúme machista, não gostava que minha avó ficasse batendo perna pela rua. Certa vez, ao chegar em casa no final da tarde, encontrou a porta trancada à chave. Não teve dúvidas: pegou um machado e arrebentou a porta. Logo depois, quando minha avó chegou, partiu pra cima dela com uma daquelas navalhas antigas de fazer barba. Vejo a imagem assustadora de meu pai impedindo a agressão, segurando ao alto os punhos de meu avô, a navalha nua brilhando em sua mão direita. Outra vez comentou-se que ele tinha espancado brutalmente o burro que resolvera empacar. A explicação para tais acessos de raiva era a de que ele tinha sido mordido por cachorro louco quando era menino.
Mas o parente que me parece o personagem mais desequilibrado na minha infância foi o tio França – ou Franz, como era chamado pelo lado alemão da família. Irmão de minha avó, costumava aparecer somente à tarde para fazer um lanche e escapar à vista de meu avô, que não o suportava por não trabalhar. Andava sempre de terno, todo amarrotado e puído. Morava sozinho numa casa que herdara da família no bairro dos Navegantes e tinha o hábito de recolher tudo quanto era quinquilharia que encontrasse na rua: jornais velhos, latas usadas, garrafas vazias, móveis e máquinas quebradas. Como não tinha fonte de renda, cortou a luz elétrica e vivia à luz de velas. Depois de anos, a casa e o quintal estavam superlotados de lixo, ratos e baratas.

Fui algumas vezes a sua casa acompanhando minha tia mais jovem, a tia Luci, que seguidamente o procurava para saber de seu futuro. Sim, tio França tinha o dom de ler a sorte nas cartas do baralho. Minha mãe, muito católica, achava que era pecado consultar as cartas, mas mesmo assim certa vez me atrevi a verificar o meu destino: eu iria sair de Porto Alegre e iria trabalhar para grandes empresas, segundo as palavras de meu tio-avô vidente.

(continua na próxima semana)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

CONTO (3)

MEU PRIMO PADRE
para Carlos Reichenbach Filho

Eu e meu primo temos mais ou menos a mesma idade e somos os primos mais velhos da minha família por parte de mãe. Entretanto, a diferença entre nós dois – pelo menos no início desta história, quando tínhamos mais ou menos uns doze anos – era enorme. Entre outras coisas, ele era atlético e louro, morava no alto da rua Dom Pedro Segundo, reduto dos alemães abastados de Porto Alegre, estudava no Colégio Rosário, o mais caro da cidade, e estava aprendendo a tocar violino com um professor particular. Eu, ao contrário, era magrinho e tímido, morava na parte baixa da cidade, estudava numa escola pública e alimentava o sonho impossível de aprender a tocar piano.
Por falar nisso, nunca esqueço da primeira vez em que vi alguém tocando um solo de piano, quando aconteceu comigo uma espécie de epifania – pra usar uma palavra que está na moda e que pouca gente sabe exatamente o que significa. Eu devia ter uns cinco ou seis anos de idade. Minha mãe e eu subíamos a escadaria que divide a Galeria Chaves ao meio, quando comecei a ouvir um ruído que nunca tinha ouvido antes. Escapei de minha mãe e corri à sua frente tentando encontrar a origem daquele som fascinante. Dentro de uma loja de instrumentos musicais – situada à esquerda de quem sobe na direção da rua da Praia, quando a galeria se alarga - um pianista executava uma valsa que, anos mais tarde, descobri ser “Sobre as Ondas”. Agarrei firme a mão de minha mãe obrigando-a a permanecer comigo diante da grande vitrine, atrás da qual um homem, sentado diante de uma estranha caixa preta com uma tampa levantada, produzia um som que inundava o meu dia de brutal felicidade. Que magia seria aquela vibrando no ar com tanta beleza e me transportando pra não sei onde? Minhas pernas tremeram. Parecia que ia desmaiar, daquela mesma maneira que costumava desmaiar de fraqueza, sentado em jejum no banco da igreja, antes da comunhão dominical. Mas a emoção era inusitada, uma vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Naquele momento revelador tomei consciência de mim, descobri que eu existia, que eu era alguém com existência própria e independente de pai e mãe, que agora eu era apenas um menino, mas que mais tarde - era só ter paciência de esperar o tempo passar – eu seria um adulto livre o bastante pra poder realizar os meus sonhos, fossem eles quais fossem. Meu destino estava em minhas mãos, só dependia de mim mesmo.
Mas voltando ao meu primo, toda a vez que ia visitar a casa de meus tios eu era obrigado a ouvir-lo arranhando o seu violino em exercícios exasperantes, exatamente o oposto da inesquecível melodia da Galeria Chaves. Eu tinha a impressão de que ele estudava violino meio obrigado pela mãe, uma bela mulher de origem alemã com quem meu tio tinha feito um bom casamento. Então, toda a família reunida na sala, sem entender grande coisa, servia de auditório para meu primo exibir sua habilidade artística. Finda a audição, íamos brincar no quintal, onde ele finalmente se sentia à vontade pulando pelos galhos de uma árvore enorme como se fosse o Tarzã. Do chão, preocupado com os avisos paternos de que não subisse em árvore porque poderia quebrar o pescoço, eu apenas o observa cheio de admiração.
Tais visitas geralmente ocorriam aos domingos depois da missa, aonde tínhamos a obrigação de ir. À tarde, íamos assistir a matinê do cinema América, no Passo d’Areia, que cobrava a ninharia de um mil réis pelo ingresso e exibia dois filmes seguidos, além do episódio semanal do empolgante seriado “Marte Invade a Terra”.
Por essa época aconteceu um fato que me parece marcante. Nosso avô começou a insistir pra irmos visitá-lo num sitiozinho que ele tinha acabado de comprar fora da cidade, um pouco antes de Cachoeirinha. A idéia não me animava muito visto que o nosso avô fazia questão que chegássemos de manhã “bem cedinho a fim de aproveitar o dia”, conforme ele dizia. Já nessa época eu odiava acordar cedo e, tudo bem, tinha a sorte de estudar à tarde. Ao contrário, meu primo estudava de manhã no colégio dos padres e anda tinha o estranho hábito de acordar de madrugada pra fazer ginástica, que ele chamava de “calistênica”.
Vai daí que numa madrugada fria das férias de inverno, nós dois tomamos o primeiro ônibus na direção de Cachoeirinha. O campo começava logo depois do Sarandi e estava coberto pela colcha branca da geada que tinha caído durante a noite. A viagem, que hoje se faz em dez minutos pela via expressa que conduz ao litoral, durou quase uma hora pela estrada ruim. Acordei com meu primo me dando um tapa na cabeça e morrendo de rir. Saltamos do ônibus no ponto certo. O sol ameaçava surgir na linha do horizonte mas era encoberto por uma neblina tão espessa que mais parecia a fumaça de um incêndio. Não se via um palmo diante do nariz, mas era só seguir em linha reta pelo campo aberto que ia dar num morro, como nosso avô nos indicara. Mesmo sem nenhuma visão, começamos a andar cada vez mais depressa como se estivéssemos começando uma brincadeira, um jogo, uma disputa pra ver quem era o mais veloz de nós dois. “Eu sou o Roy Rogers, o rei do faroeste!”, gritou o meu primo no começo do morro, transformando-se em cavalo e cavaleiro ao mesmo tempo.
“E eu sou o Hopalong Cassidy!”, retruquei eu. E sem perda de tempo, saí em disparada meio que patinando na grama molhada pela geada. Apanhado de surpresa, meu primo ficou para trás. Mas logo ouvi ele gritando o meu nome desesperadamente. Achando que aquilo fazia parte do jogo, continuei correndo morro acima. De repente, no meio daquela neblina pastosa de filme de terror, senti uma garra apertando o meu braço e me impedindo de seguir em frente. Instintivamente tentei escapar. “Espera!”, berrou ele no meu ouvido.
Durante alguns segundos ficamos parados no meio do breu, diante do nada. Então, subitamente, o sol apareceu e iluminou o vale à nossa frente. Percebi então que estávamos parados à beira de um precipício que limitava o morro com um corte brutal. Mais um passo e eu teria caído no abismo e, agora, possivelmente não estaria aqui relatando a nossa história.
Premonição do meu primo diante do perigo iminente? Sei lá! Como o episódio nunca foi discutido por nós dois, nem naquele dia nem nunca, decidi naquela época que o meu primo tinha sido o meu anjo-da-guarda salvador, aquele das lições de catecismo que vela por nós nas horas de perigo.


Uns dez anos mais tarde eu estava morando no Rio de Janeiro, onde acabara de cursar o Conservatório Nacional de Música como bolsista. Um belo dia recebo um telegrama do meu primo me avisando que daria uma passada pelo Rio e que gostaria de se encontrar comigo. Fazia muitos anos que não nos víamos, mas eu sabia pela família que ele estava estudando num seminário franciscano em Divinópolis, interior de Minas Gerais.
Dia aprazado ele bate à minha porta, num apartamento conjugado que eu dividia com dois colegas do Conservatório. Eu tinha imaginado que, como bom seminarista, ele viria de batina e com aquela cara sofrida de são Francisco de Assis, tal como foi pintada por Portinari. Entretanto, ele surge à minha frente mais bronzeado de sol do que eu que vivia à beira-mar, usando uma surrada camiseta de meia branca, calça que parecia ser de pijama amarrada na cintura por um cordão e sandálias empoeiradas, essas sim franciscanas – um verdadeiro hippie, o que não deixava de estar na moda naquela época do “paz e amor”
“Cadê a batina?”, perguntei em tom de gozação.
“Deixei no seminário”, respondeu ele sorrindo. “Não sei se você sabe, mas a gente não é mais obrigado a usar batina o tempo todo. Os tempos são outros. Depois de João XXIII a Igreja mudou.”
Convidei-o pra tomar um chope na beira da praia e assim fomos trocando notícias até o final daquela bela tarde de verão com o sol se pondo lá pros lados do Posto Seis. Ele não tocava mais violino. Nem tinha certeza se poderia ter um violino consigo, já que o tal voto de pobreza dos franciscanos estabelecia que ninguém poderia possuir bens particulares. Lembrava-se da minha cara de enfado quando, menino, eu era obrigado a ouvir as audições em que ele maltratava o violino. Nunca imaginara que eu me interessasse pela música e muito menos que, um dia, eu fosse me meter a estudar piano.
Acabou me revelando o motivo de sua vinda ao Rio. “Amanhã embarco pra Alemanha. Veja só, vou estudar a história da religião católica em Frankfurt.”
“Mas precisa ir tão longe a fim de estudar essa história?” – brinquei. “Vamos até ali na igreja Nossa Senhora da Paz que o padre te conta tudinho.”
“A coisa é séria, meu amigo”, respondeu ele e, depois de verificar a mesa ao lado onde dois turistas argentinos cantavam uma mulata, me confidenciou em voz baixa: “Fui mandado pra Alemanha como uma espécie de punição. Acho que você não é tão alienado a ponto de não saber o que está acontecendo no país. Andei me envolvendo num movimento contra a ditadura lá em Minas, e os meus superiores resolveram me mandar embora. Eu acho que é censura, mas eles dizem que fazem isso com o objetivo de proteger a minha integridade física, porque os milicos já me deram umas porradas e continuam atrás de mim.”
Ao tomar conhecimento da ação subversiva do meu primo, achei que seria interessante ele me acompanhar numa visita que eu faria aquela noite. Acontece que a minha namorada morava com uma amiga em Botafogo e tinha me convidado pra jantar com elas. Avisei que talvez eu levasse comigo o meu primo seminarista, o que causou sensação nas hostes femininas: como seria aquela avis rara?
Tomamos um ônibus na Nossa Senhora de Copacabana e fui explicando ao meu primo a situação. Eu estava prestes a ficar noivo, de aliança no dedo como mandava o figurino, e pretendia me casar assim que desse. Isso porque eu tinha alguma convicção de que iria vencer o concurso pra pianista da Orquestra Sinfônica. Então algum dinheiro ia começar a entrar. Por outro lado, minha namorada tinha um emprego razoável, era assistente da colunista social do “Correio da Manhã”. Expliquei também que ela estava dando um tempo em Botafogo porque tenha entrado em desavença com a família, que pertencia ao ridículo café-soçaite carioca e que não aceitava o envolvimento dela com um artista morto de fome.
Mas quem eu achava mais interessante meu primo conhecer era a colega da minha noiva, a que dividia o apartamento com ela. Também jornalista, ela era casada com um professor que estivera preso como terrorista e que, agora, morava na Suécia, pois fora trocado por um embaixador seqüestrado. Ela próprio fizera parte do grupo de seqüestro, o que eu desconfiava mas não sabia com certeza naquela época.
Chegamos ao apartamento e fomos recebidos com festa pelas duas moças, que foram logo abrindo uma garrafa de vinho. “Vinho da missa em homenagem ao padre”, disseram elas.
Minha namorada era mais reservada, enquanto a outra era despachada e bem-falante – daquelas cariocas que têm voz bonita e que costumam falar alto, além do charme especial dos esses e erres. Figura típica da boemia da Zona Sul, espécie de musa da bossa nova e do cinema novo, ela provocou uma série de crônicas apaixonadas escritas por Carlinhos Oliveira no “Jornal do Brasil”; certo fim de noite, no Zepelim, o marido da musa encontrou o cronista completamente bêbado e, não conseguindo mais conter o ciúme, encheu-o de porradas. “Abaixo a ditadura!”, gritou o pobre do Carlinhos sendo socorrido pelos garçons.
Não duvido que ela amasse o marido, mas, com ele agora na Europa, acredito que eventualmente se envolvesse com outros homens pois não estava morta nem nada. E eu estava curioso pra ver se meu primo iria conseguir resistir àquela mulher sedutora. Com o vinho fazendo efeito, ela não se fez de rogada e começou a se jogar pra cima do meu primo. Como uma espécie de provocação, contou uma história que tinha acontecido com ela alguns anos atrás. Uma noite ela voltava de São Paulo de ônibus quando um homem usando batina ocupou a poltrona ao lado. ”O padre era jovem e bonito como você”, disse a sapeca encarando o meu primo. “E confesso que tentei seduzi-lo. Fiz que dormia e fui me encostando nele, primeiro o braço, depois a perna. O padre começou a rezar baixinho, mas não se esquivou de mim. Depois de um tempo, deu pra gemer num sussurro, parecia choramingar, coitado. Mas a coisa não passou disso, que pena! De manhã, quando chegamos ao Rio, ele saltou do ônibus e foi embora como se não houvesse acontecido nada. Se ele quisesse, poderia ter acontecido tudo.”
Devidamente alcoolizado, tanto quanto os outros três, fui sendo dominado por um certo espírito maligno: eu queria tirar a prova dos nove, queria descobrir enfim se aquela vocação do meu primo para o celibato era verdadeira.
Ele, no entanto, permaneceu incólume. Sempre elegante, foi se esquivando do assédio da moça. O tempo todo desviou o assunto para temas mais sérios, como a situação política do país, a censura, a guerrilha no Araguaia, a prisão dos dominicanos em São Paulo. As duas jornalistas, que na redação de seus jornais tinham acesso a informações censuradas, revelaram acontecimentos que espantaram meu primo. Ele acabou concordando que o mais seguro seria mesmo cair fora do país, antes que fosse torturado e morto.
Na madrugada quente do Rio, eu e meu primo fomos caminhando devagar até Copacabana. Logo no início da Barata Ribeiro, alguns caminhões do exército, ali estacionados, estrangulavam a metade da rua. Da outra calçada, meia dúzia de basbaques, certamente sem noção do que estava acontecendo, espiavam os soldados entrando e saindo do prédio em frente. Passamos direto como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, mas sabíamos que haviam “estourado um aparelho”, como se dizia na época. "Eu me sinto um merda”, desabafou o meu primo. “Me sinto um cachorro fugindo com o rabo entre as pernas!”
Mais adiante, sem que eu lhe perguntasse nada, me disse que sua vocação religiosa era coisa verdadeira. E que nós dois tínhamos a sorte de ter tido, em nossa família, uma sólida formação cristã. E isso – por mais que ocasionalmente nos afastássemos da Igreja – seria um fato fundamental em nossas vidas. Estávamos marcados pra sempre. Seríamos sempre pessoas do bem.
Antes de pegar o ônibus pra voltar ao convento onde estava hospedado, ele encerrou a conversa me recomendando que não deixasse de ler a filosofia cristã de Teilhard de Chardin e “Os Sete Pilares da Sabedoria”, de Thomas Merton. Não segui seu conselho. Por essa época eu estava encantado com a literatura nada edificante de Henry Miller.


Nosso próximo encontro – e que também foi o último – aconteceu recentemente. Quando eu soube que iria dar um concerto em Brasília, logo pensei em rever o meu primo, que residia lá, aposentado como professor da Universidade. Liguei diversas vezes pra Porto Alegre e, com grande dificuldade, finalmente consegui o telefone dele.
Pelas vagas informações que me chegaram através daqueles anos todos, ele tinha largado a batina no final dos anos oitenta. Depois foi dar aula na Universidade e acabou se casando com uma jovem aluna. Era só o que eu sabia.
Chegando ao Hotel Nacional por volta do meio-dia, a primeira coisa que fiz foi ligar pra ele. Atendeu uma voz de menina, eu me identifiquei e logo ouvi qualquer coisa como “Papai, o seu primo de São Paulo quer falar com você”. Esperei um tempão, até achei que não iria me atender, mas finalmente ele se manifestou dando uma desculpa qualquer pela demora. Não entendi porque ele tinha vacilado em conversar comigo. Talvez estivesse apenas se refazendo do espanto com o surgimento de um fantasma vindo lá das brumas do passado. “Quem atendeu foi a minha filha”, explicou. “A mais novinha. Tenho quatro.”
Imaginei que em seguida ele fosse me convidar pra ir até o seu apartamento tomar um café e conhecer sua família. Como o convite não veio, propus que nos encontrássemos naquela tarde à beira da piscina do hotel. Ele vacilou outra vez: deu uma pausa dizendo que ia consultar sua agenda. Acabou marcando nosso encontro para dentro de meia hora; o resto do dia estaria muito ocupado. “Vai ver” - pensei cá comigo – “quer se livrar logo de mim, que devo ser um chato de galocha querendo me enturmar com ele depois de tanto tempo.”
Fui aguardá-lo à beira da piscina debaixo de um inesperado céu nublado. Fiquei lá sozinho tomando a minha cerveja e pensando na vida, que não estava nada fácil. Alguns dias antes, depois de um bate-boca com minha mulher - a quinta de uma série -acabei batendo a porta e machucando a mão esquerda. Meu ortopedista tirou uma chapa e garantiu que estava tudo bem, mas a mão doía pra danar. Claro que eu iria me dar mal no concerto do dia seguinte, se minha mão não melhorasse.
Nisso percebi meu primo se aproximando. Seria mesmo ele? Parecia ter encolhido de tamanho, perdera o porte atlético, a barriga crescera, o cabelo ficara branco e escasso. Pensei com os meus botões que, aos seus olhos, eu também teria me tornado um caco, mas pelo menos meu cabelo continuava abundante e escuro – à custa de muita tintura, mas escuro.
Nossa conversa não engrenava, nossas lembranças familiares eram tristes, sua mãe estava internada num asilo com Alzheimer, quase todos os nossos parentes mais velhos, e mesmo alguns mais novos, já tinham morrido.
Comentei que ele tinha ficado muito parecido com o pai. Ele retrucou: “Você também. Estamos quites.”
Ousei perguntar por que tinha deixado de ser padre. “Te confesso que não sei direito”, respondeu ele lentamente, parecendo analisar suas razões. Pediu mais uma cerveja e acendeu um cigarro. Depois continuou: “Não sei se eu perdi a fé. Mas o fato é que depois de João XXIII a Igreja mudou muito, mudou até demais. Você não faz idéia do que aconteceu com a minha Ordem. Foi se transformando, sei lá. Virou um refúgio de homossexuais. Uma coisa absurda.
De repente as nuvens se esgarçaram e o sol começou a brilhar através do ar seco de Brasília. Algumas mesas próximas foram sendo ocupadas. Crianças se jogaram na piscina fazendo baderna e nos respingando de água. Meu primo chamou o garçom e pagou a conta. Antes que ele se fosse, convidei-o a assistir ao meu recital na noite seguinte. Que também levasse a família. Os convites estariam à sua disposição na bilheteria do teatro.
Ameaçou se despedir ali mesmo, mas fiz questão de acompanhá-lo até hall do hotel. No último instante, quando íamos nos afastando da piscina, cruzamos com uma bela loira que sorriu pra nós. Paramos e ficamos observando o que ia acontecer. À beira d’água, ela tirou a saída-de-praia e revelou um corpão bombado mal encoberto por um reduzido biquíni. Depois esticou a toalha no chão e se deitou de barriga pra baixo, exibindo ao sol o esplêndido bumbum.
“Puta merda, que mulherão!”, não se conteve o meu primo.
No fim das contas ele tinha se tornado um homem comum. Um homem de meia-idade comum. Exatamente assim como eu.
Não me surpreendeu ele não ter comparecido ao meu concerto na noite seguinte.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

CONTO(2)

VISITANTE

Não tenho a mínima idéia de quem é esse homem. Sei apenas que é um perfeito cavalheiro, sempre elegante com seu terno e gravata, os sapatos pretos muito bem engraxados. Percebo este detalhe porque, ao sentar-se na poltrona, ele cruza as pernas e mantém suspenso no ar o pé direito como se fosse um belo pássaro negro e reluzente.
Não se trata de uma invasão, porque ele age de maneira muito educada. Mas certas noites, nas raras vezes em que a família está toda reunida, depois do jantar e da novela, ele entra pela porta do nosso apartamento, caminha pelo corredor, entra na sala, senta-se sempre no mesmo lugar e fica vendo televisão. Não pede licença, não dá boa-noite, não diz uma palavra. Mas, apesar disso, sua presença me traz uma espécie de tranquilidade, como se fosse ele, e não eu, o dono da casa, o responsável por alguma coisa que não sei bem o que é. Ele nada diz e nada lhe é perguntado. Tanto nós quanto ele agimos com a maior naturalidade nessa hora de perfeita convivência.
Trata-se de um homem sério, de mais ou menos uns sessenta anos. Pelo modo como se veste e se comporta, deve ser um burocrata bem sucedido, um diretor de banco, um alto executivo, um chefe de repartição, que sei eu? Às vezes, quando a noite é mais quente, ele toma a liberdade de afrouxar a gravata e tirar o paletó, revelando assim um discreto par de suspensórios, daqueles de antigamente, quando eles combinavam com o cinto.
O mais estranho é que ele não me lembra ninguém que eu tenha visto ou conhecido em toda a minha vida, nem pai, nem parente, nem vizinho, nem artista de cinema ou televisão. Mas, apesar disso, é como se eu o conhecesse desde que nasci.
Ele é apenas uma testemunha silenciosa do que se desenrola ali na sala, quando a família se reúne e contamos uns aos outros o que nos aconteceu naquele dia, o que é quase sempre a mesma coisa. Quando surge um fato surpreendente, ele não aparenta nenhuma emoção, apenas fecha os olhos por alguns momentos e descansa em sua poltrona preferida, que por um acaso é a minha preferida também quando ele não está.
A primeira vez que notei sua presença em nosso apartamento, faz muitos anos, foi numa pequena reunião familiar, possivelmente alguma festa de aniversário não lembro de quem. Achei então que ele tivesse vindo acompanhando algum parente ou amigo da família, apesar dele ter se mantido isolado na sua (minha) poltrona a noite toda sem se relacionar com ninguém. Em dado momento, o nosso gato angorá, sempre tão arisco, aproximou-se dele miando e tranquilamente subiu ao seu colo. Com toda a delicadeza deste mundo, ele repôs o bichinho no chão, que, acredito, sentindo-se rejeitado foi embora da sala pra nunca mais voltar, sendo que na manhã seguinte foi encontrado morto, caído lá no andar térreo.
Depois dessa primeira noite, ele tem vindo sempre mesmo sem ser convidado. Mas a verdade é que, com seu jeito discreto e natural, ele nos cativou profundamente, a ponto de eu temer o dia em que ele deixar de nos visitar. Aí espero que ninguém se jogue pela janela.
Tarde da noite, quando já estamos todos meio sonolentos, ele se levanta e vai embora. Na porta da rua, ele vira-se meio de perfil e dá um boa-noite geral quase imperceptível, um simples murmúrio, que mal consigo ouvir e que mais adivinho porque mal posso vê-lo do sofá onde estou derreado. Hora de dormir.